Egípcios tentam bloquear Parlamento e aumentam pressão com greves

No Cairo, opositores buscam impedir entrada de membros do partido de Mubarak; choques no oeste do país deixam quatro mortos

iG São Paulo |

No 16º dia de protestos contra o governo do presidente egípcio, Hosni Mubarak, manifestantes  estenderam as ações para além da praça Tahrir, no Cairo , e se concentraram pelo segundo dia em frente ao Parlamento egípcio, para tentar bloquear a entrada. Enquanto isso, disparos durante choques entre as forças de segurança e 3 mil manifestantes deixaram quatro mortos e diversos feridos no Vale Novo, província no oeste do Egito, informaram nesta quarta-feira a TV estatal e fontes de segurança.

No centro do Cairo, os manifestantes sentaram diante do Parlamento para impedir a entrada no local. "Viemos para impedir a entrada dos membros do governista Partido Nacional Democrático (PND). Ficaremos até que nos deem o que pedimos. Se não, morreremos aqui", disse Mohamed Abdalah, de 25 anos, enquanto os manifestantes gritavam frases contra Mubarak e exibiam bandeiras egípcias.

Militares e veículos blindados vigiavam o edifício do Parlamento, que é dominado pela bancada do PND de Mubarak. "Este Parlamento não foi eleito pelo povo", afirmou Mohamed Sobhi, um estudante de 19 anos. "Queremos derrubar o regime inteiro e não apenas o presidente, porque todo o regime é corrupto", completou.

Além dos protestos, opositores egípcios deram início a um novo tipo de mobilização, fazendo greves em diversas cidades e regiões, depois de o vice-presidente egípcio, Omar Suleiman, ter alertado para os perigos à sociedade de uma campanha de desobediência civil. “Não queremos negociar com a sociedade egípcia com ferramentas policiais”, ameaçou Suleiman.

Um dia depois dos maiores protestos no Egito em duas semanas, aumentou a pressão sobre o governo de Mubarak. Muitos dos manifestantes foram inspirados pelo depoimento emocionado do chefe do Google para Oriente Médio e África, Wael Ghonim , que ficou 12 dias vendado e detido por forças egípcias.

Na maior das greves, de acordo com o jornal americano The New York Times, cerca de 6 mil trabalhadores de cinco empresas de propriedade da Autoridade do Canal de Suez – um dos maiores polos econômicos do Egito – decidiram parar na terça-feira à noite. Mais de 2 mil trabalhadores têxteis e outros em Suez deram início a uma greve. Em Luxor, milhares atingidos pelo colapso da indústria do turismo protestaram pedindo benefícios governamentais.

Na cidade de Port Said, em Suez, cerca de 300 moradores de favelas colocaram fogo em partes do prédio do governo local e em dezenas de motocicletas, ao protestar contra a omissão do governo, que falhou em construir moradias. A polícia não interferiu, e os manifestantes montaram barracas na praça central da cidade.

Em uma fábrica têxtil de Al-Mahalla, no norte do país, mais de 1,5 mil trabalhadores bloquearam estradas. Cerca de 2 mil empregados da companhia famacêutica Sigma fizeram greve na cidade de Quesna, enquanto em Aswan outros 5 mil jovens desempregados protestaram em frente ao prédio do governo, pedindo a renúncia do governo local. Para muitos turistas que vão ao Egito, Aswan é o ponto de partida para cruzeiros de luxo para Luxor, pelo rio Nilo.

No Cairo, trabalhadores estatais do setor de saneamento protestaram. Servidores públicos do Museu do Cairo pediram maiores salários e se manifestaram em frente do Conselho Supremo de Antiguidades, cercando o chefe de antiguidades Zahi Hawass. Além dos maiores salários, os manifestantes também pediram mais recursos para o setor.

Choques violentos

Os confrontos no Vale Novo, província que inclui um oásis no deserto ocidental do Egito, irromperam na terça-feira e continuaram até esta quarta-feira, segundo as forças de segurança. Sem dar mais detalhes, a TV estatal informou que quatro morreram nos combates, enquanto 70 ficaram feridos - 13 com gravidade.

O incidente aparenta ser o primeiro grave confronto entre a polícia e manifestantes desde que forças de segurança ocuparam as ruas do Egito depois de agredir e atirar gás lacrimogêneo e balas de borracha contra manifestantes em 28 de janeiro, data que ficou conhecida como o " Dia da Ira ". O presidente Hosni Mubarak enviou o Exército às ruas naquela noite, mas vários dias de saques e desordem seguiram à retirada da polícia e muitos prisioneiros fugiram das prisões.

A manifestação no Vale Novo, cerca de 500 quilômetros ao sul do Cairo, foi a primeira reunião de tamanho considerável contra Mubarak na região, segundo fontes da segurança.

EUA

O governo dos Estados Unidos fez um apelo para que o Egito acelere o processo de reformas democráticas no país e suspenda imediatamente o estado de emergência que vigora há 30 anos, desde a chegada de Mubarak ao poder. O vice-presidente americano, Joe Biden, fez o pedido durante uma conversa telefônica com Suleiman na noite de terça-feira.

Na praça Tahrir, milhares de manifestantes passaram a noite e retomaram os protestos na manhã desta quarta-feira. "Não se cansem, não se cansem, a liberdade ainda não foi alcançada", gritava um militante no centro da praça. Duas crianças de sete e oito anos andavam em meio aos manifestantes com cartazes que diziam "Mubarak mata o povo".

Um dos manifestantes, o jurista Essam Magdi, mostrou-se indiferente quanto às comissões criadas pelo governo para reformar a Constituição. "Não podem ocorrer negociações enquanto Mubarak não for embora. Quando ele cair, poderemos falar de muitas coisas", afirmou.

"Não queremos um Estado militar, nem um Estado religioso. O que queremos é um Estado baseado em instituições e em eleições", disse Atif Awad, um carpinteiro de 34 anos e integrante da Irmandade Muçulmana, principal força da oposição no Egito.

Nesta quarta-feira, o comitê para a reforma constitucional decidiu emendar seis artigos da Carta Magna, entre eles os referentes à limitação de mandatos e requisitos para ser candidato presidencial.

Número de mortos

Na terça-feira, a entidade de direitos humanos Human Rights Watch afirmou que o serviço de Saúde controlado pelo governo do Egito vem tentando ocultar o número de mortos nos conflitos registrados no país desde 25 de janeiro.

De acordo com a entidade, os choques já deixaram 297 mortos, mas os órgãos de Saúde estatais não divulgaram uma cifra oficial abrangente de mortos. A Human Rights Watch diz ter obtido essa cifra por meio de várias visitas realizadas a sete hospitais nas cidades de Cairo, Alexandria e Suez.

Segundo Heba Morayef, a pesquisadora da entidade respónsável pelo Cairo, o número de mortos deve aumentar. A Human Rights Watch afirma que muitas das pessoas que morreram foram vítimas de ações da polícia para conter os conflitos, como disparar contra a multidão ou fazer uso de balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio à queima roupa.

De acordo com Boutros, no primeiro dia de protestos, o dia 25, ''a polícia realmente protegeu os manifestantes". "Mas quando a violência eclodiu, quando edifícios e estações de polícia começaram a ser queimadas, quando saques e assassinatos começaram a ocorrer, a polícia teve de proteger, de certa forma, a si mesma contra vândalos'', disse.

*Com AP, AFP, Reuters e EFE

    Leia tudo sobre: egitohosni mubarakoposiçãomanifestações

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG