Egípcios e polícia entram em choque após massacre em estádio

Manifestantes denunciam falha de forças de segurança em impedir morte de 74 na quarta; choques de hoje deixam 388 feridos

iG São Paulo |

A polícia egípcia lançou gás lacrimogêneo para tentar dispersar milhares de manifestantes nos arredores do Ministério do Interior que protestavam contra a falha das forças de segurança em evitar tumultos em um campo de futebol que deixaram 74 mortos na quarta-feira. Os choques deixaram 388 feridos, de acordo com Adel Adawi, uma autoridade do Ministério de Saúde, a maioria por inalação de gás lacrimogêneo, contusões e ossos quebrados por pedras que foram lançadas.

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Manifestantes retiram mulher sofrendo com efeitos de gás lacrimogêneo no Cairo (02/02)
O episódio no estádio de futebol reforçou a sensação de que a junta militar que governo o Egito não conseguiu restaurar a ordem, quase um ano após a queda do ex-presidente Hosni Mubarak . Autoridades graduadas na cidade de Port Said foram demitidas, enquanto a associação de futebol egípcia foi dissolvida . O governador de Port Said renunciou, enquanto o diretor de segurança da cidade e o chefe de investigações foram suspensos e estão sob custódia. Três dias de luto foram declarados no país.

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Quase 10 mil manifestantes, incluindo torcedores, marcharam nesta quinta-feira reivindicando medidas contra os responsáveis pela violência sangrenta, que muitos indicaram ter acontecido pela falta de ação da polícia. Os manifestantes forçaram sua passagem pelas barricadas montadas ao redor do prédio do ministério perto da Praça Tahrir, livrando-se de barreiras de arame farpado.

Na rua Mohammed Mahmoud, perto da Praça Tahrir do Cairo, os manifestantes arremessaram pedras contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo. Essa rua foi palco, em novembro, de violentos distúrbios em protestos contra a junta militar egípcia. Alguns participantes do protesto caíram no chão enquanto tentavam se livrar da repressão. No início, os disparos de gás eram esporádicos, mas passaram a ser cada vez mais frequentes, sendo possível ouvir sirenes de ambulâncias na área.

A violência de quarta-feira aconteceu na cidade de Port Said depois que torcedores invadiram o campo no fim do jogo em que o clube Masry conseguiu um rara vitória por 3 a 1 contra o al-Ahly. Os dois times têm um histórico de rivalidade, mas a violência teria se acirrado porque os policiais demoraram para conter os torcedores.

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Manifestantes egípcios retiram homem afetado por gás lacrimogêneo lançado por policiais durante confrontos no Cairo (02/02)
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Torcedores do al-Ahly, conhecidos como “ultras” , disseram que a falta de ação das forças de segurança foi uma “retaliação” pelo papel da torcida nos protestos que forçaram a queda de Mubarak, em fevereiro de 2011.

“Eles querem nos punir e nos executar por causa de nossa participação na revolta”, afirmou a torcida, em comunicado, pedindo “uma nova guerra em defesa da revolução”. Recentemente os torcedores fundaram o partido político Beladi, que quer dizer “meu país”, para difundir o crescente espírito de liberdade política no Egito.

Antes da marcha até o ministério, dezenas de manifestantes furiosos protestaram na Praça Tahrir, centro do Cairo, enquanto outros grupos fecharam uma rua em frente ao prédio da TV estatal.

Em sua página no Facebook, os torcedores lançaram ataques contra o marechal Mohamed Hussein Tantawi, chefe da junta militar que governa o Egito desde a queda de Mubarak.

"Queremos sua cabeça, Tantawi, seu traidor", escreveram os torcedores. "O marechal e os remanescentes do regime nos mandam uma mensagem clara. Ou temos liberdade, ou eles nos punem e nos executam por participarmos de uma revolução contra a tirania.”

Em reação ao massacre, o primeiro-ministro egípcio, Kamal Ganzouri, assumiu a responsabilidade política pelos confrontos e disse que está disposto a prestar contas se for solicitado. "Cumprirei qualquer instrução de pedido de explicação sobre o incidente porque sei que sou responsável politicamente", declarou em discurso no Parlamento, que nesta quinta fez uma reunião de urgência para analisar os incidentes.

Em Port Said, onde a tragédia aconteceu, moradores disseram acreditar que a falta de ação da polícia representou um ataque aos torcedores. "Os ultras são muito populares e respeitados entre os revolucionários", disse o comerciante Ahmed Badr, 45 anos. "Isso foi armado contra eles, um massacre. O conselho militar e as forças de segurança são os únicos responsáveis por esses fatos."

Nesta quinta-feira, torcedores que desembarcavam na principal estação ferroviária do Cairo, vindos de Port Said, gritavam palavras de ordem como: “O povo quer a execução do marechal.”

Parlamento

O presidente do Parlamento egípcio, o islamita Saad Katatni, afirmou que a tragédia aconteceu por causa da "deficiência e negligência" dos agentes de segurança.

Katatni, membro do Partido Liberdade e Justiça (PLJ), braço político da Irmandade Muçulmana, considerou que as forças de segurança "não cumpriram com sua missão pela falta de organização diante dos acontecimentos".

Em uma sessão de urgência no Parlamento, o político afirmou "que houve advertências sobre o que podia acontecer, mas os avisos não foram suficientes para alertar os corpos de segurança para que cumprissem seu trabalho".

Ele pediu aos deputados para analisarem os distúrbios "dentro dessa etapa de transição histórica que passa o Egito desde a revolução. Após o discurso do presidente da Câmara Baixa, os deputados fizeram um minuto de silêncio pelas vítimas.

Com AP, BBC, EFE e Reuters

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