Egípcias contam abusos que sofreram ao serem presas após protestos

Atual governo frustra esperanças das mulheres do país que sonhavam em conquistar direitos após a queda de Hosni Mubarak do poder

BBC Brasil |

selo

Um ano depois da revolução que tirou do poder o ex-presidente Hosni Mubarak , muitas mulheres do Egito passam por um momento de decepção com a política do país.

As mulheres sentiam que tinham poucos direitos ou proteção nos anos de governo de Mubarak, mas um sentimento de libertação depois da queda do antigo regime aumentou as esperanças entre muitas egípcias e elas podiam ser vistas na linha de frente junto com os homens durante os confrontos na Praça Tahrir, no Cairo.

Leia também:
- Contrarrevolução frustra avanço de mulheres no Egito, diz ativista

- Apesar de papel em levantes, mulheres árabes ainda lutam por direitos
- Infográfico mostra indicadores femininos em países árabes e detalha vestimentas

Reuters
Soldados egípcios prendem mulher durante confrontos na Praça Tahrir, no Cairo (17/12)

Ativistas defensores dos direitos humanos no país acusam o Conselho Supremo das Forças Armadas, a junta militar que governa o Egito, de atacar sistematicamente mulheres na praça do Cairo, para afastá-las dos protestos.

Uma fotografia mostrando uma cena deste tipo de violência chocou o mundo. A imagem mostrava um policial militar egípcio espancando uma manifestante, que usava o véu (hijab) e arrastando-a pela rua, o que abriu suas roupas.

A mulher espancada participava de um protesto na praça Tahrir em dezembro, quando a polícia militar atacou os manifestantes.

'Momento certo'

Em janeiro de 2011, durante os 18 dias de rebelião que resultou na queda de Mubarak, as mulheres egípcias enfrentaram, juntamente com os homens, gás lacrimogêneo, balas de borracha e canhões de água da polícia na praça Tahrir.

Mas a decepção das mulheres começou semanas depois da queda do antigo regime. Centenas delas ainda estavam na praça, comemorando o Dia Internacional das Mulheres e tentando atrair a atenção para os seus direitos, mas grupos de homens começaram a adverti-las, afirmando que não era o momento certo para chamar a atenção para essas questões.

Entre as manifestantes estava a ativista Sally Zohney, que lidera projetos para juventude do grupo voltado aos direitos das mulheres da ONU. Para ela, a afirmação de que "não é o momento certo" para discutir os direitos das mulheres não faz sentido. "As mulheres participaram desde o início da revolução."

"As pessoas me chamam de feminista todas as vezes que expresso opiniões que me diferenciam de um capacho", escreveu Zohney no Twitter, onde mantém uma presença ativa.

No dia seguinte ao Dia Internacional da Mulher, o Exército realizou uma operação para retirar os manifestantes da praça. Centenas de pessoas foram presas e 17 mulheres estavam entre os detidos.

Inicialmente elas foram levadas para o Museu Egípcio, onde sofreram abusos verbais, foram espancadas e submetidas a choques elétricos.

Testes de virgindade

Naquela ocasião, muitas prisioneiras foram submetidas aos polêmicos testes de virgindade. Entre elas estava Samira Ibrahim que, junto com outras mulheres, foi levada para um centro de detenção do Exército.

Saiba mais:
- Exército egípcio não fará mais 'teste de virgindade' em detidas
- Egito proíbe testes de virgindade em mulheres detidas

No local, foram divididas em dois grupos, casadas e solteiras. Samira ficou entre as solteiras e então foi levada para outra sala. "Naquela sala havia uma mulher que me mandou tirar as roupas, pois queria verificar se eu era virgem ou não. Respondi que isso era ilegal e que eles não tinham direito de pedir para que eu ficasse nua na frente de todo mundo."

"Depois que eles me deram outro choque, parei de resistir. O teste foi feito por um homem que usou as mãos para fazer isso, durante cinco minutos", contou Samira.

A jovem entrou com um processo para impedir que o conselho militar continuasse com os testes de virgindade. A Justiça egípcia, então, determinou que os testes eram ilegais.

Independente

A cineasta independente Nada Zatouna também foi atacada e presa enquanto filmava confrontos entre a polícia e manifestantes perto da praça Tahrir. Ela ainda vai à praça no centro do Cairo, apesar da prisão em 2011. "Eles (do governo) acham que podem nos vencer com tortura, mas agora estamos mais fortes", disse a jovem de 19 anos à BBC.

Zatouna mora sozinha no Cairo, uma cidade onde mulheres e homens geralmente vivem com os pais até se casarem, não importa a idade. A decisão da cineasta ainda gera problemas.

"Uma vez, amigos vieram me visitar e fiquei chocada. O porteiro veio até meu apartamento e ameaçou chamar a polícia, pois homens e mulheres estavam juntos no apartamento", disse.

Assista ao vídeo:

Esperança

Apesar da decepção, muitas mulheres votaram nas eleições de novembro. "É a primeira vez que votei em uma eleição na qual eu não sabia o resultado antes", disse uma das eleitoras à BBC.

O novo Parlamento egípcio, eleito na votação de novembro terá poucas mulheres. O Partido da Liberdade de Justiça, da Irmandade Muçulmana, deverá ter a maior representação. O partido é apenas um entre os vários partidos egípcios que têm poucas mulheres entre seus quadros.

Sarah Mohamed, 19 anos, votou nas eleições e é integrante da Irmandade Muçulmana e afirma que está decepcionada com esta baixa representação. "Me sinto mal, pois as pessoas devem saber que as mulheres têm um papel mais importante na vida política. As mulheres podem fazer mais do que apenas ficar em casa e criar os filhos", disse.

A jovem sonha em ser eleita primeira-ministra do Egito.

    Leia tudo sobre: mubarakegitopraça tahrircairomanifestaçãomulheresmundo árabe

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG