Dividida, oposição líbia se contradiz sobre acordo com Kadafi

Composta por vários grupos e indivíduos, opositores deram relatos conflitantes sobre suposto pacto para que líder líbio renuncie

iG São Paulo |

Com mostras de sua divisão interna, membros da oposição da Líbia deram relatos conflitantes nesta terça-feira sobre um suposto acordo para que o líder Muamar Kadafi, de 68 anos, deixe o poder.

Membros do Conselho Nacional de Transição Interino (CNTR), com sede em Benghazi (epicentro dos protestos e reduto da oposição no leste do país), desmentiram que negociações estivessem em curso. O porta-voz do órgão, Abdel Hafez Ghoga, também negou informações de que a oposição prometeu não processar Kadafi criminalmente se ele deixasse o poder nos próximos três dias. "Não há nenhuma iniciativa de Kadafi (para um acordo), e como Conselho Nacional nós não fomos comunicados", afirmou.

A imposição de um ultimato de 72 horas havia sido relatado pela rede de TV Al-Jazeera citando o ex-ministro da Justiça Mustafa Abdel Jalil, presidente do CNTR. "Se ele deixar a Líbia imediatamente, em 72 horas, e parar com os bombardeios, nós, líbios, não vamos persegui-lo por seus crimes", teria dito à rede de televisão Al-Jazeera.

Mais cedo, Amal Bugaigis, membro do grupo de oposição chamado Coalizão 17 de fevereiro, disse que Kadafi havia proposto deixar o poder se tivesse a garantia de que sairá em segurança do país e a promessa de que nem ele ou sua família enfrentarão a Justiça. Bugaigis disse que submeteu contrapropostas com várias demandas, incluindo a estipulação de que Kadafi teria de reconhecer imediatamente que não é o governante da Líbia.

Mas Musa Ibrahim, um porta-voz do governo líbio, negou com veemência a informação , afirmando que relatos sobre uma negociação com a oposição eram "mentiras". Os rumores sobre a possível oferta de diálogo de Kadafi haviam sido antecipados na segunda-feira pelo jornal árabe Asharq Alawsat .

Editado em Londres e com grande influência no mundo árabe, o jornal disse que, "segundo fontes líbias da cidade de Benghazi", Kadafi teria pedido a um delegado para que falasse em seu nome anunciando sua disposição em abandonar o poder. O líder líbio teria imposto como condição que o ajudem a dirigir-se ao país de sua escolha e garantam que não seja perseguido no exterior e convocado perante tribunais internacionais.

Indagados sobre a suposta oferta de diálogo feita por um representante de Kadafi, Abdel Jalil indicou que o ditador não enviou ninguém pessoalmente, mas um grupo de advogados ativistas de Trípoli os procuraram voluntariamente com o objetivo de mediar a situação. "Ele não mandou ninguém. As pessoas estão se oferecendo como intermediários para acabar com o derramamento de sangue e para pôr fim ao que as pessoas em Misrata estão sendo submetidas", explicou à AFP, referindo à terceira maior cidade da Líbia.

Bara Al-Khatib, também do CNTR, disse que a oposição não admitiria de forma alguma que a renúncia fosse feita perante o Parlamento, em referência à suposta oferta de Kadafi de entregar o poder ao comando rebelde diante da Casa.

"Que se reúna o Congresso Geral do Povo (Parlamento) para que Kadafi, durante a sessão de sua renúncia, entregue a autoridade ao Conselho Nacional sob a condição de que se garanta sua segurança, de sua família e seu dinheiro", indicaram fontes citadas pelo jornal árabe. Para Khatib, aceitar tão proposta "seria outorgar a Kadafi uma legitimidade da qual carece".

A oposição líbia não é composta por um único grupo monolítico, mas por vários grupos e indivíduos em todo o país com o objetivo de derrubar o regime de quase 42 anos do líder.

O Conselho Nacional é composto de 31 membros representando a maioria das áreas do país, com ênfase na organização de uma estrutura governamental para um eventual período pós-Kadafi.

Confrontos internos

Os relatos conflitantes sobre uma possível tentativa de negociação surgem quando a Líbia entra na quarta semana de choques violentos nesta terça-feira, com poucas dúvidas de que a crise se transformou em uma guerra civil.

Os rebeldes tomaram o controle de várias cidades, enquanto as forças leais a Kadafi vêm lutando com dureza para recapturar algumas delas.

Depois de manter Zawiya sitiada por cinco dias, as forças de Kadafi conseguiram retomar o controle de boa parte da cidade, a 50 quilômetros de Trípoli, informou nesta terça-feira a Al-Jazeera. Os rebeldes, porém, ainda controlam a Praça dos Mártires, a principal da cidade, disse uma testemunha.

Zawiya, onde fica uma das mais importantes refinarias do país, foi castigada com fogo de artilharia e morteiros, além das incursões dos carros de combate, que foram rechaçados durante pelo menos três dias. A comunicação com o interior da cidade foi perdida na noite do domingo, depois de a telefonia celular e a energia elétrica terem sido cortadas.

As sucessivas tentativas das forças leais a Kadafi de tomar a Praça dos Mártires, onde os rebeldes empreenderam uma desesperada defesa, causaram uma "carnificina", segundo moradores pró-revolucionários citados pela rede de TV árabe.

Por mais um dia seguido, aviões do regime líbio continuaram bombardeando o deserto ao leste do de Ras Lanuf, base mais avançada da oposição no leste da Líbia. Não foi possível saber se o ataque provocou vítimas ou danos. A cidade, que fica a 300 km ao sudoeste de Benghazi, é controlada desde sexta-feira pelos insurgentes.

Também há relatos de choques em torno da cidade litorânea de Ben Jawad, terminal petrolífero entre Sirte e Ras Lanuf, que também é alvo de bombardeios. Nos últimos dias, os rebeldes reforçaram suas tropas com mais combatentes e sobretudo de artilharia pesada.

Segundo a Al-Jazeera, os opositores apressam o envio de seus reforços, enquanto as brigadas de Kadafi mobilizam mais efetivos para conter o avanço revolucionário a Sirte, cidade natal do ditador líbio, de vital importância por ter armas e constituir o bastião das redes tribais pró-regime.

Os opositores redobraram sua determinação de chegar a Sirte como passo para libertar Misrata, isolada a leste pela terra natal de Kadafi e a oeste por Trípoli. O porta-voz do comitê revolucionário em Misrata, Hussam al Gherini, apelou por bombardeios seletivos da comunidade internacional para impedir a contraofensiva das brigadas leais ao líder líbio. As forças que apoiam Kadafi fizeram até o momento uma incursão blindada na cidade, repelida pelos rebeldes, deixando ao menos 21 mortos. Gherini exigiu que a comunidade internacional "deixe de fingir que faz algo quando não está fazendo nada".

A queda de Sirte, onde Kadafi estabeleceu a sede de alguns departamentos ministeriais e, sobretudo, montou um gigantesco pavilhão para abrigar cúpulas internacionais pode ser essencial para o desenrolar do conflito.

*Com EFE, AFP e Reuters

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