Desertor do Exército se retrata na TV após reaparecer em Damasco

Hussein al-Harmoush havia ido para a Turquia após renunciar; repressão contra protestos deixa ao menos 17 mortos

iG São Paulo |

AFP
Desertor se retratou em entrevista para a TV
Um desertor do Exército sírio, que havia anunciado sua renúncia em protesto pelas práticas dos militares em junho e passou a morar em um campo de refugiados na Turquia, apareceu em Damasco e deu uma entrevista para a TV, na qual se retratou dos comentários feitos sobre o levante contra o presidente Bashar al-Assad, que já dura seis meses. De acordo com a BBC, Hussein al-Harmoush foi para a Turquia em junho, e estava desaparecido há duas semanas.

Na entrevista, ele desmentiu que o Exército havia aberto fogo contra os opositores do governo. A mídia local afirmou que Harmoush estava detido na Síria, mas os ativistas acusam a Turquia de tê-lo entregado. O chanceler turco negou tais alegações.

Além de ter se retratado, durante a entrevista, Harmoush acusou os ativistas na Turquia de fazerem "promessas vazias".

"Durante o tempo em que eu servi no Exército sírio, ninguém me ordenou a atirar em civis. E não vi nem ouvi nenhum comandante dando essas ordens para alguém."

Ele disse também que os ativistas na Turquia se comprometeram a ajudá-lo a armar os civis sírios, mas acrescentou: "Eles eram só promessas...eles me prometeram armas e dinheiro para a liberação, mas foram só promessas."

Harmoush acrescentou que grupos como a Irmandade Muçulmana disseram que tinham contrabandeado armas para áreas da Síria, como Homs, Idlib e Latakia. Quanto às mortes na cidade ele disse: "Eu tenho certeza que os grupos armados foram os assassinos."

O governo tem responsabilizado os grupos armados pela violência. Sobre seu retorno à Síria, Harmoush não deu muitos detalhes e afirmou apenas: "Eu tenho pensado em voltar desde o 15º dia do Ramadan (15 de agosto), mas eu estava chocado em ser usado como moeda de troca e com como pediam dinheiro pelo meu nome e faziam promessas que não foram alcançadas."

Mas dúvidas cercam a saída de Harmoush do Exército, seu período na Turquia e seu retorno. Originalmente, foi publicado que ele desertou do Exército com outros 30, depois que começaram a bombardear a cidade de Jisr al-Shughour, em junho. Um vídeo postado no YouTube mostrava Harmoush segurando sua identidade militar e dizendo: "eu declaro minha saída do exército."

Mas, mais tarde, ele falou à BBC que não estava em Jirs al-Shughour no momento do ataque, e que desertou do Exército sozinho quatro dias depois. Harmoush passou a ser membro das chamadas Brigadas Oficiais Livres, formadas por desertores das Forças Armadas, que pediam aos militares que apoiassem o povo e não o governo de Assad.

Um correspondente da BBC em Istambul afirma que os ativistas sírios nos campos de refugiados estão culpando as autoridades turcas de entregá-lo, argumentando que ele não teria voltado à Síria por vontade própria. Eles dizem que a última vez que Harmoush foi visto, estava em um encontro com oficiais de inteligência da Turquia. O jornal The Guardian publicou uma declaração de Wissam Tarif, da Avaaz, organização de direitos humanos, que a Turquia teria trocado Harmoush por nove membros do grupo militante curdo PKK, mas isso não pode ser confirmado.

O chanceler turco insiste que nenhum refugiado foi enviado de volta à Síria sem a sua vontade. Os oficiais do país acreditam que Harmoush foi persuadido a voltar por infiltrados da inteligência síria nos campos turcos.

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Imagem capturada no YouTube mostra o que os ativistas informam ser uma manifestação contra Assad Douma, subúrbio de Damasco

De acordo com a ONU, o levante na Síria contra o regime de Bashar al-Assad já deixou 2,6 mil mortos. Nesta sexta, vários manifestantes foram mortos durante ataques da força síria. O número de óbitos é incerto: de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos as forças de segurança deixaram 17 mortos, mas segundo um grupo de manifestantes ouvido pela Associated Press, esse número é de 32. O The New York Times, que ouviu o Comitê de Coordenação Local, divulgou um total de 29.

As mortes ocorreram em Homs, na região central; Daraa, no sul; nos subúrbios de Damasco; e nas cercanias de Hama, a quarta maior cidade do país.

Os protestos desta sexta - que viraram um ritual semanal depois das rezas muçulmanas - tiveram como lema: "Nós continuaremos a lutar até derrubar o regime." A repressão ao levante da Síria é tida como uma das mais violentas do Oriente Médio dentre o conjunto das revoltas no mundo árabe, que já derrubaram os governos da Tunísia, Egito e Líbia.

A TV estatal confirmou que um policial foi morto e outros quatro acabaram feridos na vila de Busra Hariri, na província de Daraa.

Isolamento

No Líbano, o Exército afirmou em comunicado que as tropas sírias cruzaram a fronteira brevemente e abriram fogo contra os moradores que tentavam fugir do seu país. Os militares acrescentaram que quando o Exército libanês chegou ao norte, as forças sírias deixaram o local, mas continuaram a atirar de dentro da Síria, danificando um veículo militar do Líbano.

Mais de cinco mil sírios fugiram para o Líbano desde o começo da crise.

Também nesta sexta, o premiê turco afirmou, ante a violenta repressão, que os seus então aliados no governo autoritário da Síria cairão. A predição de Recep Tayyip Erdogan aprofunda o isolamento da Síria, principalmente porque se trata de um poderoso ex-aliado.

Erdogan também comemorou a queda de Muamar Kadafi, na Líbia. "Aqueles que estão atacando seu povo com tanques e armas não serão capazes de permanecer no poder", disse, durante uma coletiva de imprensa. De acordo com ele, Assad "eventualmente terá que pagar o preço por isso".

Mais cedo, ele parabenizou os líbios pela derrubada de Kadafi. "A era da autocracia está chegando ao fim. Os regimes totalitários estão desaparecendo", afirmou. "O governo do povo está chegando."

* Com AP

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