Convocação de greve geral provoca pouco impacto no Cairo

Em dia que Egito completa um ano sem Hosni Mubarak, transporte público funciona normalmente e algumas lojas abrem portas

iG São Paulo |

A convocação de ativistas por um dia de greve e desobediência civil para marcar o primeiro aniversário da queda do presidente Hosni Mubarak parece ter provocado pouco impacto, segundo a rede britânica BBC.

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Reuters
Egípcios andam de ônibus no Cairo

As greves nas universidades atrairam um número pequeno de manifestantes, e o transporte público no Cairo funcionava normalmente. A ação tinha como objetivo pressionar o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) a entregar o poder aos civis.

Segundo a EFE, a normalidade predominou no centro do Cairo e o distrito de Guiza, onde a maioria das lojas abriu como em qualquer outro sábado. Cafeterias, lojas de roupa, padarias e agências de viagens foram alguns dos comércios que abriram suas portas.

"Não podemos fechar porque temos muitas reservas", disse à Agência Efe Mahmoud, funcionário da agência de viagens Safir, cujos escritórios estão em plena praça Tahrir, no centro da capital.

Mahmoud destacou que o turismo é um setor vital para o Egito e disse desaprovar a greve por que "a economia está muito mal e precisamos trabalhar".

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Apesar da deterioração econômica, Mahmoud afirmou não culpar apenas Mubarak e uniu-se a uma corrente de pensamento muito difundida ente a população que também atribui os males do país ao Conselho Supremo das Forças Armadas.

Uma opinião compartilhada por Ayman Abderrahim, um açougueiro que atendia seus clientes hoje em um posto no mercado de Bab el Louk, próximo a Tahrir.

"O Conselho Militar deve entregar o poder a uma autoridade civil, mas primeiro é mais importante que se retome a produção e que melhore a economia", declarou Abderrahim, comentando que a vida agora é mais dura para os egípcios que há um ano, embora não sinta saudades do ex-presidente.

O CSFA afirmou anteriormente que "conspiradores" tentavam minar o Estado egípcio. A junta militar, que governa o país desde que Mubarak renunciou, prometeu entregar o poder para um governo civil após as eleições presidenciais de junho, mas grupos da oposição exigem uma transferência imediata de poder.

Apesar da convocação de trabalhadores em Tahrir, pela praça só estavam alguns de seus personagens frequentes: um ou outro revolucionário ainda acampado, sem-tetos e uma tropa de vendedores ambulantes.

Houve protestos na Universidade do Cairo, onde cerca de 100 estudantes se reuniram do lado de foram do principal prédio da Universidade do Cairo gritando: "Abaixo o regime militar!" Protestos semelhantes foram realizados em mais de 30 universidades públicas e privadas em todo o país.

Membros de grupos revolucionários egípcios também participaram da greve. "Nós estamos começando a usar a desobediência civil como arma, para uma vez mais conquistarmos os direitos da revolução", disse o porta-voz do Movimento Jovens do 6 de Abril.

"Queremos que a revolução permaneça pacífica. Temos reivindicações lógicas, mas o conselho militar não ouve nem responde."

Entre os manifestantes estava Sara Rachad, estudante de Ciências, que levava um cartaz em espanhol e em árabe, feito por seus companheiros de filologia hispânica, que dizia "greve, greve, até que caia a Junta".

A jovem atribuiu a baixa adesão de estudantes ao protesto na universidade ao fato de ser o primeiro dia de aulas após as férias de inverno e que muitos haviam ficado em casa estudando.

Apesar disso, os ônibus e outros transportes públicos funcionaram normalmente na capital e não houve nenhuma paralisação nos aeroportos egípcios. A ação industrial também não teve impacto no Canal de Suez.

Muitos egípcios não trabalham nos sábados, uma vez que é fim de semana, e muitos pelos país aparentam cansaço em ir às ruas e protestar. A Irmandade Muçulmana, que conquistou um grande número de assentos nas últimas eleições parlamentares, mais cedo disse que não apoiaria os protestos por conta da economia, há muito prejudicada.

Na cidade industrial de Mahala al Kubra, ao norte do Cairo, também houve protestos, que acabaram com quatro detidos: um jornalista australiano e sua tradutora egípcia, um estudante americano e um líder sindical egípcio.

Todos eles foram acusados de incitar os cidadãos à desobediência civil e de cometer atos de sabotagem. Por sua parte, Mubarak, de 83 anos, compareceu neste sábado diante do tribunal que o julga por sua suposta responsabilidade no massacre de manifestantes durante a revolta que explodiu no dia 25 de janeiro do ano passado.

Saiba mais: Recomeça no Egito julgamento de Mubarak após 2 meses de suspensão

Ao contrário de outras ocasiões, a televisão egípcia não mostrou hoje as já tradicionais imagens do tirano entrando em uma maca na sede da corte, instalada na Academia de Polícia do Cairo.

No banco, Mubarak esteve acompanhado pelos demais acusados: seus dois filhos, Alá e Gamal, o ex-ministro do Interior, Habib al Adli, e seis de seus assessores.

AP
Presidente do Estado Conjunto Maior, Martin Dempsey, se reúne com Hussein Tantawi, chefe da junta militar egípcia

A audiência se centrou em escutar os argumentos da defesa de um dos colaboradores do ex-ministro, que acusou "partes estrangeiras" de participar do assassinato de manifestantes durante os protestos.

A defesa empregou uma linguagem similar à utilizada ontem à noite pela Junta Militar em comunicado dirigido ao povo egípcio por conta do aniversário da renúncia de Mubarak, no qual assegurou que não se renderá perante "as conspirações" que tentam dividir o povo egípcio.

Em um evento separado, o general Martin Dempsey, presidente do Estado Conjunto Maior, teve um diálogo com o lider do Conselho, Mohammed Hussein Tantawi. Essa foi a primeira reunião entre um chefe americano e os oficiais egípcios desde semana passada, quando Cairo afirmou que julgaria 43 pessoas - inclusive americanos e outros estrangeiros - sobre o financiamento de ONGs.

O Conselho acusou os grupos estrangeiros de financiar os protestos contra eles.

Com EFE

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