Contrarrevolução frustra avanço de mulheres no Egito, diz ativista

Ao iG, escritora Nawaal el-Saadawi afirma que levante popular retirou a cabeça do regime, mas corpo continua oprimindo população

Leda Balbino, iG São Paulo |

Durante os 18 dias da mobilização popular contra Hosni Mubarak no Egito, a multidão que lotou a Praça Tahrir do Cairo e outras cidades do país foi uma força que não fazia distinção de sexo, unida pelo objetivo maior de depor um ditador agarrado ao poder por quase 30 anos . Mas nos quase dez meses desde 11 de fevereiro, quando Mubarak finalmente reconheceu que os gritos nas ruas não eram de aclamação ao regime, as mulheres que marcharam lado a lado dos homens no levante viram-se alijadas novamente da política do país árabe.

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Logo após a queda do ex-presidente, nenhuma mulher foi nomeada pelo Conselho Supremo das Forças Armadas, que sucedeu a Mubarak com a expectativa de conduzir o país na transição democrática, para um comitê encarregado de fazer emendas pontuais à Constituição . Além disso, a junta militar proibiu que mulheres encabeçassem a lista dos partidos que concorrem nas eleições legislativas para a Assembleia do Povo e o Conselho Shura (equivalente à Câmara e ao Senado, respectivamente).

Apesar de entusiasta da Primavera Árabe , como são chamados os levantes populares contra as autocracias do Oriente Médio e do norte da África, a escritora e feminista egípcia Nawaal el-Saadawi, de 80 anos, diz que o Egito passa no momento por uma contrarrevolução - que também afeta as mulheres.

Exemplo disso seriam as eleições iniciadas em 28 de novembro e previstas para acabar em 11 de março com o objetivo de formar o Parlamento que será encarregado de nomear uma Assembleia Constituinte. De acordo com a ativista, os egípcios só comparecem às urnas porque tiveram seu voto comprado ou porque temem pagar uma multa de 500 libras egípcias (cerca de US$ 100) se não votarem.

"Essa eleição é uma farsa, não é correta, não é verdadeira. Isso é uma democracia falsa, porque deveríamos ter estabelecido um comitê com líderes da Praça Tahrir para mudar a Constituição de Mubarak antes das eleições", disse ao iG a autora de 50 romances, peças e coletâneas de contos que é traduzida para mais de 30 idiomas.

O comitê poderia ter sido composto por gente como Asmaa Mahfouz, de 26 anos, que venceu neste ano com outros quatro ativistas árabes o prestigioso Sakharov , prêmio do Parlamento Europeu que promove a liberdade de pensamento. Membro do Movimento dos Jovens de 6 de Abril, Asmaa é considerada uma das responsáveis pela mobilização anti-Mubarak por ter postado no Facebook vídeos conclamando os egípcios a protestar na Praça Tahrir contra a ditadura em 25 de janeiro - data do início das manifestações.

"Se você se acha homem, junte-se a mim em 25 de janeiro. Aqueles que dizem que mulheres não deveriam protestar porque acabarão apanhando deveriam ter alguma hombridade e se unir a mim em 25 de janeiro", afirma no vídeo.

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Egípcia chora na Praça Tahrir, Cairo, após anúncio de que presidente Hosni Mubarak renunciou ao poder (11/02)
Mas, depois da queda de Mubarak, Asmaa se tornou vítima da contrarrevolução a que se refere a feminista egípcia. A jovem foi presa sob acusações de difamar os membros da junta militar por chamá-los de "conselho de cachorros" e por cobrar do Judiciário os direitos do povo egípcio. Após protestos contra o fato de seu caso ter sido enviado a uma corte militar e não civil, ela foi solta sob uma fiança equivalente a US$ 3.350. Mais tarde, a junta militar retirou as acusações que pesavam contra ela.

"As mulheres são parte da revolução, estiveram nas ruas, em todos os lugares, morreram na Praça Tahrir. Mas agora temos uma contrarrevolução, e elas perderão mais direitos sob a junta militar e a Irmandade Muçulmana”, afirmou Nawaal, referindo-se ao grupo islâmico cujo Partido Liberdade e Justiça é o favorito nas eleições legislativas . “As mulheres agora estão excluídas sob a opressão de grupos islâmicos religiosos. Sempre que há o renascimento de fundamentalismo religioso, as mulheres perdem seus direitos, porque todas as religiões as oprimem.”

Falta de direitos femininos

De acordo com a ativista, outros fatores que contribuem para o pouco avanço dos direitos das mulheres no país são a corrupção, o aumento da pobreza e do desemprego – principalmente entre a população feminina – e o fato de a mulher de Mubarak , Suzanne, ter deixado como herança ao país a fragmentação do movimento feminista.

"Ela baniu todas as associações progressistas feministas. As conquistas durante o regime de Mubarak não foram dadas, mas alcançadas por meio da luta das mulheres", afirmou. "Eu combati a mutilação feminina por meio século, então não foi Suzanne quem a proibiu", disse, lembrando-se da proibição oficial contra a prática em 2008.

As meninas, porém, ainda são submetidas ao procedimento por questões culturais. "A justificativa para isso é a virgindade, uma herança do cristianismo e do judaísmo. Se você corta o clitóris, essas mulheres serão 'virgens'. Eles precisam de virgindade para que a sexualidade da mulher seja diminuída para aceitar um marido", afirmou.

Atingindo, segundo Nawaal, mais de 90% da população feminina egípcia, a extirpação do clitóris é um dos exemplos da limitação que as mulheres enfrentam no país árabe. Perante à lei, uma egípcia é metade de um egípcio: o testemunho judicial de duas mulheres equivale ao de um homem.

A poligamia é uma prática comum. Um homem pode se casar com quatro mulheres, enquanto elas só devem ter um marido. À população masculina também está garantido o direito de se separar sem a aprovação da mulher, que pode acabar sendo surpreendida da decisão de seu parceiro por papéis do divórcio enviados pelo correio. Os descendentes são registrados com o nome do pai, e não com o da mãe que, segundo a feminista, não é considerado "honroso".

AP
Egípcia participa de protesto na Praça Tahrir contra militares que sucederam a Mubarak no poder (23/11)
Segundo Nawaal, outro sinal da falta de direitos é a vestimenta. "Muitas mulheres no Egito usam o véu agora sob o slogan religioso. Mas o véu não tem nada a ver com o Islã; ele é usado em todas as religiões, como a cristã. Cobrir uma mulher, e não cobrir um homem, é discriminação."

Ao lembrar que pessoas vinculadas ao presidente deposto continuam na mídia, no setor educacional, nas Forças Armadas e na polícia apesar da queda do regime, a feminista Nawaal sugere que ainda demorará bastante tempo para a situação feminina realmente mudar no país. "(A revolução) retirou a cabeça do regime: Mubarak", disse, para completar: "O corpo, porém, ainda está lá, oprimindo as mulheres."

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