Conheça a trajetória do excêntrico Muamar Kadafi

Líder da Líbia por 42 anos, coronel chegou ao poder após golpe de Estado e ficou conhecido por estilo extravagante

iG São Paulo |

O coronel Muamar Kadafi, líder deposto da Líbia morto nesta quinta-feira , passou 42 anos no poder e se tornou o líder com mais tempo de governo tanto na África quanto no mundo árabe.

A onda de protestos que encerrou seu governo começou há sete meses. Ele estava foragido desde agosto, quando forças do Conselho Nacional de Transição (CNT), órgão político dos rebeldes e hoje governo interino da Líbia, tomaram o controle da capital, Trípoli.

Sua morte foi anunciada nesta quinta-feira pelo premiê do CNT, Mahmoud Jibril, durante entrevista coletiva concedida em Trípoli. "Esperávamos por esse momento há muito tempo. Muamar Kadafi foi morto", disse.

Kadafi passou a comandar a Líbia em 1969, quando tinha 27 anos e depôs o rei Idris 1º em um golpe de Estado. Tido como um político habilidoso, conseguiu tirara seu país do isolamento diplomático e sempre foi conhecido pelo estilo extravagante de se vestir e por usar guarda-costas do sexo feminino.

Em 2003 - depois de passar duas décadas sendo visto como país pária - a Líbia assumiu responsabilidade pelo atentado contra um voo da PanAm sobre a cidade escocesa de Lockerbie, em 1988, abrindo caminho para que a ONU suspendesse suas sanções contra Trípoli.

Meses depois, o regime de Kadafi abandonou os esforços para desenvolver armas de destruição em massa, o que também facilitou a aproximação com o Ocidente. Por causa das duas medidas, Kadafi deixou o isolamento e passou a ser aceito pela comunidade internacional, ainda que com ressalvas.

Raízes beduínas

Kadafi nasceu no deserto líbio, perto de Sirte (norte do país) em 1942. Em sua juventude, ele admirava o líder egípcio e nacionalista árabe Gamal Abdel Nasser.

Seus primeiros planos para derrubar a monarquia líbia começaram durante seus estudos militares, e ele recebeu treinamento militar na Grã-Bretanha antes de retornar à cidade líbia de Benghazi e iniciar ali o golpe que o levaria ao poder, em 1º de setembro de 1969.

Com suas aparições em reuniões internacionais marcadas por roupas extravagantes e discursos sem rodeios, Kadafi desenvolveu sua própria filosofia política, escrevendo um livro que é, pelo menos de acordo com o autor, tão influente que se destaca mais do que qualquer coisa feita por Platão, Marx ou Locke.

Em seu Livro Verde, lançado nos anos 70, Kadafi expôs sua filosofia política, apresentando uma alternativa nacional ao socialismo e ao capitalismo, combinada com aspectos do islamismo. Em 1977, ele criou o conceito de "Jamahiriya" ou "Estado das massas", em que o poder é exercido através de milhares de "comitês populares". A teoria alega também resolver as contradições inerentes no capitalismo e comunismo, para colocar o mundo em um caminho de revolução política, econômica e social e libertar os povos oprimidos. 

Durante viagens a outros países, acampou em luxuosas tendas beduínas, típicas dos povos de sua região. A tenda também foi usada diversas vezes para receber personalidade e políticos na Líbia, durante encontros nos quais Kadafi se protegia das moscas com uma crina de cavalo ou com um leque feito de uma folha de palmeira.

'Cachorro louco'

O ex-presidente americano Ronald Reagan chamou o líder líbio de "cachorro louco" e, em 1986, autorizou um ataque aéreo a Trípoli e a Benghazi em resposta a um ataque a bomba contra uma discoteca em Berlim Ocidental, que matou dois militares americanos e uma mulher turca e que, segundo os Estados Unidos, teria sido realizado por agentes líbios.

Os bombardeios americanos mataram 45 soldados e funcionários públicos e 15 civis. Entre estes estava uma filha adotiva de Kadafi.

Nos anos 90, rejeitado em seus esforços para unir o mundo árabe, o líder líbio se voltou para a África, propondo a criação de um país-federação no continente, nos moldes dos Estados Unidos. Para promover a ideia, ele passou a se vestir usando roupas que carregavam emblemas do continente ou retratos de líderes africanos.

Mas no fim da década, com a Líbia em dificuldades por causa das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, Kadafi se viu forçado a assumir a autoria do atentado de Lockerbie e de outros atentados, para lentamente restabelecer o diálogo do país com os Estados Unidos. "Não haverá mais guerras, ataques ou atos de terrorismo", disse o coronel ao celebrar 39 anos no poder.

Desafios domésticos

No fim da década de 50, reservas de petróleo foram descobertas na Líbia, mas a extração do produto era controlada por companhias estrangeiras, que estabeleciam os preços para dar vantagens aos consumidores de seus países de origem e ficavam com metade da renda.

Kadafi exigiu a renegociação dos contratos, ameaçando fechar a produção se as companhias petroleiras se recusassem. Ele desafiou os executivos dessas companhias estrangeiras, afirmando que "pessoas que viveram sem petróleo por 5 mil anos podem viver sem isso de novo por alguns anos para conquistar seus direitos".

A estratégia funcionou e a Líbia se transformou no primeiro país em desenvolvimento a garantir uma fatia majoritária dos ganhos de sua própria produção de petróleo. Outros países logo seguiram o exemplo e o boom do petróleo árabe da década de 70 começou. A Líbia logo colheu os benefícios. Com os níveis de produção alcançando os de países do Golfo, e uma das menores populações da África (cerca de 3 milhões de pessoas na época), o país enriqueceu rapidamente.

Guia

Em seu país, o coronel se apresentou como o guia espiritual da nação, supervisionando o que dizia ser uma versão local de democracia direta. Na prática, segundo os críticos, Kadafi mantinha controle absoluto e autoritário da Líbia.

Dissidências ou críticas foram duramente reprimidas e a mídia do país sempre foi rigorosamente controlada pelo governo. A Líbia tem uma lei que proíbe atividades em grupo baseadas em ideologias políticas que sejam opostas à revolução de Kadafi.

Segundo a organização internacional Human Rights Watch, o regime prendeu centenas de pessoas por violar a lei e sentenciou algumas à morte. Também há relatos de tortura e desaparecimentos.

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