Confrontos continuam no Egito pelo segundo dia consecutivo

Forças de segurança usam novo grau de violência no Cairo, em uma repressão que deixou nove mortos desde sexta-feira

iG São Paulo |

Soldados egípcios entraram em confronto pelo segundo dia consecutivo com manifestantes no Cairo, em uma repressão que deixou ao menos nove mortos e centenas de feridos desde sexta-feira . A violência trouxe à tona as tensões latentes entre os oficiais de segurança e ativistas que reivindicam o fim do governo militar, ameaçando desatar um novo ciclo de confrontos depois de dias de choques entre jovens revolucionários e forças de segurança terem deixado mais de 40 mortos em novembro .

Reuters
Soldados egípcios prendem mulher durante confrontos na Praça Tahrir, no Cairo (17/12)
Leia também: Manifestantes entram em confronto com a polícia no Cairo

Centenas de soldados invadiram a Praça Tahrir, epicentro do levante que derrubou em fevereiro o líder Hosni Mubarak após quase 30 anos no poder , perseguindo os manifestantes e batendo neles com cassetetes. Os militares também jogaram câmeras de jornalistas de TV da varanda e puseram fogo nas tendas dos manifestantes na praça. Uma nuvem espessa de fumaça pairou sobre o Cairo enquanto a tendas queimavam.

Na manhã de sábado, centenas de manifestantes lançaram pedras contra as forças de segurança que cercaram as ruas ao redor do prédio do Parlamento com arame farpado e grandes blocos de concreto. Soldados posicionados em tetos atingiram a multidão com pedras, fazendo com que os manifestantes recorressem a capacetes ou folhas de metal para se proteger. Chamas foram vistas saindo das janelas de um edifício de dois andares que foi incendiado perto do Parlamento.

Imagens de TV, fotos e testemunhos indicaram um novo nível de força sendo usado pelos militares contra os ativistas pró-democracia nos dois últimos dias. Policiais militares abertamente bateram em manifestantes mulheres na rua. De acordo com testemunhas, mulheres e homens detidos são surrados e submetidos a choques elétricos, muitos dentro do Parlamento.

De acordo com a agência estatal Mena, os dois dias de confrontos deixaram ao menos nove mortos e 300 feridos. O primeiro-ministro egípcio,  Kamal al Ganzuri , reconheceu que pessoas morreram por ferimentos causados por disparos, acusando um grupo não especificado de agressores pelas mortes ao negar que a polícia e o Exército tenham atirado contra os manifestantes.

De acordo com o premiê, "elementos infiltrados" que "não querem o bem do Egito" são responsáveis pela violência. "Os que estão na Praça Tahrir não são os jovens da revolução", afirmou. "Não é uma revolução, e sim uma contrarrevolução", disse o primeiro-ministro, em alusão aos confrontos com as forças de ordem.

Os confrontos começaram na sexta-feira de manhã entre as forças de ordem e os manifestantes, depois que agentes de segurança desmontaram um acampamento construído perante a sede do governo para protestar pela decisão do Exército de nomear Ganzuri para premiê. Os manifestantes o rejeitam no cargo pelo fato de ele ter sido chefe de governo no regime de Mubarak.

Os choques ocorrem em pleno período eleitoral. Desde o dia 28 de novembro, o Egito realiza eleições legislativas, que, por enquanto, são dominadas pelos partidos islamitas.

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Entre os mortos entre sexta e este sábado estaria Emad Effat, um clérigo do Al-Azhar, instituição religiosa mais eminente do país, informou o ativista Ibrahim el-Houdaiby à AP. Ele disse que Effat - que tem uma posição crítica aos militares - foi atingido no coração por uma bala após se unir aos protestos.

Violência

Os manifestantes que estavam acampados havia três semanas em frente ao prédio do gabinete egípcio reivindicam que os militares, que estão no poder desde fim do regime de Mubarak, transfiram o governo para autoridades civis.

Na sexta-feira, em sua conta no Twitter, Mohamed ElBaradei, uma figura marcante dos protestos pela reforma e vencedor do Nobel , condenou a violência. "Se o acampamento era contra lei, não é a crueldade e a brutalidade usada para desfazê-lo uma violação maior a todas as leis dos direitos humanos? Não é assim que as nações devem ser governadas", escreveu.

De acordo com os manifestantes, os choques com a polícia tiveram início na noite de quinta-feira depois que soldados bateram com violência em um jovem que estava no acampamento. Centenas se uniram ao protesto assim que fotos e vídeos que mostravam o homem ferido sendo carregado foram publicados na internet. As fotos mostravam seu rosto e olhos machucados e inchados, sua cabeça envolta em uma gaze e sangue escorrendo pelo nariz.

Testemunhas acusaram a polícia militar de ter afastado o homem da multidão e ter batido nele dentro do Parlamento, próximo à sede do gabinete. Então, manifestantes jogaram pedras e bombas contra as forças de segurança.

O ativista Hussein Hammouda disse que os militares responderam atacando os manifestantes com pedras e pedaços de vidro de dentro dos portões próximos ao prédio do Parlamento. "As tensões entre as pessoas e os oficias da segurança estão tão inflamadas que qualquer coisa que acontece vira uma explosão. Não há confiança entre os dois lados", disse Hammouda, que saiu da polícia em 2005 em protestos à prática da coorporação.

Com AP e AFP

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