Confrontos chegam a Trípoli e ONU discutirá sanções contra Líbia

Há registro de tiroteios em pelo menos três bairros da capital líbia; EUA e União Europeia anunciam que imporão sanções

iG São Paulo |

nullApesar do aumento da pressão internacional para pôr fim ao banho de sangue na Líbia, com o Conselho de Segurança da ONU programado para discutir nesta sexta-feira em Nova York um projeto de sanções contra os líderes líbios e os EUA e a União Europeia anunciando medidas de punição , forças de segurança abriram fogo nesta sexta-feira durante protestos de milhares de manifestantes na capital do país, Trípoli.

Os choques aconteceram no mesmo dia em que, em um novo pronunciamento transmitido pela TV estatal, o líder líbio, Muamar Kadafi, anunciou que vai liberar o arsenal do país "quando necessário" para armar o povo da Líbia contra o "inimigo". Kadafi prometeu triunfar sobre seus inimigos e exortou os partidários reunidos na Praça Verde a proteger a Líbia e os interesses petrolíferos do país .

Vestido com um chapéu de pelo e óculos de sol, Kadafi dirigiu-se à multidão do Castelo Vermelho, um forte histórico, tendo uma visão geral da Praça Verde, onde mais de mil partidários estavam na tarde desta sexta-feira portando fotos do líder líbio e bandeiras verdes. "Preparem-se para lutar pela Líbia, preparem-se para lutar pela dignidade, preparem-se para lutar pelo petróleo."

Em pelo menos três bairros da capital houve registro de tiroteios depois das preces de sexta-feira, com as forças de segurança atuando para dispersar os manifestantes que se reuniam para marchar nas ruas ou para deliberadamente atingi-los. Algumas testemunhas, em entrevistas por telefone com agências de notícias, disseram que vários foram feridos ou mortos. Com o acesso limitado aos jornalistas, é impossível verificar os relatos de forma independente.

Citando uma testemunha não identificada, a Reuters afirmou que a violência deixou pelo menos cinco mortos no distrito de Janzour, no oeste da capital. Outras testemunhas de bairros do leste da capital, como Ben Ashur e Fashloum, também disseram que houve disparos contra opositores de Muamar Kadafi que gritavam slogans contra o líder líbio.

"As forças de segurança dispararam contra os manifestantes sem fazer distinção. Há mortos nas ruas de Sug Al Joma", indicou um habitante desse bairro citado pela agência EFE.

A tensão vinha escalando ao longo da semana, com protestos na capital aguardados para depois das preces. Segundo o site privado líbio Libyapress, os fiéis organizaram um protesto após a cerimônia religiosa e foram recebidos com violência pelas forças de Kadafi.

Trípoli se tornou uma espécie de bastião do regime, patrulhada pelas forças especiais do governo. Nos últimos dias, testemunhas disseram à BBC que o clima na capital era de uma tensa calma e que as forças de Kadafi podiam ser vistas em toda a cidade.

Os desdobramentos da crise líbia já indicavam o que vinha sendo chamada de antemão "a batalha de Trípoli". O leste do país – onde estão cidades como Benghazi, Tobruk e Ajdabiya – permanece sob controle firme da oposição, mas o governo lançou ofensivas para tomar o controle das localidades próximas ou a oeste de Trípoli, como Zuara, Sabratha, Misrata e Al Zawiya.

Até a quinta-feira, os relatos eram de que a cidade de Al Zawiya, a 50 km de Trípoli, era palco de alguns dos mais sangrentos enfrentamentos.

Na terceira cidade do país, Misrata, a 200 km da capital, foram registrados combates pelo controle do aeroporto. Mas os relatos são que a cidade também caiu em favor dos rebeldes.

Nesta sexta-feira, centenas de milhares se reuniram em Benghazi, epicentro dos protestos contra o regime de Kadafi, para exigir a renúncia do líder líbio.

Pressão internacional

Os EUA anunciaram nesta sexta-feira que imporão sanções à Líbia em resposta à repressão do regime aos opositores que reivindicam a renúncia de Kadafi. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, indicou que, entre outras medidas, os EUA devem congelar a venda de armas à Líbia e a "limitada" cooperação militar existente entre os dois países. Além disso, os EUA colocaram bancos para monitorar e notificar movimentações financeiras do país.

Carney afirmou que os EUA finalizarão o processo das punições nesta sexta-feira. Segundo ele, Washington também está trabalhando com os parceiros europeus em sanções adicionais e em outras ações multilaterais.

A decisão de impor sanções unilaterais ao regime foram anunciadas depois de uma autoridade americana ter informado que os EUA fecharam sua embaixada em Trípoli após a retirada de todos os seus funcionários por meio de um navio e um voo fretado. Segundo a autoridade, as operações na embaixada foram suspensas por causa da deterioração da situação de segurança. A retirada da Líbia também inclui um grupo de 148 brasileiros que estavam em Benghazi , segunda maior cidade do país, que embarcaram em um navio para Atenas, na Grécia.

Nesta sexta-feira, a União Europeia (UE) fechou um acordo sobre um novo pacote de sanções contra a Líbia, entre as quais se destacam um embargo armamentista e o congelamento dos bens do clã Kadafi em território comunitário, informou a Alemanha. De acordo com o Ministério de Assuntos Exteriores alemão, a medida foi pactuada nesta sexta-feira entre os 27 países do bloco e será sancionada formalmente no início da semana que vem.

Dentre as sanções estipuladas está também a proibição a Kadafi e a seus familiares de entrar em quaiquer dos países da UE. Em outra medida de pressão, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU adotou nesta sexta-feira uma resolução por consenso para enviar uma missão para investigar as violações na Líbia e recomendou que o país seja suspenso da entidade.

AFP
Porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, anuncia sanções dos EUA à Líbia depois da repressão às manifestações do país
Após o anúncio de sanções dos EUA e da UE, os olhares estão centrados na reunião desta sexta-feira do Conselho de Segurança da ONU em Nova York, com a expectativa de que sejam aprovadas medidas urgentes para deter o "alarmante" aumento da repressão no país, onde além de milhares de mortos e feridos, há "massacres, detenções arbitrárias e torturas", segundo a ONU.

A criação de uma zona de exclusão aérea, com o objetivo de impedir aviões militares líbios de operar e atacar manifestantes, pode ser uma das medidas, disse nesta sexta-feira uma fonte diplomática durante a reunião de ministros da Defesa da União Europeia.

Além disso, a reunião do Conselho de Segurança analisará uma proposta de resolução franco-britânica, que inclui a imposição de sanções, o embargo total de armas e o recurso ao Tribunal Penal Internacional, afirmou a ministra de Relações Exteriores francesa, Michèle Alliot-Marie.

A decisão de que o principal órgão decisório da ONU se reúna pela segunda vez em três dias foi tomada após o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, conversar por telefone com seu colega francês, Nicolas Sarkozy, e com os primeiros-ministros britânico, David Cameron, e italiano, Silvio Berlusconi.

Em outra medida de pressão, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU adotou nesta sexta-feira uma resolução por consenso para enviar uma missão para investigar as violações na Líbia e recomendou que o país seja suspenso da entidade.

A Líbia foi eleita em maio de 2010 para o Conselho após obter 155 votos em uma votação secreta dos 192 estados da Assembleia Geral. O país pode ser suspenso do órgão se dois terços dos membros dos Estados membros da ONU reunidos na Assembleia Geral aprovarem a medida.

Na abertura da sessão especial do conselho, a Alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, expôs com contundência a situação na Líbia. "As forças líbias atacam manifestantes e transeuntes, bloqueiam bairros e disparam a partir dos telhados. Também bloqueiam ambulâncias para que os feridos e mortos sejam abandonados nas ruas", explicou.

Pillay insistiu em que as atrocidades do regime de Kadafi podem constituir crimes contra a Humanidade e pediu a "Tunísia, Egito, Itália e Malta" que mantenham suas fronteiras abertas. O Programa Mundial de Alimentos (PAM) alertou que a rede de distribuição de alimentos na Líbia pode ser paralisada, já que o país é um importador de alimentos e o transporte está bloqueado por causa da revolta e a repressão.

O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, convocou nesta sexta-feira uma reunião urgente da aliança sobre a Líbia, embora esta deva ser orientada a revisar as possíveis medidas de retirada e assistência humanitária na região, onde continua o fluxo incessante de refugiados.

*Com BBC, EFE, AFP, Reuters e New York Times

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