Conferência na Tunísia sobre a Síria busca ultimato para Assad

Mais de 70 países participam da reunião "Amigos da Síria", que deve exigir cessar-fogo e acesso de grupos humanitários ao país

iG São Paulo |

A Tunísia recebe nesta sexta-feira uma conferência que busca um avanço para solucionar a crescente revolta na Síria. Os EUA, a Europa e países árabes planejam enviar um alerta ao presidente do país, Bashar al-Assad, na tentativa de forçá-lo a concordar com um cessar-fogo imediato e pedir que grupos de ajuda humanitária tenham acesso às áreas mais atingidas pela repressão brutal de seu regime.

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Cerca de 70 nações, incluindo os EUA, Reino Unido, França e a Turquia participam da conferência, organizada pela Liga Árabe. O objetivo do encontro é acordar uma declaração sobre a Síria, que deve exigir um cessar-fogo imediato e uma avaliação humanitária baseados em ameaças de mais sanções caso as medidas sejam ignoradas.

A declaração também pode aumentar o prestígio do principal grupo de oposição, o Conselho Nacional Sírio, nomeando-o como o representante "legítimo" dos sírios, porém sem garantir-lhes apoio pleno.

Na véspera da conferência dos "Amigos da Síria", autoridades europeias, americanas e árabes trabalhavam nos detalhes dessas demandas em Londres, enquanto o ex-secretário geral da ONU Kofi Annan era nomeado como enviado da ONU - em conjunto com a Liga Árabe - para a Síria.

A Rússia e a China, contrários a intervenções estrangeiras na Síria, reiteraram sua oposição a qualquer resolução internacional e não participam da conferência. Ambas as nações dizem apoiar um "fim rápido" da violência, mas vetaram duas resoluções do Conselho de Segurança da ONU . Uma delas apoiava planos da Liga Árabe que tinha como intuito pôr fim ao conflito e condenar o massacre.

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Alexei Pushkov, deputado da Rússia, disse nesta sexta-feira depois de encontrar Assad que o presidente sírio parecia confiante e não mostrava sinais de que deixaria o poder. Pushkov alertou que armar a oposição poderia provocar uma guerra civil no país.

De acordo com a rede de TV CNN, alguns países árabes estão fornecendo armas à oposição síria, segundo fontes diplomáticas que, no entanto, não identificam essas nações. A informação que ainda não tem confirmação oficial surgiu depois de o governo dos EUA garantir que pode considerar "medidas adicionais" para ajudar os rebeldes se não for alcançada uma solução política.

Diplomatas afirmam que a reunião do grupo "Amigos da Síria" em Túnis nesta sexta exigiria o cumprimento de Assad das demandas internacionais. Eles disseram que, se ele falhar em fazer sua parte, o país sofreria com sanções mais duras e preveria um fortalecimento da oposição, a menos que ele ceda e permita uma transição política.

Se Assad não cumprir o acordo, "acreditamos que a pressão vai continuar a crescer... Eu acho que a estratégia seguida pelos sírios e seus aliados não pode resistir ao teste de legitimidade... por qualquer período de tempo", disse a secretária de Estado Hillary Clinton em Londres, depois de encontrar dezenas de chanceleres que se preparavam para o evento em Túnis.

"As forças da oposição se tornarão cada vez mais capazes", disse. "Eles encontraram em algum lugar, de alguma forma, meios para se defender e adotar medidas ofensivas."

Hillary e outros líderes descartam qualquer ajuda militar direta aos adversários de Assad, mas seus comentários indicam que tais medidas estão ao menos sendo consideradas.

Um rascunho da declaração final da conferência da Tunísia obtida por agências de notícias pede que o "governo sírio implemente um imediato cessar-fogo e permita acesso livre e desempedido para as Nações Unidas e as agências humanitárias para realizar uma avaliação completa das necessidades em Homs e outras áreas".

Homs, a terceira maior cidade da Síria, tem sido alvo há 21 dias de ofensivas do governo . A resolução, que pode sofrer mudanças, também exige "que as agências humanitárias possam fornecer produtos e outros serviços a sírios atingidos pela violência."

A ONU divulgou sua última estimativa de mortes no conflito em janeiro, dizendo que 5,4 mil foram mortos apenas em 2011. Mas centenas foram mortos desde então, de acordo com grupos ativistas, que afirma que o total de mortos estaria agora em 7,6 mil. Não há como verificar os números de forma independente, já que a Síria proíbe a atuação de quase todos os jornalistas internacionais e organizações de direitos humanos.

Enquanto isso, o porta-voz do presidente da Tunísia, Adnan Mancer, afirmou à agência Associated Press antes da reunião de sexta-feira que seu país proporia uma solução política para a crise na Síria que inclui o envio de forças pacificadoras e a saída de Assad do poder.

A transição política seria semelhante a que ocorreu no Iêmen , onde o presidente Ali Abdullah Saleh transferiu os poderes ao seu vice depois de manifestações contra seu governo. A Liga Árabe já fez pedidos semelhantes a Assad.

Para realizar negociações nesse sentido, a Liga Árabe e as Nações Unidas na quinta-feira apontaram conjuntamente Annan, o ex-secretário-geral da ONU, para ser o enviado especial para a Síria com o propósito de buscar um fim da violência e uma solução política pacífica.

Ele trabalhará com o governo e a oposição para buscar "uma ldierança pacífica para a Síria e soluções políticas que estejam de acordo com as aspirações democráticas do povo sírio através de um diálogo enrte o governo sírio e todo o espectro da oposição", disseram as organizações em um comunicado.

Autoridades americanas que acompanham Hillary na conferência disse que o grupo deixaria claro a Assad que seu regime tem uma obrigação moral de acabar com o ataque em áreas civis e permitir que a assistência humanitária entre no país. "Os esforços da comunidade internacional pretendem mostrar que o regime de Assad mergulha em profundo isolamento", disse Hillary.

"Nossa prioridade imediata é aumentar essa pressão. Nós temos de encontrar maneiras de enviar alimentos, remédios e outras ajudas para as áreas afetadas. Isso leva tempo e muita diplomacia."

Hillary se encontrou na quinta-feira com o chanceler francês Alain Juppé e ministros das Relações Exteriores e lideranças de dezenas de países, incluindo o Reino Unido, a Alemanha, a Jordânia, o Marrocos, o Catar, a Arábia Saudita, a Tunísia e os Emirados Árabes Unidos. Mais de 70 nações e organizações internacionais devem participar do encontro na tunísia.

Com AP e Reuters

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