Choques entre manifestantes pró e contra Mubarak ferem centenas

Opositores destroem muretas para produzir pedras contra governistas, que usam camelos em confrontos; há três mortos confirmados

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Getty Images
Manifestantes antigoverno são atingidos por coquetel molotov lançado por partidários do presidente Hosni Mubarak perto da praça Tahrir

Choques violentos no centro do Cairo entre partidários e adversários do presidente egípcio, Hosni Mubarak, deixaram ao menos três mortos, segundo o Ministério da Saúde egípcio, e 639 feridos nesta quarta-feira. Ao cair da noite, granadas de gás lacrimogêneo foram atiradas contra os manifestantes perto da Praça Tahrir, no centro da capital egípcia, e a TV estatal ordenou que todos os manifestantes se retirassem do local. "Os feridos estão sendo atendidos em um hospital de campanha instalado em uma mesquita perto da praça", disse à EFE um porta-voz da organização, Ahmad Maher.

Citando um porta-voz do Ministério da Saúde, a rede de TV CNN informou que pelo menos um membro das forças de segurança morreu nos tumultos no Cairo. Disparos e explosões de coquetel molotov eram ouvidos na área da praça.

Ainda não está claro se tais confrontos ocorrem em outros locais do país. Manifestações rivais na segunda maior cidade do Egito, Alexandria, eram amplamente pacíficas. Outros bairros da capital egípcia também estavam calmos na noite desta quarta-feira no país.

Os choques começaram quando partidários de Mubarak saíram às ruas do Cairo para uma manifestação a favor do líder, um dia depois de ele anunciar que não buscará a reeleição nas eleições de setembro. Ao chegar à Praça Tahrir, que se tornou símbolo do movimento anti-Mubarak, os governistas encontraram os opositores, e os dois grupos entraram em choques.

A situação ficou mais tensa desde as 17h locais (13h em Brasília), momento em que foram lançadas muitas pedras e coquetéis molotov. Atingido por coquetéis lançados contra uma de suas laterais a partir de terraços de prédios vizinhos, os jardins do Museu Egípcio foram incendiados, segundo a rede de televisão catariana "Al Jazeera". Na sexta-feira, o museu foi alvo de vandalismo .

O Exército, que na terça-feira se comprometeu a não reprimir as manifestações dos opositores, não interferiu nos tumultos. Militares somente fizeram sete disparos de balas de borracha para o alto para tentar dispersar sem sucesso os grupos rivais, que se concentraram em duas entradas da praça.

Após os disparo do fora da praça, que tem cerca de oito entradas e é uma confluência de ruas da capital egípcia, houve gritaria e os opositores de Mubarak passaram a correr com barras de ferro e pedaços de pau.

Enquanto os partidários de Mubarak investiam contra a multidão montados em cavalos e camelos, os opositores usaram cobertores, plástico, banners para carregar pedras até o local de limite entre os dois grupos, em duas entradas da praça. As pedras, que homens e mulheres confeccionaram quebrando muretas e o piso da praça com barras de metal, foram lançadas contra os rivais. Um repórter da SkyNews foi atacado ao tentar defender um homem de agressores.

Segundo os manifestantes antigoverno, que passaram a usar cachecóis enrolados na cabeça como proteção, havia policiais à paisana entre os manifestantes pró-Mubarak e eles estariam armados.

Muitas pessoas com ferimentos leves na cabeça e nariz sangrando podiam ser vistas na praça Tahrir sendo carregadas. A reportagem do iG , localizada a cerca de 200 metros dos focos de confronto, viu pelo menos duas delas serem tratadas com gaze na própria praça.

Por cerca de 20 minutos, a canadense Kimi S., estudante de direitos humanos na Universidade do Cairo, conseguiu a muito custo demover alguns dos manifestantes de transformar em armas uma pilha de pedras a seus pés.

Sozinha e argumentando aos gritos com até 15 manifestantes ao mesmo tempo, a estudante conseguiu convencê-los temporariamente a largar as pedras que seriam usadas contra o grupo rival, pró-Mubarak.

"Eles vão nos matar, temos de nos defender", argumentou um rapaz. "Não! Vocês vão dar armas para eles, que vão usar mais violência", rebateu a canadense.

Os choques começaram depois que os opositores começaram a retirar a força os governistas do local. A reportagem do iG viu 11 partidários do líder egípcio serem expulsos pelos opositores. Alguns dos manifestantes expulsos sangravam, choravam e um deles havia perdido um dente.

Os simpatizantes do líder egípcio afirmam que ele realizou um bom trabalho nos últimos 30 anos e, enquanto alguns apoiam sua decisão de deixar o poder em setembro, outros querem que ele permaneça governando o país por mais um mandato.

"Nós somos 85 milhões. Eles (os opositores) talvez sejam um milhão. Mubarak é nosso presidente. Ele fez tudo pelo Egito e está conosco na guerra e na paz", disse ao iG o dono de restaurante Neher Ali, de 29 anos.

Os defensores do presidente do Egito carregavam cartazes com sua foto estampando frases como "Nós amamos o Mubarak", "Mubarak é nosso líder", "Apoiamos a legitimidade do Mubarak" e "Mubarak é o maior". Muitos seguram a bandeira do Egito.

As entradas da praça estão isoladas por tanques do Exército, que nesta quarta-feira fez um apelo para o fim dos protestos. O controle de entrada e saída da Tahrir é feito por voluntários da proscrita Irmandade Muçulmana. Eles formam cinco barreiras de homens que fazem revistas e controle de documentos.

AP
Manifestante anti-Mubarak é visto sangrando

Confrontos

Segundo a Associated Press, milhares de egípcios participaram da manifestação a favor de Mubarak, a primeira em grande escala desde que os protestos antigoverno começaram, no dia 25 de janeiro. Ainda de acordo com a agência, os partidários do presidente quebraram uma corrente humana de manifestantes contra o líder, que tentava proteger os milhares de egípcios reunidos na Tahrir.

Eles queimaram cartazes que criticavam o presidente e houve pancadaria. Segundo a AP, manifestantes dos dois lados ficaram feridos e alguns foram vistos com sangramento na cabeça.

Os confrontos começaram horas depois de o Exército ter feito um apelo pelo fim das manifestações. Os manifestantes também anunciaram uma redução em três horas no toque de recolher, que agora vale para o período entre 17h e 7h no horário local (13h e 3h de Brasília). Os serviços de internet também começaram a ser restabelecidos, após cinco dias de bloqueio.

O porta-voz do Exército, Ismail Etman, fez um pronunciamento na televisão estatal no qual pediu que os jovens manifestantes encerrem os protestos "por amor ao Egito". "Vocês saíram às ruas para expressar suas exigências e vocês são os únicos capazes de trazer a vida normal de volta ao Egito", afirmou. "Sua mensagem chegou, suas exigências são conhecidas." Após o pronunciamento, a televisão estatal exibiu uma mensagem de texto que dizia: "As Forças Armadas pedem que os manifestantes voltem para casa para trazer a estabilidade de volta."

Discurso

O discurso de Mubarak, no qual prometeu não concorrer à reeleição, foi recebido com hostilidade pelas centenas de milhares de manifestantes que participavam de protestos em massa na terça-feira em vários pontos do país. Eles exigem que o líder deixe o poder imediatamente, e não em setembro, quando acaba seu mandato.

A multidão assistiu ao discurso de Mubarak em um telão na praça Tahrir (ou praça da Libertação), epicentro dos protestos Muitos vaiaram o presidente e gritaram frases como: "não vamos embora até que ele vá embora", "Fora Mubarak!" e "A população quer que o presidente seja julgado". Alguns balançaram sapatos no ar - um profundo insulto no mundo árabe.

Nesta quarta-feira, porém, alguns relataram ao iG que o discurso os fez desistir de manter os protestos contra o presidente. Do lado da oposição desde o início das manifestações, Mohamed Mustafa, de 51 anos, relatou que mudou de lado após o pronunciamento. "Acho que devemos dar uma nova chance a ele. A situação econômica está muito difícil, os protestos causaram o caos. Quanto tempo os manifestantes vão ficar aí? Mubarak é a estabilidade", afirmou ao lado de seu filho de 11 anos.

Já estudante Soufy Hussein, de 28 anos, disse que desistiu de continuar na praça por não haver uma alternativa clara da oposição para suceder o líder egípcio. "Depois do discurso do Mubarak não há por que continuar vindo. Em seu pronunciamento, ele fez uma oferta razoável. Há um vácuo no poder: não existe um plano B, um nome da oposição. Não quero ficar sem presidente, e por isso sou a favor de uma transição tranquila. Não deveríamos nos apressar", afirmou.

Com AP, BBC, Reuters, EFE e AFP

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