Chefe de direitos humanos da ONU cobra investigação no Egito

Ministro da Saúde reconhece mortes por disparos de munição real e diz que investiga uso de gás lacrimogêneo irregular contra manifestantes

iG São Paulo |

A chefe de direitos humanos da ONU, Navi Pillay, pediu nesta quarta-feira uma investigação independente sobre a violência no Egito e disse lastimar a morte de manifestantes por forças militares e de segurança, o que inflama a crise no país.

AP
Manifestantes tentam se livrar de gás lacrimogêneo durante confrontos perto da Praça Tahrir, Cairo. Há denúncias de uso irregular dos gases pelas forças de segurança
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"Peço às autoridades egípcias para que encerrem o evidente uso excessivo da força contra manifestantes da Praça Tahrir e em outras partes do país, incluindo o aparente uso impróprio de gás lacrimogêneo, balas de borracha e balas reais", disse Pillay em comunicado.

Ela acrescentou que "as ações das forças militares e de segurança, em vez de melhorar a segurança e ajudar o Egito na difícil transição para a democracia, serviram novamente para simplesmente inflamar a situação."

"Uma investigação rápida, imparcial e independente deve ser realizada, e aqueles que estiverem por trás dos abusos que ocorreram devem ser responsabilizados."

Nesta quarta-feira, o titular da pasta da Saúde, Amro Helmy, admitiu que vários dos 35 mortos (31 no Cairo e quatro em outras cidades), segundo dados da TV estatal, foram baleados nos distúrbios. De acordo com grupos de defesa dos direitos humanos, porém, os confrontos deixaram 38 mortos desde sábado.

"Foram encontradas balas de fogo em alguns dos corpos", disse o ministro, afirmando que foram abertas investigações em todos os casos de mortos por disparos. Também de acordo com Helmy, alguns dos corpos tinham balas fragmentadas em seu interior, o que pode indicar o uso de armamento não convencional nos choques.

Helmy acrescentou que seu ministério está analisando os gases utilizados pelas forças de segurança, após receber denúncias de que são mais fortes que os lacrimogêneos frequentemente empregados para dispersar manifestações.

Amro Murada, um médico voluntário nos hospitais de campanha de Tahrir, explicou que há dois tipos de gases utilizados nas manifestações no Egito. Um deles, proibido nos EUA, tem efeitos secundários sobre os olhos e possíveis efeitos cancerígenos. "Achamos que esse é o gás que está em utilização aqui. Por enquanto, tentamos neutralizar sua acidez e tratamos seus efeitos sobre os olhos e o sistema nervoso", disse.

Os egípcios derrubaram o presidente Hosni Mubarak em 11 de fevereiro e muitos esperavam uma transição tranquila para a democracia, mas foram decepcionados pela aparente relutância das forças militares em se afastar do poder depois de assumir o controle do país durante o período de transição.

Os choques entraram nesta quarta-feira no seu quinto dia , apesar da promessa feita na véspera pela junta militar de que aceleraria o processo de transição para um governo civil .

Processo eleitoral

O Egito inicia uma eleição parlamentar na próxima segunda-feira mas, sob o complicado sistema eleitoral, a Câmara Baixa e a Câmara Alta entrarão em vigor só em março do ano que vem, quando elegerão uma assembleia para elaborar uma nova Constituição.

Em uma tentativa de acalmar os ânimos dos manifestantes, há dois dias a junta militar publicou um decreto-lei que proíbe a participação nas eleições de qualquer pessoa que "corrompa a vida política e danifique o interesse do país", em referência aos membros do extinto regime de Mubarak.

Mas, segundo o porta-voz da Comissão Suprema Eleitoral Judicial, Ali Hassan, a lei não poderá ser aplicada a tempo. "Não há tempo para aplicá-lo, e vamos estudar isso após as eleições", disse Hassan.

De acordo com ele, primeiramente é necessária uma investigação sobre quantas pessoas foram denunciadas e depois mandar os casos a um tribunal legislativo, não havendo tempo hábil para isso antes das eleições parlamentares do dia 28.

Muitos membros do dissolvido Partido Nacional Democrático (PND) de Mubarak formaram novos partidos depois da revolução egípcia, enquanto outros se integraram em diversas formações.

*Com Reuters e EFE

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