Chanceler russo visita a Síria em meio à escalada de violência

Lavrov defende solução árabe para crise; multidão agradece veto russo na ONU e países do Golfo expulsam embaixadores sírios

iG São Paulo |

Milhares de sírios balançaram bandeiras da Rússia para receber o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, que desembarcou em Damasco nesta terça-feira. A visita oficial acontece dias após a Rússia e a China terem vetado uma resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o presidente Bashar Al-Assad.

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Chanceler russo, Serguei Lavrov, reúne-se com o presidente da Síria, Bashar al-Assad no palácio presidencial em Damasco
Imagens da rede de televisão estatal da Síria mostraram o comboio de Lavrov passando pelas ruas de Damasco em meio a uma multidão de partidários de Assad que demonstrava gratidão ao veto na ONU. “Estou aqui para agradecer a Rússia por se manter firme diante da conspiração mundial contra a Síria”, disse a manifestante Manya Abbad, 45 anos, em meio à multidão que recebeu a delegação russa. “Gostaria que os países árabes adotassem a mesma postura.”

Após encontro com o líder sírio, o chanceler russo pediu que a crise seja solucionada tendo como base o plano proposto pela Liga Árabe. De acordo com o Lavrov, a Síria quer que a missão de observadores da Liga Árabe continue a atuar no país e seja ampliada para monitorar a aplicação do plano, que o Ocidente conclamou Damasco a aceitar. A missão de observadores entrou no país em 26 de dezembro para monitorar a implementação do acordo, que prevê a retirada das forças de segurança das cidades onde há manifestações antigovernamentais, libertação de presos políticos e início de conversações com dissidentes.

O mandato dos monitores expirou em 19 de janeiro , mas, apesar de seus trabalhos terem sido estendidos pela Liga Árabe por um mês no dia 22, a missão perdeu sua força após o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), bloco que reúne Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Bahrein, Omã e Emirados Árabes, ter decidido dois dias depois retirar seus integrantes .

Posteriormente, a Liga Árabe também propôs um novo acordo prevendo a renúncia de Assad e a criação de um governo de unidade nacional dentro de dois meses. A proposta foi rejeitada por Damasco. Também segundo o chanceler russo, Assad anunciará em breve a data de um referendo sobre a nova Constituição do país, que já foi concluída. O presidente do país árabe havia anunciado em 10 de janeiro que a consulta popular seria realizada no início de março .

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Nesta terça-feira, o porta-voz da chancelaria chinesa, Liu Weimin, disse que a China também considera enviar um representante ao Oriente Médio para discutir a crise. "Esperamos que a mediação russa possa ter sucesso", afirmou. "Vamos considerar enviar alguém no futuro próximo à região, à Ásia Ocidental e ao Norte da África, para desempenhar um papel proativo e construtivo na busca por uma resolução política."

A visita acontece em meio a uma escalada de violência no país, especialmente na cidade de Homs, alvo de um ataque brutal das forças de segurança desde sábado. Nesta terça-feira, soldados usaram tanques e metralhadoras para tentar recuperar bairros que estão sob o controle de desertores do Exército.

Segundo ativistas, a operação das forças de segurança matou mais de 200 no sábado e pelo menos 70 na segunda-feira apenas em Homs.

Em reação à violência, Estados do Golfo anunciaram a expulsão dos embaixadores sírios de seus territórios e a convocação de seus próprios embaixadores na Síria em reação ao "assassinato em massa" de civis. A decisão foi tomada um dia depois de o governo dos Estados Unidos fechar sua embaixada no país. Reino Unido, Itália, França e a Espanha decidiram convocar seus embaixadores em Damasco.

Nesta terça-feira, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) denunciou um aumento da violência contra crianças na Síria, onde centenas morreram, ficaram feridas e são vítimas de "detenções arbitrárias, torturas e abusos sexuais". De acordo com a organização, 400 crianças teriam sido mortas desde o início da revolta, com outras 400 tendo sido presas.

De acordo com a porta-voz da Unicef, Marixie Mercado, os ataques em Homs estão causando "mais sofrimento às crianças", que se transformaram em "alvo deliberado" das forças de segurança. Os dados do Unicef apontam que dezembro foi o mês mais violento para as crianças na Síria, mas a porta-voz advertiu que janeiro possa ter superado. O órgão baseia o dado em "informações confiáveis" de ONGs que atuam na região.

Depois do bloqueio russo e chinês ao esboço de resolução na ONU, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou nesta terça-feira no Parlamento que a Turquia lançará uma nova iniciativa internacional "com os países que apoiam o povo e não o regime sírio". O premiê, porém, não detalhou o conteúdo da proposta.

O chanceler turco, Ahmet Davutoglu, viajará na quarta-feira aos Estados Unidos, aliado da Turquia na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), onde se reunirá com a secretária de Estado americana, Hillary Clinton.

Mulher de Assad

Nesta terça-feira, o jornal britânico The Times publicou uma mensagem que teria sido enviada pela mulher de Assad, Asma, por meio de seu gabinete.

Em sua primeira declaração sobre a crise, Asma, que foi criada no Reino Unido, defendeu o marido. "Assad é o presidente da Síria, não de uma facção de sírios, e a primeira-dama o apoia neste papel", afirmou a mensagem.

"A agenda extremamente cheia da primeira-dama segue dedicada principalmente às associações de caridade com as quais está comprometida há muito tempo, ao desenvolvimento rural e ao respaldo ao presidente. Nestes dias, também atua para estimular o diálogo. Escuta e reconforta as famílias vítimas da violência", acrescentou.

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Partidários de Assad recebem chanceler da Rússia, Serguei Lavrov, em Damasco, na Síria

Segundo a publicação britânica, Asma, 36 anos, enviou a mensagem após um artigo publicado pelo jornal questionar como uma mulher “inteligente e educada, criada em país liberal” poderia concordar com o massacre na Síria.

Asma Assad é filha de um médico cardiologista e viveu no bairro de Acton (oeste da capital britânica). Ela é sunita e sua família é de Homs, epicentro dos protestos contra o regime sírio. A primeira-dama estudou em um colégio privado de Londres, no Imperial College, e trabalhou no banco de investimento J.P.Morgan antes de casar-se com Bashar Al-Assad meses depois de ele assumir o poder, em 2000.

Com AP e AFP

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