Brasileiros em Benghazi estudam deixar Líbia por navio

Grupo de funcionários da Queiroz Galvão prepara "plano B" após informação de que pista do aeroporto foi danificada em protestos

iG São Paulo |

Um grupo de 130 brasileiros fechados desde a semana passada em uma casa e em um hotel da cidade de Benghazi já se prepara para uma alternativa para deixar o país caso não seja possível tomar um avião fretado preparado para retirá-los de lá.

A possibilidade em estudo é a saída por mar, pelo porto de Benghazi, em direção a Malta ou à Itália. Segundo o ministro de Relações Exteriores do Egito, Ahmed Aboul Gheit, a pista do aeroporto da cidade teria sido danificada durante os protestos, prejudicando a saída com avião. "Não é possível para os voos da Egyptair ou qualquer outra companhia área aterissar naquele aeroporto", declarou Gheil.

A cidade de Benghazi, segunda maior do país, é o principal foco das manifestações contra o governo do coronel Muamar Kadafi, no poder no país há mais de quatro décadas. Dezenas de pessoas teriam morrido em consequência da repressão aos protestos no fim de semana. Grupos opositores teriam tomado o poder na cidade.

Os brasileiros do grupo são funcionários da empresa Queiroz Galvão, que tem contrato para seis projetos de obras de infraestrutura na região de Benghazi. A empresa mantém as famílias de brasileiros e também de empregados portugueses na casa do diretor da empresa para o Norte da África, Marcos Jordão. Há várias crianças no grupo. Os funcionários solteiros estão alojados em um hotel próximo.

"Estamos todos bem. Temos suprimentos para mais de cinco dias, mas esperamos uma definição para conseguirmos a retirada entre hoje e amanhã", afirmou Jordão em entrevista à BBC Brasil por telefone. Segundo ele, os planos de retirada estão sendo coordenados entre a empresa e as Embaixadas do Brasil e de Portugal na Líbia.

O biólogo Roberto Roche Moreira, que está na casa de Jordão com a mulher e dois filhos, disse que a ansiedade de todos é grande. "Todo mundo aqui está com sua malinha pronta para ir embora", afirmou, acrescentand que todos estão "bens e tranquilos".

"O problema maior é de logística, saber quem vai liberar nossa saída", afirmou, observando que o salvo-conduto para a movimentação do grupo pode ter que ser negociado com os grupos de oposição que teriam tomado conta da cidade. "Queremos sair o mais rápido possível, mas temos que sair com segurança, com a certeza de que não vamos enfrentar nenhum perigo pelo caminho."

Em entrevista ao iG , a filha mais velha de Roberto, Mariana, que vive no Rio de Janeiro, relatou sua preocupação com a segurança do pai. “Há comida, água, vela e fósforo estocados. Mas o que me preocupa é a falta de notícias. Só falo com meu pai pelo celular e está cada vez mais difícil”, afirmou.

Tiros

Segundo Marcos Jordão, o grupo de cerca de 50 pessoas que está fechado em sua casa desde a quarta-feira não chegou a observar a violência decorrente da repressão aos protestos populares.

"Nos primeiros dias, ouvíamos de longe sons de tiros, mas desde sábado à noite não temos ouvido mais nada. A cidade parece estar tranquila agora", diz.

Segundo ele, as informações que o grupo recebe são escassas, por conta do bloqueio à internet e a censura na imprensa local. A única fonte de informação são os canais internacionais da TV por satélite, que não tem sido bloqueada. Os serviços telefônicos também estão prejudicados. Os brasileiros contam que conseguem receber ligações, mas não conseguem ligar para fora.

Jordão foi o único do grupo a deixar a casa para visitar os demais funcionários alojados pela empresa em um hotel próximo. Ele contou ter visto sinais das manifestações nas ruas, como pilhas de lixo e pneus queimados e materiais militares abandonados, mas afirmou não ter visto pessoas protestando nem episódios de violência.

Segundo ele, o comércio para suprimentos, como supermercados, permanecia aberto na cidade. "As informações que temos ainda são desencontradas. Sabemos que houve algo pesado, pela quantidade de tiros que ouvimos, mas cada um diz uma coisa e todos tendem a aumentar um pouco", diz. "Temos procurado ficar distantes desses eventos, sem nos envolver."

A Queiroz Galvão é a única empresa brasileira instalada na região de Benghazi. Outras três companhias do país - Petrobras, Odebrecht e Andrade Gutierrez - mantêm escritórios e funcionários na capital do país, Trípoli.

Arte/iG
A capital, Trípoli, e a cidade portuária de Benghazi concentram protestos contra o governo

Com BBC

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