Avião com brasileiros que estavam na Líbia pousa no Recife

"A ansiedade para voltar ao Brasil era muito grande", diz um diretor da Queiroz Galvão

Renata Baptista, iG Pernambuco |

AE
Henrique Canuto (e), diretor de obras, e Marcos Antônio Tavares Jordão, diretor para África do Norte e Oriente, desembarcaram no Recife
Chegou ao Recife, por volta das 18h desta segunda-feira, o avião fretado pela construtora Queiroz Galvão com 148 brasileiros que estavam na Líbia. Com o acirramento dos conflitos no país, a empresa resolveu colocar os funcionários na casa de um dos diretores e em hoteis mais afastados. Eles deixaram o país em um navio, desembarcando na Grécia no domingo. Antes de chegarem a Recife, eles fizeram escala em Lisboa, onde um grupo de portugueses e espanhóis da empresa desembarcou.

No Aeroporto Internacional do Recife-Guararapes/ Gilberto Freyre, o clima era de muita ansiedade. Dezenas de familiares e amigos dos 58 pernambucanos do grupo esperavam por notícias no saguão de desembarque. Alguns traziam faixas, flores e balões.

"Nosso desespero começou quando cortaram a internet e a comunicação ficou mais difícil, mas graças a Deus tudo acaba hoje", disse a designer Margarida Correia Lima, que esperava a chegada do sobrinho Ricardo César.

O diretor da construtora na África do Norte e Oriente, Marcos Jordão, de 54 anos, foi o primeiro passageiro a desembarcar. Ele disse que os distúrbios no país começaram na quarta-feira, e na casa de alguns engenheiros, em Benghazi, começaram a ouvir tiroteios. Apesar de ninguém ter presenciado o conflito.

A partir daí a empresa decidiu retirá-los do local e levá-los para a casa de Jordão, que ficava mais afastada, e os que estavam mais distantes em um hotel.

"Em nenhum momento nenhum de nós esteve em perigo ou na linha de fogo direto, mas a ansiedade para voltar ao Brasil era muito grande", afirmou Jordão. 

Segundo ele, a construtora possui seis contratos em cidades próximas a Benghazi. No domingo, ele saiu da casa para visitar o outro grupo e, mesmo evitando os locais de conflito, disse ter sido possível ver que a cidade estava sem policiamento e sem exército na rua.

Jordão afirmou que ainda é cedo para dizer se a empresa vai voltar a atuar no país. "Vamos ter que estudar, ver o que vai ser daqui pra frente."

Brasileira grávida

"A sensação é de nascer de novo e ainda com mais uma vida aqui dentro". Assim afirmou estar se sentindo a assistente de planejamento Jaqueline Siqueira, de 28 anos e grávida de quatro meses, após aterrissar no Recife.

O grupo ficou cerca de 22 horas em viagem de navio entre Benghazi e Atenas, na Grécia, e outras 15 horas no voo de Atenas a Recife. Chorando muito, Jaqueline explicou que a preocupação no país era muito grande. "Meus vizinhos tinham duas crianças pequenas e estavam a 200 metros do conflito. Era muito tiro e muita bomba." Ela fazia parte do grupo de 56 pessoas que ficou na casa de Marcos Jordão, que ficava mais afastada da cidade.

Ela estava na Líbia há dois anos e há um ano não vinha ao Brasil e foi recebida pelos pais e sogros. Segundo ela, o marido dela, o engenheiro Jurandir Coelho, de 40 anos, que também trabalha na Queiroz Galvão, voltou um dia para a casa deles para buscar os pertences do casal e viu que mataram uma pessoa na frente do local e tentaram entrar na casa para saqueá-la.

Jaqueline não descarta voltar ao país depois que os conflitos forem resolvidos. "O povo de lá é muito acolhedor, o doido é o presidente."

AE
O encarregado Cícero Gonçalves comemora junto à família o retorno ao Brasil
Já o encarregado de mecânica da empresa, Cícero Gonçalves, de 46 anos, disse que, por vontade dele, não volta mais para a Líbia. Abraçado a dois dos três filhos, ele disse que temia muito um bombardeiro aéreo, e que só pensava nisso, mas que agora estava muito feliz em voltar para casa.

O mecânico Legildo Novacosque, de 48 anos, disse não sentiu medo em momento algum e que não via nada do hotel onde estava. Ele estava lá desde o dia 2 de janeiro. A mulher dele, Ledivânia, de 38 anos, que o aguardava no Recife, disse que não permaneceu tão tranquila quanto o marido. "A gente fica com muito medo por causa da distância, mas ele sempre dava notícias. Mas teve uma vez que fiquei dois dias sem notícias, aí fiquei ansiosa demais, sem saber o que estava acontecendo."

Os passageiros que moram em outros Estados - no voo vieram brasileiros provenientes da Bahia, do Maranhão, São Paulo, Paraíba, Pará, Distrito Federal, Goiás, Rio de Janeiro, Ceará, Minas Gerais, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Amazonas, Santa Catarina e Sergipe - vão seguir em conexões ainda nesta segunda-feira ou na terça-feira.

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