Autoridade síria diz que renuncia por 'crimes contra humanidade'

Homem que alega ser procurador-geral de Hama diz ter visto mais de 70 execuções; Anistia Internacional denuncia casos de tortura

iG São Paulo |

AFP/ YouTube
Reprodução de vídeo mostra manifestantes sírios em Damasco com placas em que se lê: Reivindicamos uma imediata interferência militar turca e árabe
Um homem que diz ser a maior autoridade da Justiça da cidade síria de Hama, no centro do país, anunciou ter renunciado ao cargo após testemunhar crimes contra a humanidade. Em uma declaração gravada em vídeo, o suposto procurador-geral de Hama, Adnan Bakkour, diz ter visto mais de 70 execuções e centenas de casos de tortura. O vídeo foi publicado na internet nesta quarta-feira, mas não se sabe quando foi gravado.

Na segunda-feira, a agência de notícias estatal síria disse que Bakkour havia sido sequestrado por homens armados quando se encaminhava para o trabalho. A agência citou a polícia de Hama, dizendo que o procurador-geral, seu motorista e um guarda-costas haviam sido sequestrados no vilarejo de Karnaz. Desde então, não houve novos relatos a respeito da situação de Bakkour.

'Gangues'

Em seu pronunciamento, o procurador-geral disse que se demitia por causa do regime do presidente sírio, Bashar Al-Assad, e "suas gangues". No vídeo, Bakkour cita como motivos para sua renúncia a morte de 72 detentos na prisão central de Hama em 31 de julho, incluindo manifestantes pacíficos e ativistas políticos, e o enterro de mais de 420 vítimas em valas comuns em parques públicos por integrantes das forças de segurança e milicianos pró-governo.

Outras razões são as detenções arbitrárias de manifestantes pacíficos (segundo ele, 10 mil deles continuam detidos), a tortura de prisioneiros pelas forças de segurança, com a morte de 320 torturados, e a demolição de casas, com moradores dentro, pelo Exército sírio.

Bakkour chamou de "criminosos" os responsáveis pelo massacre de manifestantes. Nesse grupo, ele inclui os chefes locais do Ministério do Interior, da polícia, da inteligência militar e do Diretório Geral de Segurança, órgão federal de inteligência da Síria. O procurador-geral também acusou diversas outras autoridades de tortura.

Operação militar

A publicação do vídeo ocorreu enquanto tropas e tanques realizaram uma operação em casas de Hama em busca de ativistas responsáveis pelos protestos que exigem a queda do regime de Assad, segundo residentes.

De acordo com Observatório de Direitos Humanos da Síria, ao menos 473 foram mortos durante o Ramadã na Síria. Na terça-feira, quando milhares participaram de manifestações improvisadas depois das orações que marcaram o fim do mês sagrado islâmico, as forças de segurança deixaram pelo menos sete mortos , de acordo com ativistas.

AFP
Cartunista sírio Ali Farzat descansa em sua casa em Damasco em 25/8/2011 depois de ser espancado por milicianos do regime de Bashar al-Assad
Os ativistas dizem que seis foram mortos em Deraa, no sul do país. Posteriormente, a Anistia Internacional (AI) divulgou detalhes sobre 88 pessoas que teriam sido mortas entre abril e meados de agosto enquanto estavam detidas pela polícia. Sesgundo a AI, que divulgou vídeos de corpos apresentando sinais de agressões, queimaduras, choques elétricos e outros abusos, no caso de ao menos 52 dessas vítimas existem provas de tortura que causaram ou contribuíram para sua morte.

Com sede em Londres, a organização humanitária disse que não foi informada de nenhuma investigação independente sobre as mortes e pediu ao Conselho de Segurança da ONU que leve a situação na Síria ao Tribunal Penal Internacional para que imponha um embargo sobre o país e congele os fundos do presidente Assad e de seus aliados. 

A ONU afirma que mais de 2,2 mil foram mortos na Síria desde que os protestos por reformas democráticas começaram, em março. O governo de Assad culpou "gangues criminosas armadas" pelo levante popular. O acesso de jornalistas à Síria foi fortemente restringido, o que torna praticamente impossível a verificação de informações de forma independente.

*Com BBC e EFE

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