Autoridade da Líbia na ONU acusa Kadafi de genocídio

Delegação diplomática pede renúncia de Kadafi e intervenção internacional para garantir segurança dos cidadãos líbios

iG São Paulo |

A delegação de diplomatas da Líbia na ONU pediu nesta segunda-feira uma intervenção internacional contra a onda de violência no país. O vice-embaixador líbio no órgão, Ibrahim Dabbashi, fez também um apelo por proteção aos cidadãos contra o que definiu como "genocídio" patrocinado pelo presidente Muamar Kadafi.

"É um verdadeiro genocídio", afirmou Dabbashi. "As informações que estamos recebendo das pessoas em Trípoli são de que o regime está matando qualquer um que esteja na rua. Ele (Kadafi) tem seus mercenários por toda parte e toda vez que um manifestante aparece, eles atiram."

Dabbashi pediu que as Nações Unidas interditem o espaço aéreo sobre a capital líbia após relatos de que a aviões da Força Aérea estariam bombardeando áreas de protestos. Mais cedo, dois pilotos de jatos da Força Aérea da Líbia pousaram em Malta e disseram ter sido ordenados a bombardear manifestantes. Eles teriam se recusado a realizar a tarefa e um deles teria pedido asilo político.

O diplomata fez um apelo para que Kadafi deixe o poder. "Se ele não o fizer", afirmou, "o povo líbio vai se livrar dele".

Clima de tensão

O governo da Líbia prometeu nesta segunda-feira investigar episódios violentos registrados durante protestos da oposição, na tentativa de frear a onda de manifestações que atinge o país desde o dia 16 de fevereiro. A tensão aumentou nesta segunda-feira com a renúncia de autoridades do governo, relatos de novos abusos das forças de segurança e rumores de que Kadafi teria embarcado para a Venezuela - informação negada pelo governo de Hugo Chávez.

Benghazi, a segunda maior cidade líbia, está desde domingo sobre o controle dos manifestantes. Os protestos chegaram à capital , Trípoli, onde forças de segurança leais a Kadafi protegem locais estratégicos como a sede da TV estatal e o palácio presidencial.

A imprensa internacional tem dificuldade de confirmar as informações dadas por testemunhas por causa de um bloqueio imposto pelo governo líbio: jornalistas do exterior não podem entrar no país e o acesso à internet foi quase totalmente derrubado.

Em Trípoli, escolas, prédios do governo e lojas estão fechadas. Pela manhã, era possível ver fumaça em pelo menos dois locais da capital, onde estão localizadas uma delegacia de polícia e uma base das forças de segurança. Os prédios teriam sido incendiados por manifestantes no domingo, durante choques com forças de segurança e partidário de Kadafi próximo à Praça Verde, no centro da cidade.

Em um sinal de que ruptura com o governo, diversas autoridades - inclusive o ministro da Justiça, Mustafá Abdel Yalil, integrantes da missão líbia na ONU e diplomatas em diferentes países - renunciaram em protesto contra o uso excessivo de força na repressão das manifestações. De acordo com a organização americana Human Rights Watch, os protestos na Líbia deixaram pelo menos 233 mortos desde 17 de fevereiro.

Após a renúncia das autoridades, o filho de Kadafi, Saif el-Islam Kadafi, anunciou a criação de uma comissão para investigar episódios violentos durante os protestos. A comissão será dirigida por um juiz, e incluirá membros de organizações de direitos humanas líbias e estrangeiras.

Venezuela

Enquanto a tensão aumenta, circulam boatos de que Kadafi teria viajado para a Venezuela para escapar dos protestos.

Uma autoridade do governo do presidente Hugo Chávez, porém, negou a informação, que tinha sido comentada inclusive pelo ministro das Relações Exteriores britânico.

"Vocês me perguntaram mais cedo se o coronel Kadafi estaria na Venezuela", afirmou Hague a repórteres, em meio a reunião de chanceleres europeus em Bruxelas. "Eu não tenho nenhuma informação que diga isso, mas vi algumas informações que sugerem que ele está a caminho de lá neste momento."

Início dos protestos

Os protestos na Líbia foram desencadeados pela prisão de Fathi Terbil , advogado e notório crítico de Kadafi preso na semana passada em Benghazi. Terbil representa as famílias de vítimas do suposto massacre realizado por forças de segurança no presídio de Abu Slim, em Trípoli, em 1996.

Mais de mil prisioneiros foram mortos na ação de forças de segurança, em circunstâncias que ainda não foram esclarecidas. O presídio abriga opositores do governo e militantes islâmicos.

Uma multidão que contava com parentes dos presos mortos na ação marchou até a sede do governo local para exigir que Terbil fosse solto. Mesmo após a libertação do ativista, os manifestantes seguiram para a praça Shajara, no que se tranformou em protesto contra o governo.

Manifestações pró-democracia vêm se espalhando por diversos países árabes . Eles tiveram início na Tunísia em dezembro passado e provocaram a deposição do então presidente do país, Zine al-Abidine Ben Ali, no final de janeiro. Em fevereiro, uma série de manifestações provocou a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak.

Nos últimos dias, também ocorreram protestos em países como Bahrein, Argélia, Iêmen, Marrocos e Jordânia.

Arte/iG
A capital, Trípoli, e a cidade portuária de Benghazi concentram protestos contra o governo

Com BBC, AP, EFE, AFP e informações do The New York Times

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