Após rejeição de proposta militar, confrontos no Egito entram no 5º dia

Protestos continuam no centro do Cairo um dia após manifestantes rejeitarem promessas do governo de acelerar transição

iG São Paulo |

O clima de tensão na Praça Tahrir, no Cairo, cresceu nesta quarta-feira em meio às tentativas em vão da polícia militar e do Exército do Egito de deter atos de violência entre manifestantes e a polícia civil, enquanto a crise política no país se agrava a cinco dias das eleições legislativas.

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No quinto dia consecutivo de protestos contra a junta militar que governa interinamente o Egito, três carros blindados do Exército entraram na rua Mohammed Mahmoud, epicentro dos confrontos, para cobrir a retirada da polícia, que foi substituída em parte por soldados.

No entanto, o pequeno efetivo, que possibilitou uma breve trégua de três horas, não foi suficiente para impedir a retomada dos choques um dia depois de milhares terem exigido a renúncia da junta militar em um ambiente predominantemente pacífico.

Nas ruas próximas ao Ministério do Interior - que está sob forte esquema de segurança - e à Praça Tahrir, a polícia montou barreiras e disparou gás lacrimogêneo contra os manifestantes, que não pararam de lançar pedras.

No começo da noite, "baltaguiyas" (pistoleiros) pró-militares foram à rua comercial Talaat Harb, que termina na praça, e enfrentaram com pedaços de pau e armas brancas os manifestantes.

O número de feridos, que nesta quarta-feira era de 3.250, aumenta em média em 80 por hora: eles chegam aos improvisados hospitais de campanha na praça em ambulâncias, motos ou até mesmo a pé. Entre os feridos está o fotógrafo espanhol Guillem Valle, que foi espancado por policiais e teve seu equipamento roubado. Segundo Adel Saeed, porta-voz do escritório do procurador-geral do Egito, 312 pessoas foram presas desde sábado.

Atendendo a um apelo da ONU para que se averigue a repressão aos protestos , o Ministério do Interior egípcio pediu à Justiça que analise as acusações contra a polícia por uso excessivo da força. O titular da pasta da Saúde, Amro Helmy, admitiu que vários dos 35 mortos (31 no Cairo e quatro em outras cidades), segundo dados da TV estatal, nos distúrbios foram baleados. De acordo com grupos de defesa dos direitos humanos, porém, os confrontos deixaram 38 mortos desde sábado.

Helmy acrescentou que seu Ministério analisa o gás lacrimogêneo utilizado pela polícia após receber denúncias de que são mais fortes do que os utilizados habitualmente para dispersar protestos. No entanto, um dos médicos voluntários na Praça Tahrir, Amro Murada, explicou à EFE que foram encontrados tubos de gases que estão proibidos nos EUA por seus efeitos secundários e cancerígenos.

O caso também foi denunciado pela ONG Human Rights Watch, que recebeu testemunhos de que as forças da ordem apontam para o rosto dos civis ao disparar balas de borracha ou munições letais.

Na praça, muitos egípcios insistem que permanecerão no local apesar das últimas promessas do chefe da junta militar, o marechal Hussein Tantawi, que dirige o Egito desde a renúncia do presidente Hosni Mubarak, em 11 de fevereiro .

Na noite de terça-feira, o marechal se comprometeu a realizar eleições presidenciais até o fim de junho para transferir o poder totalmente para autoridades civis, mas não mencionou especificamente uma data para a transição. Antes, a junta militar havia marcado as eleições presidenciais para o fim de 2012 ou o início de 2013.

Em seu discurso na TV, Tantawi disse que os militares estão preparados para realizar um referendo sobre a transferência imediata de poder se a população fizer essa reivindicação. Ele também afirmou que está mantida a data da votação legislativa (que será realizada em três fases a partir do dia 28) e que será estabelecido um governo de salvação nacional após o gabinete ter apresentado sua renúncia na segunda-feira .

As promessas não foram consideradas suficientes pelos milhares de manifestantes reunidos na Praça Tahrir e em outras cidades do país, que pedem a saída imediata de Tantawi.

Nesta quarta-feira, a alta comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos, Navi Pillay, condenou o "uso de força excessiva" pelas forças de segurança do Egito e pediu uma investigação sobre as mortes de manifestantes.

"Faço um apelo para que as autoridades egípcias ponham fim ao claro uso de força excessiva contra os manifestantes na Praça Tahrir e em outros locais do país, o que inclui o aparente uso impróprio de bomba de gás, balas de borracha e munição real", afirmou, em comunicado.

Com EFE, AP e BBC

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