Assessora: 'Embaixador líbio no Brasil sofre com a morte do povo'

Salem Ezubedi fará na quinta-feira um pronunciamento; ao menos 8 embaixadores renunciaram em protesto à repressão às manifestações

Andréia Sadi, iG Brasília |

Andréia Sadi
Fachada da Embaixada da Líbia no Brasil
Localizada no Lago Sul de Brasília, a embaixada da Líbia no Brasil funciona normalmente na manhã desta quarta-feira, mas não é permitida a entrada no local. "Sempre foi assim, não é por conta de toda a situação na Líbia. Não temos autorização para deixar ninguém entrar", disse ao iG a assessora do embaixador da Líbia no Brasil, Salem Ezubedi, que se identificou como Patricia.

Questionada sobre como Ezubedi está reagindo aos protestos que pedem a renúncia do líder Muamar Kadafi, há 42 anos no poder, a assessora de nacionalidade libanesa respondeu, com os olhos marejados: "Ele está sofrendo muito com tudo isso. É o povo dele que está morrendo."

Sem dar detalhes, Patricia afirmou que o embaixador líbio não irá à missão diplomática nesta quarta-feira e fará na quinta um pronunciamento ao meio-dia.

Deserções

Pelo menos oito embaixadores e outros diplomatas de alto nível renunciaram a seus cargos em protesto pela violenta repressão aos protestos. Os embaixadores que deixaram seus postos são os chefes das missões líbias na Austrália, Bangladesh, China, EUA , Índia, Indonésia, Malásia e Polônia, segundo a rede Al-Jazeera. Também deixaram seus postos os diplomatas do país na Liga Árabe e na ONU .

Além dos embaixadores, na terça-feira o ministro do Interior do país, Abdel Fattah Younes al Abidi , anunciou sua deserção e o apoio à "Revolução 17 de fevereiro", exortando o Exército a se juntar ao povo e às suas "demandas legítimas". Na segunda, o ministro da Justiça  Mustafá Abdel Yalil também abriu mão de seu cargo por causa do excesso do uso de força.

Nos Estados Unidos, o diplomata líbio Ali Aujali fez duras críticas ao regime de Kadafi. "Como posso apoiar um goveno que mata nosso povo?", questionou Aujali, em entrevista à agência Associated Press. "O que vejo diante de meus olhos é inaceitável."

Aujali trabalhou para o governo da Líbia nos últimos 40 anos e era embaixador do país nos EUA desde 2009. Ele fez um apelo para que Kadafi, no cargo desde 1969, deixe o poder. "Não há outra solução. Ele deve renunciar e dar ao povo a oportunidade de decidir seu futuro", afirmou.

Em entrevista à rede árabe Al-Jazeera, o embaixador líbio na Índia, Ali el Essawi, afirmou que Trípoli "está ocupada por mercenários", acusando o governo de utilizar o Ministério de Relações Exteriores "contra os líbios". "Estão fazendo coisas terríveis contra o povo", acrescentou o diplomata, referindo-se ao uso de força por parte da polícia e do Exército contra os manifestantes.

"Kadafi deve renunciar para que haja o fim desse banho de sangue. Ele não tem nenhuma legitimidade", acrescentou o agora ex-embaixador líbio em Nova Délhi.

O embaixador líbio na Indonésia, Salaheddin M. El Bishari, também anunciou sua renúncia na terça-feira. "Os soldados estão matando civis desarmados sem perdão. Estão usando armamento pesado, jatos e mercenários contra a própria população", afirmou, em entrevista ao jornal "Jakarta Post". "Cansei, não vou mais tolerar isso."

A pressão das deserções ocorre em meio a informações de que os opositores controlam a região oriental do país e avançam sobre o oeste .

Em tom de desafio, Kadafi afirmou em um pronunciamento na terça-feira que não deixará o cargo, conclamando seus partidários a irem às ruas para pôr fim aos protestos . Em seu discurso, Kadafi afirmou que está "disposto a morrer na Líbia" e a combater "os ratos que promovem os distúrbios" até a "última gota" de seu sangue.

De acordo com os primeiros dados oficiais apresentados pelo regime de Kadafi desde o início dos protestos, a violência no país deixou 300 mortos , incluindo 58 militares. Cerca de metade das mortes ocorreu em Benghazi.

*Com Reuters, AP, AFP, EFE e BBC

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