Assembleia Geral da ONU reconhece governo interino da Líbia

Maioria - incluindo o Brasil - aceita pedido do Conselho Nacional de Transição; Conselho de Segurança ameniza sanções contra país

iG São Paulo |

AFP
Premiê turco, Recep Tayyip Erdogan (E), caminha perto de Mustafa Abdel Jalil (D), líder do Conselho Nacional de Transição líbio, após chegar em Trípoli
A Assembleia Geral da ONU, composta por 192 membros, aprovou nesta sexta-feira uma solicitação do Conselho Nacional de Transição (CNT), órgão político dos rebeldes da Líbia, para considerar os seus enviados como os únicos representantes líbios na organização. Na prática, a ONU reconhece o governo interino da Líbia, que derrubou Muamar Kadafi.

O Brasil votou favoravelmente pela medida, apesar de ainda não ter reconhecido oficialmente o CNT como governo legítimo líbio. O ministro das Relações Exteriores do País, Antonio Patriota, disse em várias ocasiões que o governo brasileiro aguardaria a posição da ONU para definir sobre o CNT.

Governos de esquerda da América Latina se opuseram à medida e alguns países africanos pediram que a votação fosse adiada. O embaixador da Venezuela na ONU, Jorge Valero, disse à Assembleia Geral, em nome da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), que rejeita "a autoridade de transição ilegítima imposta pela intervenção estrangeira" e qualquer tentativa de transformar a Líbia em um "protetorado" da Otan ou do Conselho de Segurança.

Valero também culpou a Otan e o Conselho de Segurança por não conseguir pressionar por um cessar-fogo em vez da vitória dos rebeldes ante Kadafi. Parte das forças do antigo líder continua a se opor aos combatentes do novo governo em áreas isoladas do país, que é produtor de petróleo e membro da Opep.

Delegados de Cuba, da Bolívia e da Nicarágua fizeram declarações semelhantes às de Valero. Falando em nome dos países do sul da África, Angola pediu o adiamento da votação para reconhecer a Líbia, mas sua moção foi derrotada.

Autoridades da ONU disseram que o embaixador líbio nas Nações Unidas, Abdurrahman Shalgham, deverá manter o posto como o principal diplomata de Trípoli na ONU. A deserção do vice de Shalgham, Ibrahim Dabbashi, para o campo rebelde em fevereiro de 2011, inspirou dezenas de diplomatas líbios em todo o mundo a denunciar a repressão violenta promovida por Kadafi contra os manifestantes.

A decisão da Assembleia Geral permite que o chefe interino do governo líbio, Mustafá Abdul Jalil, participe na Assembleia Geral da ONU, que acontecerá na próxima semana em Nova York. Na ocasião, ele se reunirá com o presidente Barack Obama.

Ahmed Omar Bani, porta-voz da força militar do CNT, disse que a decisão da ONU prova que o regime de Kadafi chegou ao fim. Ele disse também que as Nações Unidas reconheceram o órgão político dos rebeldes, quando adotou uma resolução em 17 de março, autorizando ações militares para proteger os civis. "Agora, eles confirmaram isso."

"Nós estamos tão orgulhosos, porque isso significa que somos as pessoas certas que têm o direito de liderar esse país", afirmou Bani à Associated Press. "Primeiro, gostaríamos de provar para o mundo que somos um país democrático. Nossa cultura está muito distante da de Kadafi e seus partidários", disse. "Passamos mais de 40 anos em um túnel escuro, sem cores e sem vozes, exceto uma, então nós queríamos provar ao mundo que somos livres."

O embaixador egípcio na ONU, Maged Abdelaziz, foi um dos que mais instaram a Assembleia Geral a conceder o assento ao CNT. Como país vizinho da Líbia, o embaixador disse que o Egito "é a melhor testemunha dos tempos de horror que a população da Líbia viveu, em resultado de um regime opressor que governou o país por mais de 40 anos".

França e EUA

A França e os Estados Unidos celebraram a atribuição da cadeira na ONU líbia ao CNT. "É um momento histórico. Esse voto confirma a reintegração da Líbia ao conjunto de nações e dá as boas-vindas aos representantes da nova Líbia", disse o embaixador francês na ONU, Gerard Araud. "É outro passo para a volta à normalidade, e celebramos isso."

AP
Combatente da Líbia comemora em Bani Walid, onde opositores de Muamar Kadafi entraram nesta sexta-feira
A embaixadora americana Susan Rice classificou a decisão como um passo histórico. "O povo líbio ainda tem muito trabalho pela frente, mas também conta com a segurança de que a comunidade internacional, incluindo os Estados Unidos, está pronta para ajudá-lo em sua transição para a democracia, a prosperidade e o respeito às leis", disse.

A votação aconteceu no mesmo dia em que o Conselho de Segurança adotou uma resolução , apresentado pelo Reino Unido, que prevê a liberação de parte dos bens bloqueados da Líbia e o fim do embargo sobre as armas. O projeto inclui o envio de uma missão da ONU de três meses para ajudar o governo interino a organizar eleições e elaborar uma nova constituição, segundo diplomatas.

Combatentes leais ao governo interino da Líbia mantiveram nesta sexta-feira o avanço sobre a cidade-natal de Kadafi , Sirte, e entraram na cidade de Bani Walid, localizada em meio ao deserto e um dos últimos redutos do regime deposto, onde encontraram forte resistência. As ações militares contra os últimos bastiões fieis a Kadafi foram lançadas em meio à visita de líderes estrangeiros ao país.

Um dia depois da visita do presidente francês, Nicolas Sarkozy, e do primeiro-ministro britânico, David Cameron , o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, chegou ao país para se reunir com os novos líderes líbios na capital, Trípoli. As visitas são outra mostra do apoio da comunidade internacional para que o governo provisório consolide sua legitimidade e comece a reconstrução apesar dos contínuos combates entre partidários de Kadafi, que permanece foragido.

* AP, AFP e Reuters

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