Assembleia da ONU suspende Líbia do Conselho de Direitos Humanos

Medida é mais um elemento de pressão da comunidade internacional para pôr fim à violência no país do norte da África

iG São Paulo |

Os 192 membros da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas suspenderam com unanimidade nesta terça-feira a Líbia como país membro do Conselho de Direitos Humanos da entidade por causa do uso da violência pelo governo líbio na repressão aos protestos. A votação foi feita depois de o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pedir para a organização "agir decisivamente".

Manifestantes exigem a saída de Muamar Kadafi, no poder há quase 42 anos, e têm sido reprimidos com violência. Após duas semanas de revolta, a mais sangrenta na atual onda de levantes no mundo árabe, o líder perdeu o controle de grande parte do país.

A expulsão é mais uma medida de pressão da comunidade internacional contra o regime líbio, que nos últimos dias foi alvo de sanções do Conselho de Segurança da ONU , dos EUA , da União Europeia e congelamento de bens pela Suíça e por Washington . Além disso, o governo americano enviou navios e aviões para perto do país para uma eventual intervenção militar.

A secretária de Estado americana dos EUA, Hillary Clinton, advertiu nesta terça-feira que a Líbia corre o risco de uma "guerra civil prolongada". “Nos próximos anos, a Líbia pode se tornar uma democracia pacífica ou pode enfrentar uma guerra civil prolongada. Os riscos são grandes.”

Hillary informou que os EUA analisam com seus aliados da Organização do Atlântico Norte (Otan) criar uma "zona de exclusão aérea" para conter a violência no país. Posteriormente, porém, comandantes militares americanos informaram que ainda não há consenso na Otan para a zona de exclusão aérea, qualificando a medida de "extraordinariamente" complicada.

Segundo o general James Mattis, um alto comandante militar americano no Oriente Médio, a zona de exclusão impediria o governo Kadafi de bombardear manifestantes. No entanto, Mattis ressaltou que o Exército americano teria de destruir as defesas aéreas líbias para estabelecer a zona de exclusão no país.

Ao Congresso, Hillary também defendeu uma investigação para apurar a possível participação de Kadafi no atentado aéreo de Lockerbie, que deixou 270 mortos em 1988. Ao Congresso dos EUA, a secretária de Estado afirmou que a questão se tornou premente "porque, nos últimos dias, houve declarações de ex-membros do governo líbio apontando Kadafi" como possível idealizador do ataque. A maioria das vítimas do voo 103 da Pan Am, que explodiu sobre a cidade escocesa de Lockerbie, era americana.

Segundo a embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, a comunidade internacional continuará pressionando Kadafi militar e economicamente para obrigá-lo a abandonar o poder. "A comunidade internacional manterá a pressão até que ele se retire e permita que as pessoas se expressem livremente e determinem seu próprio futuro", disse.

AP
Em Benghazi, manifestante anti-Kadafi faz o V da vitória com a mão pintada com a antiga bandeira nacional da Líbia
"Levará tempo para que as sanções surtam efeitos, (mas) buscamos todas as maneiras de limitar a capacidade de Kadafi de rearmar-se e reabastecer-se", acrescentou.Em meio aos sinais de que uma intervenção militar está em consideração para conter a violência no país do norte da África, a França rejeitou uma ofensiva sem mandato da ONU.

O chanceler francês, Alain Juppé, afirmou que estão sendo estudadas "diferentes opções" para evitar o derramamento de sangue na Líbia. "Sobretudo a de uma zona de exclusão aérea, mas digo muito claramente: nenhuma intervenção será feita sem um mandato claro do Conselho de Segurança da ONU", disse.

Dando um tom de cautela ao pensamento militar ocidental, a França disse que a ajuda humanitária deve ser prioridade na Líbia, em vez da ação militar para depor Kadafi.

O governo francês enviou dois aviões com suprimentos e profissionais médicos a Benghazi, segunda maior cidade líbia e epicentro da mobilização, agora controlada pelos rebeldes. Mais voos desse tipo devem se seguir, segundo o porta-voz governamental francês, François Baroin.

Movimentação na fronteira

O líder líbio mobilizou forças de segurança para a fronteira oeste nesta terça-feira, contrapondo-se à pressão econômica e militar do Ocidente e elevando o temor de que uma das revoltas mais sangrentas no mundo árabe possa se tornar ainda mais violenta.

A medida foi tomada pouco menos de 12 horas depois de os EUA anunciarem o envio de navios de guerra e forças aéreas para perto da fronteira da Líbia, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse que seu governo deseja impor uma zona de exclusão aérea a fim de proteger o povo líbio.

Citado pela rede árabe Al-Jazeera, um coronel líbio que se uniu às forças rebeldes disse nesta terça-feira que diversos navios americanos foram avistados em frente ao litoral da cidade de Al-Baida, no nordeste da Líbia.

Segundo o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, os navios estão se movimentando para perto da Líbia para se preparar para contingências de natureza humanitária. Ele, porém, fez a ressalva de que "não estamos tirando quaisquer opções da mesa". De acordo com Hillary Clinton, os navios poderão ser usados para missões humanitárias e de resgate.

As forças de Kadafi reforçaram sua presença na remota localidade de Dehiba, na fronteira com a Tunísia, e decoraram o posto de passagem com as bandeiras verdes do país. Repórteres que estão no lado tunisiano viram veículos do Exército da Líbia e soldados armados com fuzis Kalashnikov. No dia anterior, não havia presença militar líbia nesse posto fronteiriço.

Além disso, segundo testemunhas, forças leais ao governo retornaram nesta terça-feira ao posto de fronteira de Wazin, entre a Líbia e o sul da Tunísia, depois de terem deixado a área no domingo. "Vi uns 20 militares em Wazin, onde não havia nenhuma. Eram soldados do Exército regular, alguns usavam um lenço verde em torno do pescoço. Estavam armados com fuzis Kalashnikov. Não havia blindados", contou uma das testemunhas.

A fonte também comentou que outras testemunhas viram dois veículos 4x4 avançando pelo deserto com direção a Wazin, com 40 soldados a bordo. As movimentações aumentam a suspeita de que Kadafi, que está no poder há quatro décadas, não cederá ao grande número de forças atualmente unidas contra ele.

Confrontos na Líbia

Nesta terça-feira, as forças de Kadafi parecem ter conseguido poucos avanços em uma ação coordenada contra os rebeldes em várias cidades em todo o país e em um ataque lançado no início da manhã na cidade de Zawiyah , a 50 quilômetros a oeste da capital do país, Trípoli.

Também no oeste líbio, moradores disseram que forças pró-Kadafi se mobilizaram para reafirmar o controle de Nalut, a cerca de 60 quilômetros da fronteira com a Tunísia, e impedir que caia em poder dos rebeldes.

Após duas semanas de rebelião, Trípoli, com 1,5 milhão de habitantes, é o último bastião do poder de Kadafi. Vários líderes tribais, autoridades do regime e chefes militares já passaram para o lado dos rebeldes, levando consigo enormes extensões do país, que tem 6 milhões de habitantes. A maior parte dos recursos petrolíferos líbios está nas mãos da oposição.

Em outra má notícia para Kadafi, a estatal petrolífera NOC disse que a produção de petróleo da Líbia caiu pela metade por causa da fuga de trabalhadores do setor, embora as instalações não tenham sido danificadas.

Observadores regionais preveem que os rebeldes acabarão por conquistar Trípoli e irão matar ou prender Kadafi.

*Com Reuters, EFE e AFP

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