Membros do parlamento escolhidos por meio de eleições estabelecidas após revoltas no país terão um ano para escrever Constituição

A Assembleia Constituinte da Tunísia, eleita no dia 23 de outubro depois de uma revolta que preparou o terreno para a Primavera Árabe , realizou sua sessão de abertura nesta terça-feira, descrita pelas autoridades como um passo histórico rumo à democracia.

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Presidente interino da Tunísia Fouad Mbazaa, de saída do poder, abriu os trabalhos da Assembleia Constituinte
AFP
Presidente interino da Tunísia Fouad Mbazaa, de saída do poder, abriu os trabalhos da Assembleia Constituinte

"Declaro aberta a primeira sessão da Assembleia Constituinte", disse o vereador decano Tahar Hamila, que presidiu a sessão, diante da Assembleia reunida no palácio do Bardo, sede do antigo Parlamento tunisiano, em Túnis.

A assembleia, que vai se reunir durante um ano para redigir uma nova constituição, é dominada por um partido islâmico moderado, o Ennahda, cuja vitória eleitoral no mês passado repercutiu em outros países da região onde os islamistas estão ganhando terreno após os protestos populares que derrubaram três chefes de Estado árabes - Zine El Abidine Ben Ali na Tunísia, Hosni Mubarak no Egito e Muamar Kadafi na Líbia.

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Os membros da assembleia, autoridades sêniores do novo governo de coalizão, e ministros do gabinete que está deixando o poder ficaram de pé para ouvir o hino nacional da Tunísia na cerimônia que abriu a assembleia de 217 assentos. Logo depois, recitaram a Fatiha, a primeira surat do Alcorão, em homenagem aos "mártires" da revolução tunisiana.

"Nesse momento histórico, colocamos a primeira pedra da segunda república para um Estado de liberdade, de justiça e dignidade, que será convocado a realizar os objetivos da revolução", afirmou Hamila. "Esse é um momento histórico para a transição para a democracia", disse Fouad Mebazza, o presidente interino que está de saída, durante a cerimônia, no mesmo prédio onde o Parlamento anterior governava antes da revolução.

Durante sua primeira sessão, a assembleia confirmou um acordo no qual o partido islâmico Ennahda e outros dois partidos dividiram entre si os três principais cargos do país.

Mustapha Ben Jaafar, do Ettakatol, ficará na presidência da Constituinte; Moncef Marzouki, líder do Congresso para a República, deve chegar à presidência da República, cargo em grande parte cerimonial, e Hamadi Jebali, número dois do Ennahda, foi convocado ao mais importante posto, o de primeiro-ministro.

Antes da votação, Ben Jaafar fez um curto discurso. "Serei fiel à grande revolução tunisiana, fiel aos seus objetivos, custe o que custar. Para mim, os objetivos da revolução se resumem na ruptura com o sistema totalitário que ainda não desapareceu", disse.

"Essa revolução nasceu do desemprego, das disparidades regionais, da pobreza e da necessidade de reformas políticas. A Tunísia está em um momento crucial de sua história", acrescentou.

Já a adversária derrotada por Jaafar, Maya Jribi, considerou que a primeira reunião da Assembleia Constituinte representa um "dia histórico" para a Tunísia. "Minha candidatura é uma mensagem para vocês, eleitos do povo, e ao povo tunisiano para dizer que o tempo da candidatura única acabou definitivamente", declarou ela antes da votação.

"Eu dou graças a Deus por todos os mártires, aqueles que se feriram e que lutaram para que pudéssemos testemunhar este dia histórico", afirmou o líder do Ennahda, Rached Ghannouchi, depois da sessão de abertura.

A eleição na Tunísia, que apontou o Ennahda como partido com mais cadeiras, aconteceu no final de outubro, dez meses depois de uma revolução que derrubou o presidente Ben Ali e preparou terreno para os protestos da Primavera Árabe que têm reconstruído o cenário político do Oriente Médio.

O partido Ennahda foi o vencedor da votação, obtendo 89 cadeiras na assembleia composta por 217 membros, enquanto o Congresso para a República conquistou 29 assentos, e o Ettakatol, 21.

Manifestação

A presença de cerca de mil manifestantes em frente ao prédio serviu de lembrete dos desafios que o novo governo da Tunísia enfrentará. Entre eles estavam os parentes de pessoas mortas na revolta que derrubou o presidente Ben Ali , que agora exigem uma indenização do Estado.

Manifestantes protestam do lado de fora do prédio da Assembleia Constituinte em Túnis
AFP
Manifestantes protestam do lado de fora do prédio da Assembleia Constituinte em Túnis

Os manifestantes também incluem a mãe de Mohamed Bouazizi, o jovem vendedor de legumes que ateou fogo em si mesmo em dezembro passado em um ato de protesto que desencadeou a revolução. Eles levantavam cartazes dizendo "Queremos justiça!" e "O povo quer uma nova revolução".

Com AFP e Reuters

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