Convite ao Irã é retirado após ameaça de boicote às negociações de paz da Síria

Por Reuters |

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Sob pressão dos rebeldes sírios e EUA, ONU toma decisão após Irã dizer que participaria sem aceitar acordo de 2012

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O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, retirou na segunda-feira um convite de última hora para o Irã participar das conversações sobre a paz na Síria, depois que a oposição síria ameaçou boicotar a conferência desta semana se o principal aliado do presidente Bashar al-Assad participasse.

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Encerrando quase 24 horas de confusão que consternou diplomatas que passaram meses convencendo os opositores de Assad a negociar, o porta-voz de Ban disse que o Irã não era mais bem-vindo no primeiro dia diálogo em Montreux, na Suíça, na quarta-feira.

A oposição retirou imediatamente a sua ameaça de ficar de fora da conferência, conhecida como "Genebra 2". Mas o alvoroço sobre o Irã, que tem ajudado Assad com dinheiro, armas e homens, destacou as dificuldades de negociar um fim a uma guerra civil sangrenta de quase três anos que dividiu o Oriente Médio e as potências mundiais.

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Ban, segundo seu porta-voz, fez o convite ao Irã depois que autoridades iranianas lhe garantiram que apoiariam o documento final de uma conferência da ONU realizada em 2012, conhecida como "Genebra 1", que previa um governo de transição para a Síria, algo que nem Assad nem Teerã estão dispostos a acatar.

Durante esta segunda-feira, autoridades iranianas deixaram claro que não apoiavam a conclusão daquela conferência como base para as negociações desta semana.

"O secretário-geral ficou profundamente decepcionado com as declarações iranianas hoje (segunda-feira), que não estão consistentes com as garantias que ele recebeu em relação ao apoio iraniano para o comunicado de Genebra", disse o porta-voz de Ban, Martin Nesirky.

"Ele (Ban) continua a exortar o Irã a se juntar ao consenso global por trás do comunicado de Genebra", disse Nesirky. "Dado que ele (Irã) escolheu permanecer fora dessa compreensão básica, (Ban) decidiu que a reunião de um dia em Montreux prosseguirá sem a participação do Irã."

Enquanto os rebeldes e seus aliados ocidentais e árabes consideram que o acordo de 2012 impõe a renúncia de Assad, o líder sírio tem apoio do Irã para rejeitar essa visão. A Rússia, embora tenha participado do acordo de 2012 e seja copatrocinadora das primeiras negociações de paz diretas desta semana, diz que pessoas de fora não devem forçar a saída de Assad. Moscou afirmou que o Irã deve participar das conversas.

O principal grupo de oposição política síria no exílio, a Coalizão Nacional, disse que não participaria se o Irã estivesse presente, ameaçando destruir meses de meticulosos esforços diplomáticos para levar representantes dos dois lados à mesa. O grupo comemorou a mudança de atitude de Ban.

"Apreciamos a compreensão da Organização das Nações Unidas e de Ban Ki-moon da nossa posição. Achamos que eles tomaram a decisão certa", disse o chefe de gabinete do presidente da coalizão, Monzer Akbik, à Reuters. "Nossa participação está confirmada para 22 de janeiro."

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As expectativas são baixas, mas diplomatas ocidentais, que classificaram o convite de Ban ao Irã de uma "confusão" e um "desastre", disseram que as negociações poderão dar o pontapé inicial para diminuir o conflito que já deixou mais de 100 mil mortos e levou um quarto dos sírios a abandonar suas casas.

"Estamos esperançosos de que, na esteira do anúncio de hoje, todas as partes possam agora voltar a se concentrar na tarefa que têm nas mãos, que poderá trazer um fim para o sofrimento do povo sírio e iniciar um processo rumo a uma transição política longamente atrasada", disse a porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Jen Psaki, em comunicado. Os EUA haviam pedido que a ONU retirasse o convite.

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Para aumentar o clima sombrio sobre as perspectivas para um acordo, Assad disse que tentará a reeleição neste ano, rejeitando, na prática, qualquer diálogo para negociar sua saída do poder.

"Não vejo nenhum motivo para que eu não possa disputar", disse Assad em entrevista nesta segunda-feira à agência AFP. "Se há um desejo do público e da opinião pública em favor de minha candidatura, não vou hesitar nenhum segundo a disputar a eleição."

Acordo de 2012 sob questão

Ban afirmou que o convite foi feito com base numa garantia do ministro de Relações Exteriores iraniano, Javad Zarif, de que o "Irã compreende que a base para as conversações é a plena implementação do comunicado de Genebra, de junho de 2012".

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Mas o vice-chanceler do Irã, Hosein Amirabdollahian, e o principal consultor do líder supremo, Ali Khamenei, pareceram contradizê-lo.

"Se o convite de Ban Ki-moon se baseia na aceitação do acordo de Genebra 1 pelo Irã, então isso significa estabelecer precondições, e o Irã não vai aceitar quaisquer precondições", afirmou o consultor Ali Akbar Velayati, segundo a agência oficial de notícias Irna.

A Rússia, que há tempos defende a participação do Irã e critica a oposição síria e o Ocidente por serem contra a presença iraniana, disse não haver sentido uma conferência sem o país.

"Não garantir que todos que possam diretamente influenciar na situação estejam presentes seria, penso, um erro imperdoável", disse o ministro russo de Relações Exteriores, Serguei Lavrov.

A Arábia Saudita, inimigo regional do Irã e principal país financiador dos rebeldes, afirmou que não deveria ser permitido o comparecimento do Irã porque o país possui soldados na Síria ajudando Assad.

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