Pão encarece 500% e vira símbolo da crise humanitária na Síria

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Segundo pesquisa, quatro em cada cinco sírios dizem que maior preocupação no conflito é que alimentos acabem

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AP
Sírio chora enquanto carrega corpo de criança morta após ataque aéreo de governo contra Aleppo (15/12)

O pão se tornou o barômetro do sofrimento do sírios, mergulhados em uma guerra civil desde 2011. A comida mais básica da população está difícil de encontrar e também está cada vez mais cara.

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Nos últimos dois anos, o preço do pão aumentou 500% em algumas áreas da Síria, segundo uma nova pesquisa da ONG Comitê de Resgate Internacional (IRC, na sigla em inglês) obtida pela BBC.

Quatro em cada cinco sírios dizem que sua maior preocupação é que a comida acabe. "Os resultados do levantamento mostram que a fome ameaça várias partes da população síria", diz o presidente da IRC, David Miliband.

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A pesquisa coincide com o lançamento pelas Nações Unidas, nesta segunda-feira, do maior apelo por ajuda humanitária já feito pela organização. A ONU espera arrecadar US$ 6,5 bilhões em auxílio para a Síria.

Escassez

Em muitas cidades, a escassez de combustível, farinha e eletricidade faz com que padarias e pães sejam artigos de luxo. "Nós não comemos pão há nove meses", foi a frase que a BBC escutou de muitos sírios que abandonaram o subúrbio de Moadamiya, em Damasco, em outubro.

Nas padarias administradas e financiadas pelo governo, o preço do pão não sofreu alterações nos últimos 20 anos. O tradicional pão árabe (chato e arredondado) ainda custa duas libras sírias (US$ 0,02).

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Em um dia de frio congelante, sírios socam as portas de metal de uma grande padaria estatal no centro da capital, gritando por mais pão.

AP
Sírios caminham do lado de fora de tendas em campo de refugiados em Arsal, cidade na fronteira do Líbano (15/12)

"Precisamos desse pão para as refeições", diz um homem que sai do local com um saco de três quilos, com os quais espera alimentar a família e alguns amigos. "Nas padarias particulares pagaríamos dez vezes mais", acrescenta outro homem.

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A poucas ruas dali, um centro de distribuição do Programa Mundial de Alimentos da ONU está lotado. O diretor Matthew Hollingworth observa que as pessoas estão "comendo menos, com menos frequência, e que a qualidade da comida piorou". "A produção de cereal caiu 40%" , diz ele. "E as importações não compensam essa queda."

Além da comida

Pessoas que enfrentam filas por uma caixa de mantimentos, distribuída mensalmente, também pedem cobertores e roupas de inverno para as crianças. Esses itens continuam à venda, mas muitos sírios, obrigados a deixar suas cidades por causa da guerra, não têm dinheiro para comprá-los.

Alguns mudaram de cidade três vezes para escapar dos combates. Eles perderam seus empregos e casas, entre outros bens.

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"Eu preferiria morar em uma barraca onde ficava a minha casa do que viver assim, sem dignidade", lamenta Um Aymad, que buscava mantimentos para alimentar seus 16 filhos e netos. Eles fugiram de Moadamiya há um ano.

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Esse é um pequeno retrato de uma nação onde, segundo a ONU, 6,3 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas e onde, também de acordo com a ONU, 75% da população dependerá de ajuda humanitária em 2014. Sem falar dos mais de 2 milhões de sírios que buscaram refúgio nos países vizinhos.

"Trata-se uma das maiores crises humanitárias dos tempos modernos", diz a subsecretária-geral da ONU para assuntos humanitários, Valérie Amos, durante uma breve visita a Damasco pouco antes do lançamento do apelo global da organização.

O último pedido por fundos, feito alguns meses atrás, foi de US$ 4,4 bilhões e era considerado o maior apelo humanitário já feito até então. "Refugiados me disseram: 'Por que o mundo nos abandonou'?", relembra Amos. "O mundo deveria realmente se unir para entender o que os sírios estão enfrentando."

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