Líbano e Jordânia enfrentam desafios de longo prazo ao abrigar maioria dos 2,1 milhões que fugiram da guerra síria

O drama de refugiados sírios expulsos de seus lares e da vida que conheciam por um conflito sangrento de mais de dois anos e meio é apenas uma das faces da pior crise humanitária do mundo em duas décadas. A onda humana que varre diariamente as fronteiras, chegando ao total subestimado de 2,1 milhões de pessoas em setembro, representa também um fardo social e econômico de efeitos imediatos e de longo prazo para os países vizinhos da Síria.

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Menino refugiado sírio senta no chão de um acampamento temporário de refugiados na cidade libanesa de Al-Faor, próxima a fronteira com a Síria, no Líbano (11/9)
AP
Menino refugiado sírio senta no chão de um acampamento temporário de refugiados na cidade libanesa de Al-Faor, próxima a fronteira com a Síria, no Líbano (11/9)

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Com pressões em setores como educação e saúde e em serviços básicos como água, luz e saneamento, Líbano, Jordânia, Turquia, Iraque e Egito também sentem os efeitos no mercado de trabalho, nos salários, nos preços das mercadorias e moradias, entre outras áreas.

"Quatro desses países abrigaram os refugiados iraquianos após a invasão dos EUA, em 2003", disse Donald M. Kervin, diretor-executivo do Centro de Estudos de Migração, durante um seminário na ONU sobre a crise no Oriente Médio. "Sua capacidade de absorver novos fluxos, sem uma assistência adequada, é limitada."

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O problema é ainda maior quando se sabe que o número oficial de desalojados que cruzaram as fronteiras não inclui os que não se registraram na Agência de Refugiados da ONU (Acnur).

Um caso emblemático é o Líbano, cujos laços históricos, sociais e econômicos com a Síria tornam sua política e seu equilíbrio sectário particularmente susceptíveis à violência da nação vizinha. A Acnur conta como registrados ou em processo de registro quase 760 mil refugiados, mas tem conhecimento de que, até setembro, chegaram ao país mais de 914 mil (incluindo aproximadamente 90 mil palestinos e libaneses antes residentes na Síria).

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Segundo relatório da agência publicado no final do mês passado, estima-se que o total ultrapasse 1,2 milhão até o final do ano – número que representa mais de 60% dos oficiais 2,1 milhões e equivale a 27,5% da população libanesa. Somados aos trabalhadores migrantes e aos refugiados palestinos e iraquianos, os sírios fazem com que o número de estrangeiros presentes no Líbano corresponda à metade da população de 4,5 milhões.

“Somos o menor país do Oriente Médio, com o maior número de refugiados”, disse ao iG Najla Tabet Chahda, diretora da Cáritas Libanesa, que presta auxílio aos refugiados no país. “Não temos os meios nem os recursos para lidar com isso”, afirmou após o seminário na ONU.

Sem incluir o impacto no mercado de trabalho ou as pressões demográficas e políticas exercidas sobre a estabilidade do país, o custo total da crise síria para o Líbano deve alcançar US$ 7,5 bilhões até o fim de 2014, segundo avaliação recente feita pelo Banco Mundial e pela ONU sob encomenda do governo libanês.

De acordo com o estudo Esia (sigla em inglês para Análise do Impacto Econômico e Social), o conflito deve acrescentar 170 mil aos 1 milhão de libaneses que estavam na linha de pobreza (menos de US$ 4 por dia) antes do início do conflito, em 2011. O estudo do Banco Mundial e da ONU também estima que entre 230 mil e 320 mil, especialmente jovens sem capacitação, fiquem desempregados até 2014.

Como são uma mão de obra mais barata, relatou Chahda, redes de fast food e outros comércios vêm privilegiando contratar sírios em detrimento dos libaneses. “Antes redes como McDonald’s ou Burguer King pagavam salários de US$ 500, mas agora os reduziram para US$ 200”, afirmou.

Najla Tabet Chahda, diretora da Cáritas Libanesa, no Rose Garden da ONU, perto do East River, em Nova York
Leda Balbino
Najla Tabet Chahda, diretora da Cáritas Libanesa, no Rose Garden da ONU, perto do East River, em Nova York

Serviços básicos

De acordo com o relatório da Acnur, os refugiados sírios aumentaram em 40% a demanda por serviços básicos e de saúde no Líbano, causando falhas de energia, escassez de água e superlotação de hospitais.

Entre os refugiados registrados, há 210 mil crianças em idade escolar. Até o fim deste ano, a expectativa é de que esse número chegue a 300 mil - ou a mesma quantidade de menores libaneses em escolas públicas. Segundo a Unicef, porém, só 40 mil crianças sírias se matricularam no Líbano desde o início do conflito.

Os motivos vão desde a falta de espaço nas instituições às diferenças linguísticas e culturais e à dificuldade de acesso por causa do transporte. Além disso, muitos meninos trabalham para ajudar seus pais a sobreviver, relatou a diretora da Cáritas, enquanto muitas garotas não são matriculadas porque seus parentes não aceitam a política libanesa de escolas mistas.

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Para não dar um caráter definitivo a uma crise que espera ver acabada com o eventual fim do conflito, o governo libanês não montou acampamentos oficiais para abrigar os refugiados, deixando-os à mercê de aluguéis em acampamentos de proprietários privados e à especulação imobiliária do mercado – algo que também prejudica os próprios libaneses.

“O Líbano já tem um problema com os acampamentos palestinos”, explicou a diretora da Cáritas. “O governo teme que, como 80% dos refugiados sírios são sunitas, ocorra um desequilíbrio na divisão religiosa do Líbano se eles ficarem permanentemente.”

Jordânia

Com quase 523 mil refugiados sírios registrados ou em processo de registro - ou mais de 8% da população de quase 6,5 milhões -, a Jordânia ocupa a segunda posição entre os países que mais atraem os desalojados pela guerra civil. Com mais de 120 mil abrigados em suas tendas, o campo de refugiados de Za'atari é atualmente a quinta maior cidade da Jordânia, segundo o estudo "Refugiados sírios na Jordânia e no Líbano", da Universidade Georgetown (Washington).

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A nova leva de refugiados, em um país que já abriga quase 2 milhões vindos dos territórios palestinos e mais de 450 mil do Iraque, representa uma pressão adicional à frágil economia local. Com limitados recursos naturais, a Jordânia importa 96% de sua energia, o equivalente a cerca de 20% de seu PIB, além de grandes quantidade de água e grãos. A economia depende pesadamente das remessas enviadas por expatriados, do turismo e de investimentos e subsídios diretos do exterior.

Por causa da pressão no mercado trabalhista, indica o estudo de Georgetown, a Jordânia não vem emitindo mais permissões de trabalho aos sírios e tem adotado penas como fechamento de negócios e deportações ao acampamento de Za'atari para evitar a competição entre refugiados e jordanianos pelas limitadas vagas de emprego.

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Segundo um artigo publicado em julho na revista científica Lancet, o governo jordaniano gastou estimados US$ 53 milhões em assistência médica aos refugiados sírios entre janeiro e abril, com apenas US$ 5 milhões desse total vindo do apoio direto das agências da ONU. Para oferecer o mesmo nível de assistência aos novos refugiados que devem chegar até o fim do ano, a Jordânia terá de aumentar seu gasto total anual em saúde para US$ 135 milhões.

Até setembro, a assistência humanitária à Jordânia e ao Líbano alcançou menos de 50% do total de doações pedidas. Perante esse cenário, Kervin, do Centro de Estudos de Migração, teme um desastre humanitário em escala ainda maior se os países vizinhos da Síria sucumbirem à pressão. “Sem auxílio da comunidade internacional, essas nações podem acabar se vendo obrigadas a não receber mais os refugiados”, disse. “Se as fronteiras forem fechados, uma situação que já está ruim ficará ainda pior”, concluiu.

*Repórter viaja como bolsista da Dag Hammarskjöld Fellowship, da ONU

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