Debate sobre armas químicas deixa crise humanitária na Síria fora dos holofotes

Por Luciana Alvarez - especial para o iG |

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Refugiados podem chegar a 3 milhões; falta de higiene, de alimentos e chegada do inverno podem agravar crise

Enquanto o mundo volta suas atenções à questão das armas químicas, o desastre humanitário está se ampliando na Síria. A guerra civil no país, que dura dois anos e meio, deixou 100 mil mortos e obrigou 6,5 milhões a deixar suas casas – desses, 2 milhões se refugiaram em países vizinhos, segundo as mais recentes estimativas da ONU. Cerca de metade dos desalojados e refugiados são crianças.

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AP
Combatente do Exército Livre Sírio segura seu filho no colo do lado de fora da sua casa no vilarejo Habit, em Hama (25/9)

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O recente imbróglio internacional sobre o arsenal de armas químicas da Síria, que culminou recentemente em um acordo no Conselho de Segurança da ONU para um projeto de resolução, tem ofuscado a tragédia diária da população, que continua a se ampliar a despeito das negociações diplomáticas entre os governos.

Há um ano, o número total de refugiados não chegava a 250 mil. Mas nos primeiros oito meses de 2013, em média 200 mil sírios procuraram abrigo em países vizinhos a cada mês. Se o ritmo continuar se acelerando na mesma proporção, até o fim do ano serão mais de 3 milhões de refugiados.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o deslocamento em massa deteriora as condições de higiene, o que aumenta riscos de epidemias de piolhos, sarna, leishmaniose, hepatite A, entre outras doenças infecciosas. Dentro da Síria, a OMS estima que 60% dos hospitais públicos e 92% das ambulâncias foram danificadas ou destruídas durante o conflito.

A violência, que não tem poupado nem as organizações humanitárias, fez com que metade dos médicos sírios deixasse certas regiões do país. Há locais em que os números são ainda piores: em Aleppo, dos 5 mil médicos locais que havia antes do início da guerra, apenas 36 continuam atuando, segundo o Crescente Vermelho. Em dois anos e meio, informa a organização humanitária, 212 trabalhadores da saúde foram mortos, feridos ou sequestrados.

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A organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) diz que o regime de Bashar al-Assad nunca deu autorização para que eles atuassem dentro da Síria, mesmo após inúmeros pedidos. Dessa forma, tudo que eles conseguem fazer é dar suporte, fornecendo medicamentos e itens básicos como água e alimentos, a hospitais nas regiões dominadas pelos rebeldes. Eles também operam hospitais em campos de refugiados nos países vizinhos.

Com a aproximação do inverno, a falta de combustível e de energia elétrica – há cortes prolongados de luz em diversas áreas – também preocupa. No interior da Síria, a temperatura média durante a madrugada é de 0ºC no inverno. “Dá para imaginar um inverno com milhões de pessoas que tiveram suas casas destruídas tendo de morar em tendas?”, questiona Abdul Rahman Attar, presidente do Crescente Vermelho na Síria.

Veja imagens do conflito sírio desde o início do ano:

Família síria acena a parentes após entrar em ônibus em direção a aeroporto para ir à Alemanha, onde foram aceitos como asilados temporários, em Beirute, Líbano (10/10). Foto: APTanque velho sírio é cercado por fogo após explosão de morteiros nas Colinas do Golan, território controlado por Israel (16/07). Foto: APCombatentes do Exército Sírio Livre carregam suas armas e se preparam para ofensiva contra forças leais a Assad em Deir al-Zor (12/07). Foto: ReutersCombatente do Exército Livre da Síria corre para buscar proteção perto de aeroporto militar de Nairab, em Aleppo (12/06). Foto: ReutersProtesto em Beirute contra a participação do Hezbollah na guerra síria (09/06). Foto: APFumaça é vista no vilarejo sírio de Quneitra perto da fronteira de Israel´(06/06). Foto: APLibanês foi ferido após segundo foguete de rebeldes sírios atingir sua casa em Hermel (29/05). Foto: APRefugiados sírios são abrigados em prédio da cidade turca de Reyhanli, perto da fronteira com a Síria (12/05). Foto: APHomens carregam ferido após explosão em cidade turca perto da fronteira síria (11/05). Foto: ReutersExplosão em cidade turca perto da fronteira com a Síria deixa dezenas de mortos (11/05). Foto: ReutersResidente caminha sobre destroços de prédios em rua de Deir al-Zor, Síria (09/05). Foto: ReutersCombatente do Exército Livre da Síria descansa em pilha de sacos de areia em campo de refugiados (06/05). Foto: APIsrael atacou instalações militares na área de Damasco, acusa Síria (05/05). Foto: BBCReprodução de vídeo mostra fumaça e fogo no céu sobre Damasco na madrugada deste domingo (05/05). Foto: APPresidente da Síria, Bashar al-Assad (D), visita universidade em Damasco (04/05). Foto: APReprodução de vídeo mostra corpos em Bayda, Síria (03/05). Foto: APBombeiros apagam fogo de carro em chamas em cena de explosão no distrito central de Marjeh, Damasco, Síria (30/04). Foto: APReprodução de vídeo mostra bombardeio em Daraya, Síria (25/04). Foto: APDruso carrega retrato do presidente sírio em que se lê 'Síria, Deus protege você', nas, Colinas do Golan (17/04). Foto: APFumaça e carros destruídos na praça Sabaa Bahrat, em Damasco, após explosão de carro-bomba (08/04). Foto: APMembro de Exército da Libertação da Síria segura arma em rua de Deir al-Zor (02/04). Foto: ReutersReprodução de vídeo mostra militantes do Exército Livre da Síria durante combates em Damasco (25/03). Foto: APManifestantes protestam contra Bashar al-Assad em Aleppo, na Síria (23/03). Foto: ReutersMesa de xeque Mohammad Said Ramadan al-Buti, aliado de Assad, é vista após ataque em Damasco (21/03). Foto: APSírio vítima de suposto ataque químico recebe tratamento em Khan al-Assal, de acordo com agência estatal (19/03). Foto: APSírias são vistos perto de corpos retirados de rio perto de bairro de Aleppo (10/03). Foto: APReprodução de vídeo mostra soldado do governo sírio morto em academia de polícia em Khan al-Asal, Aleppo (03/03). Foto: APHomem chora em local atingido por míssil no bairro de Ard al-Hamra, em Aleppo, Síria (fevereiro). Foto: ReutersMembro do Exército Livre da Síria aponta arma durante supostos confrontos contra forças de Assad em Aleppo (26/02). Foto: ReutersMembros de grupo islâmico seguram armas durante protesto contra regime em Deir el-Zor (25/02). Foto: ReutersMorador escreve em lápide nome de neta morta em ataque contra vila em Idlib, Síria (24/02). Foto: APChamas e fumaça são vistas em local de ataque no centro de Damasco, Síria (21/02). Foto: APRebeldes do Exército Livre da Síria preparam munições perto do aeroporto militar de Menagh, no interior de Aleppo (25/01). Foto: ReutersRebeldes da Frente al-Nusra, afiliada à Al-Qaeda, seguram sua bandeira no topo de helicóptero da Força Aérea da Síria na base de Taftanaz (11/01). Foto: APCrianças sírias viajam em caminhonete em Aleppo (02/01). Foto: Reuters

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O conflito atual afeta também a capacidade do país de produzir alimentos, condição que deixa a população vulnerável e dependente de ajuda externa. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 20% dos produtores perderam inteiramente suas plantações e 55% dos pecuaristas registraram queda substancial nos rebanhos. Apenas 5% dos agricultores conseguiram colher toda sua produção de trigo e cevada.

Divisão americana e internacional

O debate centrado apenas na questão das armas químicas traz poucas perspectivas de mudança para o cenário da crise atual. “A maioria das mortes tem sido causada pelo uso de armas convencionais. A preocupação com as armas químicas é resultado de um tabu existente na ordem internacional quanto ao enorme impacto destrutivo de civis resultante da utilização de armas químicas”, explicou ao iG Marcus Vinícius de Freitas, coordenador do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

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E mesmo a existência e o uso confirmados desse tipo de armas não fizeram com que a comunidade internacional, nem a opinião pública dos EUA, que patrocinariam o ataque, achasse que uma intervenção militar seria a melhor saída.

“Não ficou claro que o regime de Assad represente uma ameaça imediata à comunidade internacional, nem se algum tipo de intervenção militar iria melhorar as condições dos direitos humanos na Síria”, disse ao iG Kirk Buckman, professor do departamento de Ciências Políticas e Estudos Internacionais do Stonehill College.

“O presidente Obama defendeu que o uso de armas químicas por Assad ameaça os interesses americanos, mas a alegação encontra mais ceticismo do que apoio dentro dos EUA.”

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As dificuldades vividas após as intervenções no Afeganistão e no Iraque, países que como a Síria tem sociedades multiétnicas e profundamente divididas, são frequentemente lembradas pelos americanos. “A experiência americana no Iraque provocou mudanças internas e na comunidade internacional. Ela criou grande relutância entre os eleitores e líderes políticos de se envolver em outra guerra dispendiosa, especialmente em um país muçulmano. A guerra do Iraque custou caro em termos de vidas humanas, pressão sobre o orçamento e pessoal militar e prestígio internacional”, ponderou Buckman.

Frente à relutância internacional por uma intervenção, as perspectivas de uma melhora na crise humanitária em curto prazo parecem distantes. “Em razão da inação internacional, a resistência pode apoiar-se cada vez mais em grupos radicais como a Al-Qaeda, o que levaria ao extermínio de mais vidas inocentes. Outro cenário possível é a diplomacia exercer um papel importante, porém não se pode esperar uma resolução negociada quando se negocia com determinados tipos de lideranças, como Assad”, acredita Freitas, o coordenador da Faap.

AP
Combatentes do Exército Livre Sírio descansam na província de Idlib, Síria

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Outra preocupação é o aumento de tensões sectárias nos países que estão recebendo os refugiados sírios. “Os refugiados se revoltam com as condições deixadas e as atuais, e a população local se ressente pelo custo da presença dessa população em seu território, com um aumento na xenofobia”, explicou Freitas.

Portanto, para evitar que o conflito se alastre, a comunidade internacional deve ajudar o máximo possível os refugiados, por meio de ajuda humanitária, abertura de processos de imigração acelerada e contribuição financeira efetiva aos países envolvidos na questão, defende o coordenador da Faap.

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