Acordo de armas sírias enfraquece EUA ao legitimar Assad e dar vitória à Rússia

Por Leda Balbino - de Nova York* |

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Ao iG, especialistas afirmam que resolução que porá plano em vigor será mais fraca do que previamente esperado

Para quem pedia a renúncia de Bashar al-Assad no início do levante sírio, o governo do presidente dos EUA, Barack Obama, adotou a posição inversa ao alcançar com a Rússia, no sábado (14), um plano de acordo que prevê a destruição do arsenal químico da Síria. Ao reconhecer o regime de Assad como ator na implementação do plano de acordo, os EUA legitimaram um governo antes marginalizado por boa parte da comunidade internacional e fortaleceram a Rússia, que até então se via sob risco de perder seu único aliado no Oriente Médio.

Sábado: Acordo entre EUA e Rússia prevê destruir arsenal químico sírio em 2014

AP
Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, cumprimenta o chanceler russo, Sergei Lavrov, após fazer comunicados em coletiva de imprensa em Genebra, Suíça (14/9)

Autoridade da Síria: Acordo entre EUA e Rússia é 'vitória' para Damasco

“O acordo fortalece Assad. Ou, antes de tudo, o legitima ao livrá-lo da perspectiva de ser um fora da lei”, disse ao iG Jonathan Adelman, da Faculdade Korbel de Estudos Internacionais da Universidade de Denver. Para o professor, o acordo também é uma grande vitória para os russos, que previamente estavam sob risco de serem expulsos do Oriente Médio com uma eventual queda de Assad e agora estarão à frente das negociações para a implementação do pacto. “A Rússia nunca será tão forte quanto na Guerra Fria (1947-1991), mas agora ela tem a chance de não ter um papel inútil”, afirmou.

A opinião é compartilhada pelo especialista sírio Murhaf Jouejati, da Universidade de Defesa Nacional, em Washington. “O acordo fortalece Assad ao não estipular que ele deve deixar o poder e ao determinar que esteja presente para supervisionar o pontos do pacto”, disse. Segundo o professor, o acordo também “é uma vitória do presidente russo, Vladimir Putin, sobre Obama e da Rússia sobre os EUA”.

Alcançado no sábado após dias de negociações entre EUA e Rússia em Genebra, o plano de acordo determina que o governo de Assad forneça um inventário desse tipo de armamento até o fim desta semana e entregue todos os componentes de seu programa até meados do próximo ano. O objetivo final é destruir o arsenal químico da Síria, cuja guerra civil de dois anos e meio deixou mais de 100 mil mortos, incluindo em ataques com armas químicas.

Saiba mais sobre as áreas químicas da Síria: Irã ajudou a produzir arsenal 

Na segunda-feira, um relatório de inspetores da ONU confirmou o uso de gás sarin no mais recente deles, em 21 de agosto. Sob a ameaça de uma operação militar americana contra seu aliado sírio, a Rússia propôs que Damasco pusesse seu arsenal químico sob controle internacional, abrindo caminho para o plano de acordo anunciado no fim de semana.

AP
Presidentes dos EUA, Barack Obama, e da Rússia, Vladimir Putin, reúnem-se em Enniskillen, Irlanda do Norte, para discutir Síria paralelamente ao G8 (foto de arquivo)

ONU: Relatório confirma uso de gás sarin em ataque na Síria

Aliados: Por que a Rússia e a China apoiam a Síria?

O pacto, porém, só entrará em vigor após uma resolução do Conselho de Segurança torná-lo legalmente vinculante. Em uma mostra do quanto o debate sobre a medida será difícil, os membros do principal órgão da ONU mostraram, na segunda-feira, suas divergências sobre incluir no documento uma referência a uma possível ação militar no caso de a Síria não cumprir sua parte.

O motivo da divisão foi o relatório de inspetores da ONU sobre o ataque do dia 21. Para EUA, Reino Unido e França, aspectos técnicos do documento - tipo de foguetes usados no ataque, suas trajetórias e a qualidade do sarin empregado - provam que só o governo teria a capacidade de lançar esse tipo de ataque em larga escala. Mas os russos, que também têm poder de veto no Conselho de Segurança, afirmam que o relatório não aponta culpados pelo fato de a missão de inspetores da ONU ter sido encarregada de analisar se armas químicas foram usadas, e não quem seria o responsável.

Aspectos técnicos: Relatório da ONU 'mostra que Síria lançou ataque químico'

Por causa desse cenário, Adelman caracteriza o plano de acordo entre Rússia e EUA como bom no papel, mas impossível de ser aplicado como formulado. “EUA, Reino Unido e França não conseguirão um resolução na ONU sem fazer várias emendas e concessões ao que previamente queriam”, disse.

Outro aspecto que o especialista de Denver aponta como não factível é a previsão de que o arsenal seja eliminado até meados de 2014. Como são necessários anos para conseguir destruir armamento químico, Adelman aposta que a Rússia e a Síria arrastarão o processo o máximo que puderem.

Veja imagens do ataque químico de 21 de agosto:

Imagem fornecida pelo Gabinete de Mídia de Douma mostra sírio ao lado de corpos de vítimas mortas por suposto ataque químico. Foto: APCrianças afetadas por suposto ataque químico respiram com máscaras de oxigênio no subúrbio de Saqba, Damasco. Foto: ReutersSírios tentam identificar corpos depois de suposto ataque químico em Arbeen, subúrbio da Síria. Foto: APMenino que sobreviveu a suposto ataque químico chora em abrigo montado dentro de mesquita no bairro de Duma, Damasco. Foto: ReutersHomem e mulher velam corpos de sírios após suposto ataque com gás venenoso lançado pelas forças do regime de Assad. Foto: APJovem que sobreviveu a suposto ataque químico chora dentro de mesquita em bairro de Duma, Damasco. Foto: ReutersHomem, afetado pelo que ativistas dizem ser gás neurológico, respira com ajuda de máscara de oxigêneo em subúrbio de Damasco. Foto: ReutersImagem fornecida pelo Comitê Local de Arbeen mostra corpos de sírios enfileirados em Arbeen, Damasco. Foto: APSegundo ativistas da oposição, armas químicas teriam matado centenas. Foto: BBCSírios colocam corpos de vítimas de suposto ataque químico em vala comum em Hamoria, área nos subúrbios a leste de Damasco. Foto: Reuters

Dia 31: Obama buscará voto no Congresso para lançar ataque à Síria

“O tempo está do lado da Síria e da Rússia”, disse. “Obama claramente não quis lançar um ataque”, afirmou, referindo-se à decisão do presidente dos EUA de pedir autorização do Congresso para retaliar a Síria pelo ataque químico do dia 21. “De certa forma, Síria e Rússia são até aliados de Obama, porque o livraram de um voto no Congresso, que rejeitaria a ação militar e o teria humilhado.”

*Repórter viaja como bolsista da Dag Hammarskjöld Fellowship, da ONU

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