Conheça a trajetória do presidente da Síria, Bashar al-Assad

Por iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Líder da Síria desde 2000, alauíta recebeu o poder como herança de seu pai e está no centro de crise internacional

O presidente da Síria, Bashar al-Assad, está no centro de uma crise internacional desde 2011, quando manifestações duramente reprimidas por suas tropas evoluíram para uma guerra civil, que deixou mais de 100 mil mortos e obrigou 2 milhões de sírios a buscar refúgio em outros países, segundo estimativas da ONU. O conflito atingiu seu ponto mais crítico no final do mês de agosto, quando um suposto ataque químico contra redutos rebeldes nos arredores de Damasco provocou forte reação mundial, com os EUA sinalizando para um possível ataque militar contra o regime.

Infográfico 1: O que está em jogo para o Oriente Médio com a guerra síria

AP
Bashar al-Assad conversa com repórteres após viagem à França em 2010

Infográfico 2: Saiba como EUA planejam ataque militar contra a Síria

Apesar da pressão interna e externa por sua renúncia desde 2011, Assad vem se agarrando ao poder e culpa terroristas e uma conspiração estrangeira pela crise em seu país. Em entrevista concedida ao jornal argentino Clarín em maio, o líder se comparou ao capitão de um navio e comparou a Síria a águas turbulentas, dizendo: "O país está em uma crise e, quando o navio enfrenta uma tempestade, o capitão não foge. A primeira coisa que faz é enfrentar a tempestade e guiar o navio de volta à segurança. Não sou alguém que foge das minhas responsabilidades."

Entenda: Saiba o que é o sarin, arma química que teria sido usada na Síria

Bashar herdou a presidência de seu pai, Hafez Assad, que governou a Síria com mãos de ferro por 30 anos até sua morte. Ao chegar ao poder, dez anos antes da Primavera Árabe, o país passou por um momento conhecido como "Primavera de Damasco", quando a implementação de um conjunto de reformas prometia uma Síria mais democrática e aberta. Em seu discurso de posse, proferido em julho de 2000, Assad indicou que seria um tipo de líder diferente de seu pai. "Reformas e melhorias são certamente necessárias em nossas instituições educacionais, culturais e de informação de uma maneira que sirva aos nossos interesses nacionais", disse na ocasião.

Saiba mais sobre as armas químicas da Síria: Irã ajudou a produzir arsenal

Por um breve momento, a promessa de reformas e modernização foi mantida. Cerca de 700 prisioneiros políticos foram libertados e licenças de publicação para jornais independentes foram concedidas. Além disso, Assad estabeleceu zonas de livre comércio e lutou contra gastos e corrupção no governo. Até mesmo um grupo de intelectuais que pressionava por reformas democráticas obteve permissão para fazer reuniões em escolas e publicar comunicados.

Mas o ritmo de mudança logo foi desacelerado e, em vez de um governo mais democrático, a Síria viu no comando uma espécie de autoritarismo liberal. Já no início de 2001, vários dissidentes da oposição foram presos e os limites à liberdade de imprensa foram logo restabelecidos. Pelo resto da década, a Lei de Emergência de 1963 continuou em vigor, permitindo que agentes de segurança prendessem dissidentes sem mandados judiciais e os mantivessem sem contato externo por longos períodos.

Saiba mais: Pontos de relatório dos EUA que acusa Síria de ataque químico

Acredita-se que membros da "velha guarda" do regime, leais ao falecido pai de Assad, sufocaram sua iniciativa e conduziram o governo a um retorno autoritário. Com pouca margem de manobra, Assad passou a falar em "reforma econômica antes de reforma política". A Human Rights Watch classificou seus primeiros dez anos na presidência como "a década perdida", com a mídia sob controle do Estado, a intenet monitorada e censurada e os presídios lotados de dissidentes e opositores.

ONU: Número de crianças refugiadas da Síria atinge 1 milhão

AP
Imagem fornecida pelo Gabinete de Mídia da Douma mostra sírio ao lado de corpos de vítimas mortas por suposto ataque químico em Douma (21/8)

Jovem Assad

O ex-vice presidente da Síria Abdel Halim Khaddam, hoje um opositor a Assad, disse à rede americana CNN que, quando jovem, o líder sírio era ao mesmo tempo brutal e indeciso. "O problema de Bashar é que ele escuta tudo, mas nega ter ouvido e se esquece rapidamente. Você discute com ele uma questão de manhã e outra pessoa vai depois e faz com que ele mude de ideia. Politicamente, Bashar não possui uma ideologia consistente, ele muda de opinião de acordo com seus interesses e com os interesses do regime."

Agosto: Oposição síria acusa governo de matar centenas em ataque químico

Durante a juventude, Assad nunca foi preparado para se tornar presidente. Hafez Assad criou seu filho mais velho, Basil, como seu sucessor. O segundo filho de Hafez, então, ficou livre para seguir seus próprios interesses. Após seus estudos na escola Hurriya, Bashar ingressou na Universidade de Damasco, em que se formou em oftalmologia. Entre 1988 e 1992, ele estudou esse ramo da medicina no hospital militar Tishrin, em Damasco, antes de ir para Londres para aprofundar seus conhecimentos.

Galeria de fotos: Veja imagens do suposto ataque químico na Síria

Praticante de windsurfe e de vôlei, Bashar teria começado a namorar Asma al-Akhras, nascida no Reino Unido, durante esse período. Mas um acidente de carro que matou Basil mudou radicalmente seus planos. Ele foi convocado a retornar de Londres para a Síria em 1994 e se tornou o primeiro na linha de sucessão. Nos últimos anos de vida de seu pai, Assad, já coronel, tornou-se um defensor da modernização e da internet. Ele também ficou encarregado de uma unidade interna do governo para combater a corrupção.

Após a morte de Hafez, Bashar foi eleito pelo órgão máximo do partido Baath em junho de 2000, e o Parlamento aprovou em seguida uma emenda à Constituição, eliminando a idade mínima de 40 anos para permitir que ele, então com 34 anos, se tornasse presidente. No mês seguinte, Bashar foi confirmado no cargo.

Assista: Vídeos mostram vítimas de suposto ataque químico na Síria

Segundo a CNN, à época, Rifaat, tio de Assad que deixou a Síria em 1984 após se envolver em uma tentativa fracassada de golpe, criticou o presidente. "Ele é muito diferente de seu pai. Hafez era um líder, o chefe de todo o regime, enquanto Bashar nunca esteve próximo disso."

Veja imagens da família Assad no poder da Síria:

Então presidente sírio Hafez Assad (esq.) recebe ex-líder da Líbia Muamar Kadafi e ex-presidente do Egito Anwar Sadat em Damasco (19/8/1971). Foto: APSíria caminha por entre pinturas do então presidente do país Hafez Assad e Basil, seu filho mais velho, em Damasco, Síria (4/1/2000). Foto: APCaixão do presidente da Síria Hafez Assad enrolado em uma bandeira da Síria é carregado para uma mesquita na cidade de Qardaha (13/6/2000). Foto: APBashar al-Assad (dir.) participa de jogos de treinamento militar dois dias após se tornar presidente (10/7/2000). Foto: APA rainha do Reino Unido Elizabeth 2º cumprimenta Asma al-Assad, esposa do presidente sírio, Bashar al-Assad (17/12/2002). Foto: APPresidente da Síria, Bashar al-assad, conversa com o então candidato à presidência dos EUA John Kerry em Damasco (8/1/2005). Foto: APPresidente da Síria, Bashar al-Assad, e sua mulher Asma plantam uma jasmin durante abertura de festival em Damasco (27/4/2007). Foto: APPresidente da Síria, Bashar al-Assad, participa de cerimônia militar em Havana, Cuba (8/6/2010). Foto: APPresidente da Síria, Bashar al-Assad, e o então presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ouvem hino da Síria no Palácio do Itamaraty, Brasília (30/6/2010). Foto: APEntão presidente da França, Nicolás Sarkozy, cumprimenta presidente sírio, Bashar al-Assad, antes do encontro bilateral no Palácio do Eliseu em Paris (9/12/2010). Foto: AP

Relações exteriores e crise

Assad pertence à minoria alauíta - ramificação xiita - que representa uma fatia de 5% a 10% da população síria, predominantemente sunita. Ele possui como principais aliados a Rússia e a China e, na região, o Irã é considerado seu principal parceiro. Diplomaticamente, Bashar seguiu a linha dura de seu pai em relação a Israel e deu apoio ao Hamas e ao grupo militante libanês Hezbollah.

Hezbollah: Conheça a história do movimento xiita libanês

Suas relações com os EUA sempre foram tensas, e Assad foi uma das principais vozes regionais contrárias à invasão americana ao Iraque em 2003. Essa tensão piorou em fevereiro de 2005, com o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri. As suspeitas recaíram sobre Assad e os serviços de segurança da Síria que dominavam o Líbano. Apesar de negar seu envolvimento, o ultraje da comunidade internacional forçou a retirada das tropas sírias do Líbano em abril, colocando fim a 29 anos de presença militar no país.

Mas sua maior crise no poder ainda estava por vir. Em março de 2011, as prisões de 15 crianças por picharem em muros mensagens antigoverno provocaram manifestações na cidade de Deraa, no sudoeste do país. Inspirados pelas revoltas que haviam derrubado os líderes da Tunísia e do Egito, na chamada Primavera Árabe, os primeiros protestos se espalharam para outras cidades diante da sangrenta repressão do governo.

Duas semanas depois da primeira manifestação, Assad insistiu que as questões relacionadas às reformas e à economia haviam sido ofuscadas por um número pequeno de baderneiros e sabotadores que faziam parte de uma conspiração externa para minar a estabilidade e a unidade nacional do país. Em abril daquele ano, já com 200 mortos contabilizados nas manifestações, Assad suspendeu a Lei de Emergência e prometeu que novas medidas entrariam em vigor para diminuir o poder do Baath e garantir liberdade de imprensa. Dias depois, a repressão contra os manifestantes piorou e tanques passaram a ser enviados a cidades rebeladas como Homs, Hama, Baniyas e Deraa.

ONU: Número de mortos na guerra da Síria passa de 100 mil

Com deserções e a formação do Exército Livre Sírio para combater as tropas regulares de Assad, a ONU reconhece que o país está em guerra civil desde dezembro de 2011. Os grupos rebeldes que lutam pela queda de Assad formam uma colcha de retalhos que vão desde seculares até radicais ligados à Al-Qaeda, enquanto as tropas do regime contam com o apoio de militantes do Hezbollah na guerra. Mais recentemente, pairou sobre o regime de Assad a suspeita da utilização de agentes químicos contra sua própria população que teria matado, em um único ataque em agosto, centenas de civis - mais de 1,4 mil, segundo os EUA.

Com informações de agências internacionais

Leia tudo sobre: síriaassadmundo árabeprimavera árabearmas químicas

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas