Saiba mais sobre as armas químicas da Síria; Irã ajudou a produzir arsenal

Por Luciana Alvarez - especial para o iG |

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Para fazer frente a Israel, regime sírio tem programa de armamento de destruição em massa desde os anos 1970

Há muito tempo se iniciaram as tentativas da Síria de obter mísseis e armas de destruição em massa para fazer frente ao arsenal de Israel. Na prática, contudo, Damasco nunca teve os recursos nem a tecnologia para competir de verdade com o Estado judeu. Recentemente, o regime de Bashar al-Assad foi acusado por rebeldes que lutam contra seu governo há mais de dois anos de lançar um suposto ataque químico contra civis. Assad nega a acusação.

Dia 21: Oposição síria acusa governo de matar centenas em ataque químico

AP
Reprodução de vídeo mostra membros da equipe de investigações da ONU coletando amostras em Zamalka, subúrbio de Damasco

Assista: Vídeos mostram vítimas de suposto ataque químico na Síria

O programa de armas químicas sírio começou em meados dos anos 1970, sabendo-se que suas fábricas conseguiram produzir com sucesso substâncias que atuam no sistema nervoso, como o sarin e o VX, e os chamados “agentes de bolhas”, como o gás mostarda.

Entenda: Saiba o que é o sarin, arma química supostamente usada na Síria

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O sarin age sobre o sistema nervoso central, impedindo a enzima acetilcolinesterase de transmitir impulsos nervosos. Com isso, os músculos se desordenam e os órgãos param de funcionar. Dependendo da concentração, ele pode matar em poucos minutos.

Ao serem contaminadas, as vítimas costumam apresentar vômitos, dores de cabeça, espasmos musculares, convulsões, sudorese, insuficiência respiratória e diminuição dos batimentos cardíacos. O gás VX age de forma similar ao sarin, mas é ainda mais poderoso e letal.

Muito utilizado na Primeira Guerra (1914-1918), o gás mostarda forma bolhas dolorosas na pele; as queimaduras podem variar de primeiro a terceiro grau. Dependendo do grau de exposição, pode matar em cinco minutos ou até em semanas. A inalação leva à formação de vesículas nas vias respiratórias, o que provoca a morte por asfixia. Quando não mata, o gás mostarda também é mutagênico e cancerígeno.

As principais usinas produtoras, conhecidos na Síria como Centros de Estudos e Pesquisa Científicos, estão localizadas nas cidades de Dumair, Khan Abu Shamat e Furqlus. Mas ao menos até 2005 nada foi fabricado de maneira independente. Há informações de que a Síria importou do Irã centenas de toneladas de ácido clorídrico e etilenoglicol, componentes químicos precursores para a produção de gás mostarda e sarin.

Junho: EUA confirmam uso de armas químicas por forças de Assad

Durante muito tempo, a Síria buscou acabar com sua dependência de outros países e fabricar em seu próprio território os componetes químicos necessários para produzir as substâncias letais. Não se sabe com certeza se conseguiu. É certo apenas que novas usinas químicas foram construídas desde o final de 2005, segundo indica um relatório do analista de segurança Anthony Cordesman, Center for Strategic and International Studies (CSIS).

Veja imagens do suposto ataque químico na Síria no dia 21:

Imagem fornecida pelo Gabinete de Mídia de Douma mostra sírio ao lado de corpos de vítimas mortas por suposto ataque químico. Foto: APCrianças afetadas por suposto ataque químico respiram com máscaras de oxigênio no subúrbio de Saqba, Damasco. Foto: ReutersSírios tentam identificar corpos depois de suposto ataque químico em Arbeen, subúrbio da Síria. Foto: APMenino que sobreviveu a suposto ataque químico chora em abrigo montado dentro de mesquita no bairro de Duma, Damasco. Foto: ReutersHomem e mulher velam corpos de sírios após suposto ataque com gás venenoso lançado pelas forças do regime de Assad. Foto: APJovem que sobreviveu a suposto ataque químico chora dentro de mesquita em bairro de Duma, Damasco. Foto: ReutersHomem, afetado pelo que ativistas dizem ser gás neurológico, respira com ajuda de máscara de oxigêneo em subúrbio de Damasco. Foto: ReutersImagem fornecida pelo Comitê Local de Arbeen mostra corpos de sírios enfileirados em Arbeen, Damasco. Foto: APSegundo ativistas da oposição, armas químicas teriam matado centenas. Foto: BBCSírios colocam corpos de vítimas de suposto ataque químico em vala comum em Hamoria, área nos subúrbios a leste de Damasco. Foto: Reuters

Embora não se tenha conhecimento de nenhum contrato assinado, diz Cordesman, agentes ocidentais tomaram conhecimento de acordos para que cientistas iranianos ajudassem a Síria a estabelecer a infraestrutura necessária: forneceriam conhecimento para produção dos químicos precursores e materais para fabricá-los, como reatores, tubos, condensadores, trocadores de calor e tanques de armazenamento e alimentação, bem como equipamentos de detecção de substâncias químicas para os agentes em suspensão.

Denúncias antes do ataque do dia 21:
- França: Testes confirmam uso de sarin na Síria. ONU aponta possível utilização
- Israel acusa governo Assad de usar armas químicas contra rebeldes sírios
- Exames em sírios mostram sinais de uso de armas químicas, diz Turquia

Para o especialista em armas químicas Amy Smithson, do Centro James Martin para os Estudos da Não Proliferação, em Washington, o governo de Assad consegue atualmente produzir os gases sarin e mostarda sozinho. “A Síria dependeu fortemente da ajuda externa no começo do seu programa, mas o entendimento agora é de que eles têm capacidade doméstica de produção de armas químicas”, disse.

Desde o começo da guerra civil, há mais de dois anos, já houve várias denúncias sobre o uso de armas químicas, sendo a mais grave delas na semana passada, quando a oposição acusou o governo de matar ao menos centenas de civis durante a noite em um ataque com gás sarin ou similar, em subúrbios de Damasco dominados por rebeldes.

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Reprodução de vídeo amador mostra suposto membro da ONU medindo e fotografando lata no subúrbio de Moadamiyeh, Damasco, Síria (26/8)

Em julho de 2012, a Síria admitiu pela primeira vez que possuía esse tipo de arma. Mas o governo nega os ataques contra sua população. O ministro sírio da Informação, Omran Zoabi, disse que as acusações são "ilógicas e fabricadas".

A Síria é um dos sete países que não aderiram à Convenção de Armas Químicas, de 1997, que obriga seus participantes a destruir seus arsenais e não fabricar mais agente químicos. Os outros não signatários são Israel, Coreia do Norte, Egito, Angola, Sudão do Sul e Mianmar.

*Com Reuters

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