Ascensão islamita pelo voto é prejudicada não por religião, mas por interesses regionais e externos, dizem analistas

Um partido islâmico democraticamente eleito ser retirado do poder à força sob uma aparente complacência das potências ocidentais, como aconteceu no Egito em 3 de julho , não é novidade na história recente. Para analistas internacionais, acima da simples questão religiosa, o que impede a ascensão desses grupos é o complexo jogo de interesses internos e a disputa de outros países por influência na região.

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Soldados do Exército em veículos blindados bloqueiam Praça Tahrir, no Cairo, durante protestos de partidários de presidente deposto no Egito (23/8)
AP
Soldados do Exército em veículos blindados bloqueiam Praça Tahrir, no Cairo, durante protestos de partidários de presidente deposto no Egito (23/8)

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Em 2006, o Hamas , grupo islâmico radical considerado terrorista pelos EUA e pela União Europeia, venceu uma votação para comandar a Autoridade Palestina, mas não conseguiu reconhecimento internacional, o que acabou levando a uma divisão dos territórios. Hoje o Hamas governa a Faixa de Gaza, e o Fatah, que é mais moderado e conta com apoio das potências ocidentais, comanda a Cisjordânia.

Em 1991, na Argélia, a Frente Islâmica de Salvação (FIS), uma coalizão de partidos islâmicos, conquistou a maioria do Parlamento e seu candidato a presidente tornou-se o favorito na disputa. Antes mesmo que o novo presidente pudesse ser escolhido, os militares entraram em cena e deram início a uma guerra civil que deixou entre 150 mil e 200 mil mortos.

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O professor de Relações Internacionais Javier Vadell, da PUC-MG (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), diz que a condescendência americana com o golpe egípcio contra o islamita Mohammed Morsi não se deve tanto à questão religiosa, mas ao fato de que os militares são aliados antigos e fiéis – eles dependem do apoio americano, o que os torna, de certo modo, mais “obedientes”. “A Irmandade Muçulmana (grupo de Morsi) não é fundamentalista e tampouco propunha um rompimento com os EUA. Mas as Forças Armadas egípcias sempre foram aliados dos americanos e de Israel”, explica Vadell.

Soldados e veículos blindados são vistos nas ruas guardando o centro de Constantine, leste da Argélia, em meio a estado de emergência (5/6/1991)
AP
Soldados e veículos blindados são vistos nas ruas guardando o centro de Constantine, leste da Argélia, em meio a estado de emergência (5/6/1991)

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O governo americano fornece anualmente US$ 1,3 bilhão em ajuda militar ao Egito. Mesmo com a repressão violenta da oposição que o novo governo vem promovendo após o golpe, os EUA não suspenderam a ajuda. Até agora, para mostrar sua desaprovação ao que acontece no país, Washington cancelou exercícios militares bienais com as forças egípcias e adiou a entrega de jatos F-16 .

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Ao mesmo tempo, os EUA não veem nenhum problema em ter relações próximas com a Arábia Saudita, uma monarquia absoluta que governa o país segundo a sharia , a lei sagrada islâmica.

Portanto, dizer que as características islâmicas do governo do presidente deposto Morsi o tornavam inconveniente é considerado apenas uma desculpa. “A religião não foi determinante nesse caso. Mas também é verdade que muitos grupos se aproveitam da questão religiosa para acirrar os ânimos”, diz Vadell.

A Turquia serve de exemplo de como é possível que um governo islâmico exerça o poder após vencer eleições livres. “A gente fala em democracia, mas é uma democracia controlada, diferente do que temos por aqui. E, ainda assim, lá existem tensões, sobretudo com os militares. A ameaça, contudo, é menor porque o Exército turco tem muito menos força que o egípcio”, afirma o professor da PUC de Minas.

Além dos interesses americanos, há uma forte disputa de poder interna na região do Oriente Médio. “Entre seculares e islâmicos de vários países, estão todos brigando para ser o herdeiro político de Gamal Nasser (presidente do Egito de 1956-1970, considerado como o primeiro líder de uma nação árabe a desafiar a dominância externa). Era a ambição de Saddam Hussein (do Iraque), e de Hafez al-Assad (da Síria, pai do presidente atual, Bashar). Até o persa Irã tentou assumir o papel de liderança entre os vizinhos árabes”, diz Reginaldo Nasser, coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC-SP.

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Outra questão interna de países de maioria islâmica é que a população não religiosa ou de outros cultos teme ser governada por um partido islâmico. “Mas esse temor é uma construção social. No caso do Egito, o governo de Hosni Mubarak ocasionalmente colocou os cristãos coptas e os islâmicos uns contra os outros quando o regime precisava de alguma distração”, afirma Bernardo Wahl, professor de pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

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Para a convivência desses vários grupos, as soluções adotadas até o momento, com grande participação do Ocidente, têm sido um grupo governar os demais de maneira autoritária, lembra Wahl: “Isso mantém a ordem – e, em uma perspectiva realista das relações internacionais, isso é válido para o Ocidente – mas não resolve a questão da democracia.”

Dada a falta de tradição democrática – o Egito teve apenas uma eleição ; a votação de 2006 foi a primeira entre os palestinos, assim como a de 1991 entre os argelinos –, não é totalmente uma surpresa que elites derrotadas nas urnas recorram à força.

Em resposta à violência no Egito, teme-se uma radicalização dos demais atores, o que poderia em último caso levar até a uma guerra civil, como aconteceu na Argélia. “Uma consequência perigosa é a possibilidade de que alguns grupos dentro da Irmandade Muçulmana comecem a defender a luta armada, a partir do momento em que se deparam com portas fechadas”, avalia Nasser. Se parte da Irmandade desistir da atuação via democracia, o fato vai reverberar por toda a região, pois o movimento islâmico tem braços em diversos países.

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Mas o desfecho da crise no Egito ainda é incerto, e existem outros cenários possíveis. “Podemos tentar traçar perspectivas para o futuro olhando para o passado: é provável que a elite, particularmente as Forças Armadas, imponham-se à força, sendo a eleição de Morsi apenas um breve interregno”, afirma Bernardo Wahl.

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