Egito faz 'ofensiva de relações públicas' de olho no Ocidente

Por BBC |

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Mais de 800 pessoas morreram em confrontos nos últimos dias; acima, funeral no Cairo

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As principais TVs estatais egípcias, que transmitem em árabe, passaram a exibir nos últimos dias um novo logotipo no canto da tela, com as cores da bandeira do país. Pela primeira vez na história, tratava-se de uma mensagem em inglês, que dizia "Egito combatendo terrorismo".

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Outra emissora, a ON TV - que é privada -, começou a fazer tradução simultânea para o inglês de seus noticiários e talk shows. Sua cobertura, predominantemente favorável aos militares que governam o país, visa claramente alcançar uma audiência internacional.

Reuters
Egípcios assistem pronunciamento de Abdel Fattah al-Sisi em café no Cairo

O governo interino egípcio e o Exército parecem ter lançado uma ampla ofensiva de relações públicas, de olho no Ocidente.

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O assunto é claramente sensível no país, ante as duras críticas vindas dos EUA e da União Europeia por conta da repressão aos protestos que se seguiram à deposição do presidente islamita Mohammed Morsi.

Recado à imprensa

Neste domingo, o chefe das Forças Armadas, general Abdul Fattah al-Sisi, fez seu primeiro pronunciamento público desde a morte de centenas de pessoas após as forças de segurança terem desmontado dois acampamentos de simpatizantes de Morsi e da Irmandade Muçulmana.

Em seu longo discurso - em que declarou que há no Egito "espaço para todos" e que vai "reconstruir o caminho da democracia", mas que a violência não será tolerada -, havia também um recado para jornalistas estrangeiros.

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"Não assistiremos ao país ser destruído e incendiado, às pessoas sendo aterrorizadas e ao envio de uma mensagem equivocada à mídia ocidental de que há confrontos nas ruas", disse o general.

O país vive uma espiral de violência desde a deposição - após amplos protestos populares - do presidente Mohammed Morsi, por um golpe militar, em julho. Enfrentamentos nas ruas deixaram ao menos 830 mortos (70 deles policiais ou soldados) entre quarta-feira - quando começou a repressão aos acampamentos de manifestantes - e sábado.

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Neste domingo, acredita-se que ao menos 36 simpatizantes da Irmandade Muçulmana que estavam detidos tenham sido mortos após uma tentativa de fuga.

'Amargura'

TV egípcia agora mostra logo em inglês, dizendo "Egito combatendo terrorismo"

Ainda dentro da ofensiva de relações públicas, as autoridades egípcias também começaram a fazer entrevistas coletivas em árabe e em inglês.

Em uma delas, no sábado, o assessor presidencial Mostafa Hegazy acusou a imprensa do Ocidente de ignorar atos de violência atribuídos aos ativistas islamitas, como ataques contra a polícia e a destruição de igrejas cristãs. "Nós, como egípcios, sentimos profunda amargura ante a cobertura dos eventos no país", disse ele.

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A fundação jornalística privada Al-Yawm al-Sabi anunciou planos de lançar um site em inglês, por conta do que chama de "campanhas midiáticas ocidentais tendenciosas que tentam desestabilizar o Egito, afetar sua segurança, disseminar boatos e espalhar a desunião entre seu povo".

O site, diz, oferecerá "intensa cobertura dos atuais eventos com veracidade, (usando) vídeos e fotos".

Manifestantes que apoiam o líder deposto Mohammed Morsi ajudam ferido perto de Praça Ramsés, no Cairo. Foto: ReutersManifestantes que apoiam o líder deposto Mohammed Morsi carregam ferido perto de Praça Ramsés, no Cairo. Foto: ReutersMembro da Irmandade Muçulmana e partidário do presidente deposto Mohammed Morsi grita durante confrontos perto da Praça Ramsés, Cairo (16/8). Foto: ReutersEgípcios se desesperam perto de corpos de parentes na mesquita de Al-Fath, no Cairo (15/8). Foto: APPartidários de Mohammed Morsi carregam manifestante ferido que foi atingido por disparo durante confrontos em frente de delegacia na Praça Ramsés, Cairo (16/8). Foto: ReutersCivil carregando uma arma observa movimento da rua no bairro de Zamalek no Cairo, Egito (16/8). Foto: APEgípcios velam corpos de seus parentes mortos em massacre de quarta-feira na mesquita Al-Fath, no Cairo (16/8). Foto: APManifestante ferido que apoia o presidente deposto Mohammed Morsi deita dentro de mesquita na Praça Ramsés, no Cairo (16/8). Foto: ReutersPartidários de Mohammed Morsi carregam caixão coberto com bandeira nacional de colega morto na quarta-feira na mesquita de Amr Ibn Al-As no Cairo, Egito (16/8). Foto: APPartidários de Mohammed Morsi atravessam ponte sobre o Nilo enquanto marcham do bairro Mohandeseen em direção ao Cairo, no Egito (16/8) AP. Foto: APPartidários de Mohammed Morsi se reúnem no Cairo, Egito, para protestos do 'Dia da Ira' (16/8). Foto: ReutersManifestantes que apoiam Mohammed Morsi entram em confronto com rivais do lado de fora da delegacia de Azbkya, perto da Praça Ramsés, no Cairo (16/8) . Foto: ReutersPartidário do presidente deposto do Egito Mohammed Morsi gritam palavras de ordem em protesto na Praça Ramsés, no Cairo (16/8) . Foto: ReutersIntegrante da Irmandade Muçulmana e partidário de Mohammed Morsi grita palavras de ordem contra Exército no Cairo (16/8)
. Foto: ReutersPartidários do presidente deposto Mohammed Morsi gritam palavras de ordem durante protesto na Praça Ramsés, no Cairo (16/8). Foto: Reuters

Al-Jazeera

Não é só a imprensa ocidental que está sob críticas no Egito. O ministro de Informação do país, Dorreya Sharaf al-Din, ameaçou revisar o status legal da emissora al-Jazeera, do Catar, a qual acusa de ameaçar a segurança e a estabilidade egípcias.

Ao contrário das emissoras estatais do Egito, a al-Jazeera deu bastante exposição a simpatizantes da Irmandade Muçulmana. Além disso, costuma transmitir os protestos pró-Morsi no país e divulgou, ao vivo, imagens de celular gravadas dentro da mesquita al-Fath, onde manifestantes foram cercados por forças de segurança no sábado.

Jornalistas da emissora dizem ter sido assediados pelas autoridades.

O jornalista e comentarista egípcio Ahmad Samir opina que as autoridades "estão em uma situação crítica e embaraçosa, após a morte de tantas pessoas".

Para Angy Ghannam, do serviço de monitoramento noticioso da BBC - que acompanha diariamente a imprensa mundial -, houve uma mudança de foco no trabalho da mídia egípcia, pública e privada, que antes se concentrava em explicar as posições do governo militar interino à população egípcia.

Tensão: Sem concessões, militares e islamitas pressionam civis egípcios

"A mídia do país passou a usar muito do seu tempo para criticar a cobertura estrangeira. Mas, nos últimos dias, é notável que alguns veículos começaram a fazer uma autocrítica por não terem conseguido passar sua mensagem às audiências internacionais", diz Ghannan. E, com isso, começou uma campanha noticiosa voltada ao Ocidente.

Ahmad Samir acredita que essa tentativa de conquistar a opinião pública do Ocidente é equivocada e cita a recente renúncia do vice-presidente interino Mohamed ElBaradei (vencedor do prêmio Nobel e com amplo trânsito no Ocidente).

"ElBaradei, com sua grande experiência internacional, percebeu que o que aconteceu (no Egito) não poderia ser justificado perante o mundo. Era contra seus princípios, e ele renunciou."

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