Premiê interino diz que autoridades tinham de 'restaurar segurança'; polícia prende líderes-chave da Irmandade

O primeiro-ministro interino do Egito, Hazem Beblawi, defendeu nesta quarta-feira a operação mortal para desmontar dois acampamentos de protesto no Cairo, dizendo que as autoridades tinham de "restaurar a segurança". Segundo Beblawi, não foi uma decisão fácil dispersar os partidários do islamita Mohammed Morsi, deposto em um golpe em 3 de julho .

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Medida: Egito declara um mês de estado de emergência

Partidários feridos do presidente deposto Mohammed Morsi são vistos deitados em hospital improvisado no distrito de Nasr City, Cairo (14/8)
AP
Partidários feridos do presidente deposto Mohammed Morsi são vistos deitados em hospital improvisado no distrito de Nasr City, Cairo (14/8)

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O governo, que declarou estado de emergência , disse que as mortes por confrontos no Cairo e em outras cidades do país chegam a 278, sendo 235 civis e 43 policiais. A polícia agora tomou o controle dos acampamentos na capital e há informações de que prendeu líderes-chave da Irmandade Muçulmana , grupo de Morsi.

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Em um discurso televisionado, Beblawi expressou arrependimento pela perda de vidas e disse que o estado de emergência seria levantado assim que possível. A medida, prevista para durar um mês, impõe um toque de recolher no Cairo e em outras várias províncias entre as 19 horas e as 6 horas locais.

O premiê também afirmou que a polícia foi instruída a não usar armas para dispersar os manifestantes. De acordo com o ministro egípcio do Interior, Mohammed Ibrahim, a polícia "lidou profissionalmente" com os manifestantes, acusando os partidários de Morsi de construir "fortificações" e disparar contra as forças policiais.

Segundo Ibrahim, gangues armadas infiltraram os protestos, com munição tendo sido apreendida nos acampamentos. Em todo o país, membros da Irmandade estão sendo presos e interrogados, informou o ministro.

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Partidário ferido do líder deposto Mohammed Morsi é visto no chão enquanto forças de segurança desmontavam acampamento de protesto perto da Universidade do Cairo (14/8)
AP
Partidário ferido do líder deposto Mohammed Morsi é visto no chão enquanto forças de segurança desmontavam acampamento de protesto perto da Universidade do Cairo (14/8)

Vice-presidente: ElBaradei renuncia no Egito em protesto contra repressão

Em reação à repressão violenta do governo, o vice-presidente egípcio, Mohamed ElBaradei, renunciou ao cargo . "Ficou difícil para mim continuar a ter responsabilidade por decisões com as quais não concordo e cujas consequências temo. Não posso carregar a responsabilidade por uma única gota de sangue", escreveu em sua carta de renúncia a Mansour.

Reação: EUA condenam violência e países da região veem risco de guerra civil

Os EUA condenaram a violência , afirmando que a situação só dificultará ainda mais que o Egito siga adiante e dizendo que o mundo observa o que acontece no país. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, conclamou "todos os egípcios a concentrar seus esforços em promover uma reconciliação genuinamente inclusiva", disse o porta-voz Martin Nesirky.

Ofensiva militar

Logo depois do amanhecer desta quarta, escavadeiras blindadas avançaram contra o principal acampamento de protesto localizado do lado de fora da mesquita de Rabaa al-Adawiya, no leste do Cairo. Autoridades disseram que o outro acampamento de protesto, na Praça Nahda, também foi liberado.

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A ação militar foi lançada depois de dias de alertas do governo interino apoiado pelo Exército que substituiu Morsi após sua deposição. Os dois acampamentos em duas grandes intersecções em lados opostos da capital egípcia começaram no final de junho em mostra de apoio a Morsi. Manifestantes - muitos da Irmandade - reivindicavam sua volta ao poder.

Confrontos também aconteceram em outros pontos da capital e em províncias em todo o país, à medida que a raiva entre os islamitas se espalhou, com estações de polícia, prédios do governo e igrejas cristãs coptas atacadas ou incendiadas.

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O tumulto foi o mais recente capítulo em um impasse entre os partidários de Morsi e a liderança interina que tomou o controle do país mais populoso do mundo árabe. O Exército depôr Morsi depois de milhões de egípcios terem saído às ruas para pedir sua renúncia, acusando-o de dar à Irmandade muito influência e de fracassar em implementar reformas vitais ou em estimular a economia em crise.

O golpe provocou protestos similares de partidários de Morsi depois que ele e outros líderes da Irmandade foram detidos enquanto as divisões se aprofundaram, dando um grande golpe às esperanças de retorno à estabilidade depois da revolução de 2011, que derrubou o líder autocrático Hosni Mubarak .

Membros da Irmandade Muçulmana e partidários de Mohammed Morsi fogem do gás lacrimogêneo durante confrontos em praça que leva à praça Rabba el-Adwia, Cairo (14/8)
Reuters
Membros da Irmandade Muçulmana e partidários de Mohammed Morsi fogem do gás lacrimogêneo durante confrontos em praça que leva à praça Rabba el-Adwia, Cairo (14/8)

Chanceler da União Europeia: Líder deposto no Egito está bem

Morsi é mantido detido em uma localização desconhecida. Outros líderes da Irmandade foram indiciados por incitar violência. "O mundo não pode assistir sentado enquanto homens, mulheres e crianças inocentes são mortos indiscriminadamente. O mundo deve se levantar contra o crime da junta militar antes que seja tarde", disse em comunicado a Irmandade Muçulmana.

*Com AP e BBC

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