Substância interrompe impulsos nervosos e fará parte de investigação da ONU; relembre casos em que ela foi usada

O sarin, uma das armas químicas supostamente usadas no guerra da Síria, foi descoberto acidentalmente em 1938 pelo químico alemão Gerhard Scharader durante uma síntese de defensivos agrícolas. Segundo o Centro de Controle de Prevenção de Doenças dos EUA, em sua forma pura o sarin é uma substância líquida sem cor e sem cheiro, mas também pode ser vaporizado para ser espalhado no ambiente. Estima-se que seja 500 vezes mais tóxico que o cianeto.

Quarta: Inspetores da ONU investigarão três supostos ataques químicos na Síria

Combatente do Exército Livre da Síria posiciona canhão dentro de casa em Jobar, Damasco (30/7)
Reuters
Combatente do Exército Livre da Síria posiciona canhão dentro de casa em Jobar, Damasco (30/7)

Junho:  EUA confirmam uso de armas químicas por forças de Assad na Síria

Pelo seu potencial devastador, a ONU o considera uma “arma de destruição em massa”, banida desde 1997. Na quarta-feira, a organização anunciou um acordo com Damasco para permitir a entrada na Síria de uma equipe de inspetores para investigar supostos três ataques químicos no conflito de mais de dois anos. Em junho, os EUA disseram que as forças do presidente Bashar al-Assad cruzaram a " linha vermelha " ao usar armamento não convencional , incluindo o gás sarin, contra as forças rebeldes.

Denúncias:
- França: Testes confirmam uso de sarin na Síria. ONU aponta possível utilização
- Israel acusa governo Assad de usar armas químicas contra rebeldes sírios
- Exames em sírios mostram sinais de uso de armas químicas, diz Turquia

O sarin age sobre o sistema nervoso central, impedindo a enzima chamada de acetilcolinesterase de transmitir impulsos nervosos ao organismo. Com isso, os músculos se desordenam e os órgãos param de funcionar. Dependendo da concentração, ele pode matar em poucos minutos após ser inalado; se for absorvido pela pele, o processo é um pouco mais lento, demorando entre 20 e 30 minutos para aparecerem os primeiros sintomas.

Ao serem contaminadas, as vítimas costumam apresentar vômitos, dores de cabeça, espasmos musculares, convulsões, sudorese, insuficiência respiratória e diminuição dos batimentos cardíacos, entre outros sintomas.

Veja imagens do conflito sírio desde o início deste ano:

Indício: Jornalista britânico relata suposto ataque com armas químicas na Síria

Segundo o grupo de estudos Iniciativa de Ameaça Nuclear (NTI, na sigla em inglês), as armas químicas despertam menos atenção dos governos e do público do que as nucleares ou biológicas, mas os registros históricos mostram que elas são as armas de destruição em massa mais utilizadas. Isso porque quantidades relativamente pequenas podem produzir grandes estragos, e sua produção exige tecnologias mais simples do que as demais.

Já faz dez anos desde que o Gabinete de Análise Tecnológica dos EUA publicou uma nota alertando que os materiais necessários para a produção do sarin eram conhecidos havia 40 anos, com o procedimento de produção podendo ser adotado por laboratórios farmacêuticos de moderada tecnologia. Para completar, quantidades pequenas de sarin – como um ou dois quilos – podem ser produzidas em pequenos laboratórios, facilmente “escondidos” em zonas residenciais.

Março: Síria e rebeldes trocam acusações de 'ataque químico'

Apesar de a produção de sarin não demandar uma tecnologia de ponta, ainda assim a facilidade para sua produção é relativa. Se o país ou grupo não tiver acesso direto aos chamados “químicos precursores” corretos, a síntese (processo químico) para se chegar à substância metilfosfonofluorído exigirá equipamentos especiais, segundo o consultor em desarmamento Ralf Trapp, especialista em armas químicas. “É necessário um equipamento especial resistente à corrosão, por exemplo”, afirmou ao iG .

Foto divulgada pela imprensa estatal mostra mesquita de Khalid Ibn al-Walid no disputado bairro de Khaldiyeh, em Homs, Síria (27/7)
AP
Foto divulgada pela imprensa estatal mostra mesquita de Khalid Ibn al-Walid no disputado bairro de Khaldiyeh, em Homs, Síria (27/7)

A produção também costuma trazer dois problemas. O primeiro é a questão da segurança, pois o sarin é altamente tóxico e volátil. “Qualquer traço que escapar do equipamento de produção é extremamente perigoso para quem estiver fazendo a síntese”, afirmou Trapp. O segundo quesito é como fazer a purificação, processo necessário para estabilizar e armazenar o sarin. Se não for purificado, rapidamente ele se degrada, ou seja, perde suas características destrutivas.

Leia: Entenda métodos e empecilhos para identificar uso de armas químicas

Se a rápida degradação representa um problema para quem produz o sarin, essa característica também é um grande entrave para os investigadores que tentam determinar se a arma foi ou não usada. “O sarin em si só é detectável num curto espaço de tempo; no ambiente e em urinas, desaparece em questão de dias”, explicou o consultor. Como pode levar mais tempo para que inspetores independentes cheguem aos locais onde houve possíveis ataques, costumam-se encontrar apenas subprodutos do sarin, muitas vezes em concentrações que não permitem uma análise incontestável.

NYT: Procedimentos complexos dificultam averiguação de uso de armas químicas

No caso do conflito na Síria, há um outro fator que provoca controvérsia: a falta de confiabilidade das fontes. “Essencialmente, todas as amostra vindas da Síria foram coletadas e transferidas de forma que não é possível demonstrar com independência que foram de fato retiradas do local alegado, da forma correta, e que ninguém interferiu nelas durante o transporte”, afirmou Trapp.

Veja casos em que o sarin foi usado:

Passageiros de metrôs afetados por gás sarin são atendidos após ataque em Tóquio (20/3/1995)
AP
Passageiros de metrôs afetados por gás sarin são atendidos após ataque em Tóquio (20/3/1995)

- Japão: O mais recente caso reconhecido de utilização de sarin foi em um atentado terrorista ao metrô de Tóquio em 1995. O ataque com sarin lançado pela seita radical Verdade Suprema deixou 12 mortos e outros 5 mil intoxicados. Um ano antes, a seita havia realizado um atentado na cidade de Matsumoto, deixando sete mortos.

- Iraque: O governo de Saddam Hussein (1979-2003) usou o gás sarin em bombas lançadas contra iraquianos da etnia curda. No maior dos ataques, na cidade de Halabja em 1988, estima-se que 5 mil morreram. Acredita-se que Saddam também usou bombas com sarin durante a Guerra do Golfo, em 1991.

Foto fornecida pela ONU mostra funcionário com roupas de proteção inspecionando foguetes com gás sarin no Iraque em outubro de 1991
AP
Foto fornecida pela ONU mostra funcionário com roupas de proteção inspecionando foguetes com gás sarin no Iraque em outubro de 1991

- Chile: Há acusações de uso do sarin contra dissidentes durante o ditadura do general Augusto Pinochet (1974-1990). Em 2006, seis membros do antigo serviço de inteligência militar foram condenados pela Justiça por usar o sarin para matar um homem que tentou desertar da polícia secreta.

- Antiga Iugoslávia: A antiga república da Iugoslávia produziu uma boa variedade e grandes quantidades de armas químicas, entre elas o sarin. Há alegações de todos os lados: sérvios e croatas acusam o governo bósnio de usar armas químicas contra eles, muçulmanos acusam o governo sérvio de usá-las em refugiados no país, albaneses em Kosovo também dizem ter sido vítimas de ataques do tipo.

- EUA: No início dos anos 50, época da Guerra Fria, EUA e a então União Soviética produziram grandes quantidades de sarin para propósitos militares. A única morte registrada pelo uso do sarin americano, contudo, foi a do engenheiro da Força Aérea Ronald Maddison, de 20 anos, supostamente em um experimento no ano de 1953.

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