Banho de sangue entre partidários e oponentes de líder deposto amplia divisões três semanas após golpe militar

O número de mortos por dois dias de confrontos entre partidários e oponentes do presidente deposto do Egito Mohammed Morsi subiu para 11 nesta terça-feira, a maioria em choques de rua durante a madrugada perto de um acampamento de protesto pró-Morsi enquanto o país continua mergulhado em tumultos fatais três semanas depois do golpe militar contra o líder islamita.

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Oponentes do presidente deposto Mohammed Morsi queimam pôsteres com sua foto durante confrontos no Cairo, Egito (22/03)
AP
Oponentes do presidente deposto Mohammed Morsi queimam pôsteres com sua foto durante confrontos no Cairo, Egito (22/03)

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O banho de sangue está ampliando as divisões entre os partidários de Morsi e a administração apoiada pelo Exército que assumiu depois da deposição e está diminuindo as chances de reconciliação. No centro do ódio encontra-se a detenção de Morsi , o primeiro presidente eleito livremente do Egito, que é mantido sob custódia sem possibilidade de comunicação e sem acusação formal.

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A violência frequentemente irrompeu em meio às persistentes manifestações rivais, mas as atuais batalhas de rua que começaram antes do amanhecer nesta terça estão entre as mais intensas desde o início da crise, em 3 de julho.

Os confrontos começaram depois que partidários de Morsi começaram a marchar de um acampamento do lado de fora do campus da Universidade do Cairo em direção a uma mesquita vizinha. Os manifestantes bloquearam ruas, causando trânsito e irritando os moradores.

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Oficiais de segurança disseram que os confrontos se tornaram violentos depois que atiradores mascaradores apareceram no local e começaram a dispararam contra partidários de Morsi com munição real. Os oficiais não fizeram comentários sobre a identidade dos atiradores.

A Irmandade Muçulmana , porém, responsabilizou as mortes em "bandidos" patrocinados pelo Ministério do Interior, acusação que o grupo islamita do qual Morsi é membro frequentemente usa para escapar da noção de que tem diferenças com outros segmentos da população.

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Khaled el-Khateeb, que lidera o departamento de emergência e UTI do Ministério da Saúde, disse que houve seis mortes perto do acampamento pró-Morsi . Os oficiais de segurança apontaram sete mortos e 11 feridos.

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A queda de Morsi aconteceu após protestos em massa de milhões de egípcios reivindicando a renúcia do presidente islamita. Seus partidários exigem seu retorno ao poder e insistem que não participarão do processo político apoiado pelo Exército até que isso aconteça.

Confrontos também aconteceram na segunda-feira , deixando três mortos na cidade de Qalioub, norte do Cairo. Membros dos dois lados também entraram em choque perto do local de outro acampamento pró-Morsi em um distrito no leste do Cairo e na central Praça Tahrir, epicentro do levante de 2011 contra o autocrático predecessor de Morsi, Hosni Mubarak . Ao menos uma pessoa morreu perto da Tahrir, disseram funcionários.

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O Ministério do Interior, que é encarregado da polícia, disse nesta terça que 66 pessoas foram presas em conexão com a violência do dia anterior. El-Khateeb afirmou que mais de 80 ficaram feridos nos confrontos de segunda.

'Campanha de intimidação'

A rede pan-árabe de televisão Al-Jazeera acusou as autoridades egípcias nesta terça de promover uma campanha contínua de intimidação contra suas equipes e rejeitou as acusações de parcialidade pró-islâmica na cobertura da crise no Egito.

Horas após os militares egípcios destituírem Morsi em 3 de julho, as forças de segurança invadiram os escritórios da Al-Jazeera no Cairo , que fontes militares acusaram, no momento da transmissão, de "incitação".

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Com sede no Catar, país do Golfo Árabe visto como simpático à Irmandade Muçulmana, a Al-Jazeera foi criticada por muitos egípcios por seu viés na cobertura de seu país.

A Al-Jazeera disse que as autoridades têm "apertado o controle sobre a liberdade de funcionários da Al-Jazeera" durante as últimas três semanas. Em um comunicado, a rede afirmou que as autoridades egípcias tinham iniciado um processo judicial sob a alegação de que a rede árabe havia roubado dois feeds de transmissão da televisão estatal e os usado para transmitir os protestos na praça onde partidários de Morsi estão acampados.

Opositores do presidente deposto Mohammed Morsi carregam amigo ferigo em confrontos com partidários de Morsi no Cairo (22/7)
AP
Opositores do presidente deposto Mohammed Morsi carregam amigo ferigo em confrontos com partidários de Morsi no Cairo (22/7)

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A rede de televisão, que ganhou destaque por sua cobertura ao vivo de uma região outrora dominada pela mídia estatal, também disse que seus funcionários eram impedidos de cobrir coletivas oficiais e recebiam inúmeras ameaças.

"Não há verdade no que está sendo publicado nessa campanha sobre a parcialidade da Al-Jazeera a favor de um lado da equação política atual. Essas são acusações sem prova", disse o comunicado.

Ghassan Abu Hussein, um porta-voz da Al-Jazeera, disse: "Apesar dos desafios enfrentados pela rede no Egito, a Al-Jazeera afirma seu compromisso com sua política editorial, baseada nos mais altos níveis profissionais e uma cobertura em que integridade, objetividade e equilíbrio são óbvios."

Hussein disse que a rede está preocupada com a vida, a segurança e a liberdade de seus funcionários por causa da "campanha" egípcia contra ela.

*Com AP e Reuters

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