Jovem fugiu de guerra para evitar destinos potencialmente fatais: tornar-se soldado ou ser morto em um protesto

Kamal Abogavar*, 20 anos, havia morado durante toda sua vida no bairro de Al-Kusur antes que a guerra civil da Síria o obrigasse a buscar refúgio no Brasil e reduzisse a pó sua casa, a loja de seu pai e outras milhares de construções em Homs, uma das cidades mais atingidas pelo conflito. E é da cama, do quarto e da casa que Abogavar vem sentindo mais falta desde que chegou ao bairro do Brás, em São Paulo, há um ano e dois meses.

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Kamal Abogavar, 20 anos, trabalha em uma loja localizada no Brás, região central de São Paulo
Bruna Carvalho
Kamal Abogavar, 20 anos, trabalha em uma loja localizada no Brás, região central de São Paulo

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Por meio de fotos enviadas por amigos pela internet, o sírio soube na capital paulista como o patrimônio de sua família havia sido destruído na guerra. Questionado se retornar à Síria em um futuro sem guerra e ter que "construir tudo do zero" o assustava, Abogavar respondeu: "Antes de reconstruir, tem de limpar ( o entulho ). Então é começar do negativo, não é do zero."

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A história de Abogavar reflete a situação em que se encontra a cidade de Homs, no oeste do país, um dos principais focos do conflito que dura mais de dois anos. O Observatório Sírio para Direitos Humanos (OSDH), rede ativista que faz a contagem dos mortos e feridos na guerra civil da Síria, informou que 60% a 70% de uma área rebelde na cidade de Homs ficou destruída ou inabitável pelos bombardeios e confrontos diários. "De todas as cidades da Síria, Homs sofreu os maiores níveis de destruição. Imagens de Homs fazem parecer que uma guerra mundial atingiu a cidade", descreveu o diretor do grupo, Rami Abdel Rahman, à agência AFP em 8 de julho.

Estudante de um curso técnico de Informática na Síria, Abogavar hoje é assistente de vendas na loja de calças jeans de seu tio, também no Brás. Foi nos fundos do estabelecimento que ele recebeu a reportagem do iG e, com dificuldades para falar português, contou sua trajetória. Muçulmano sunita, Abogavar participou de cerca de seis manifestações contra o regime sírio, que começaram de maneira pacífica em 2011 e escalaram para uma sangrenta guerra civil que deixou ao menos 93 mil mortos , segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

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Abogavar relata que alguns amigos morreram e outros ficaram presos por semanas e até meses nas mãos das tropas do regime sírio naquela época. Segundo ele, quem participava dos protestos arriscava não voltar para casa com vida. "Os mais velhos não iam para as ruas por ter medo. Mas os jovens iam sem temer, estavam cegos", relatou.

Síria observa destroços de prédios destruídos por bombardeios das forças sírias no bairro de al-Hamidiyyeh, Homs (29/06)
AP
Síria observa destroços de prédios destruídos por bombardeios das forças sírias no bairro de al-Hamidiyyeh, Homs (29/06)

Fuga do alistamento obrigatório

Além da repressão cada vez mais intensa do regime, em 2011 Abogavar estava perto de completar 18 anos, idade que o obrigaria a se alistar no Exército de Assad. Para evitar que o filho fosse para guerra, o pai de Abogavar tomou a decisão de enviá-lo para o Egito, onde sírios não precisam de visto para entrar.

Foi apenas 24 horas antes de sua partida que o estudante soube que suas passagens para o Cairo haviam sido compradas. De uma hora para outra, Abogavar teve de deixar para trás seu bairro familiar, onde morava e trabalhava, para escapar dois destinos possivelmente fatais: tornar-se soldado ou ser morto em um protesto.

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Em uma viagem de quatro horas, o dobro do tempo normal por causa da presença de postos de controle montados por causa do conflito, Abogavar foi levado por um motorista de Homs até Damasco. No aeroporto da capital, justificou às autoridades sua viagem dizendo que ia para o Egito para fazer faculdade. Sozinho no Cairo, Abogavar teve de aguardar quatro meses até a concessão de seu visto para embarcar ao Brasil, onde tem parentes.

Ao desembarcar em São Paulo, tornou-se um dos 202 refugiados sírios que vivem no País tentando superar os traumas do conflito. Apesar de os sírios serem a terceira nacionalidade em número de refugiados reconhecidos no Brasil, o País recebe uma parcela pequena comparado ao fluxo de 1,8 milhão de refugiados, considerado o pior desde o genocídio de Ruanda , em 1994.

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Em São Paulo, Abogavar divide o aluguel do apartamento, localizado a 130 metros do seu trabalho, com outros dois refugiados de Homs. Mas a relação que desenvolveu nesse pouco mais de um ano no País ainda é um pouco apática. "Não tem nada específico que eu goste ou não goste (no Brasil). Estou aqui... vivendo."

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O desejo de voltar para a Síria fica evidente enquanto Abogavar fala sobre Al-Kusur e sua participação nos protestos. Daqui de São Paulo, acompanha o noticiário de sua terra natal pelas televisão e internet. Apenas dois tios permanecem no país e já faz dois meses desde a última vez que Abogavar conversou com eles. Pelo telefone, segundo conta, seus parentes sempre dizem que tudo está bem pelo temor de que suas conversas sejam interceptadas pelo governo. Os pais e irmãos dele se refugiaram no Egito tempo depois de sua partida.

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Apesar de reconhecer que o conflito na Síria está pior hoje do que quando deixou o país, Abogavar acredita que a guerra vai terminar em breve. "Bashar achou que os manifestantes iam se calar, mas o povo não se calou e continuou saindo às ruas e lutando por seus direitos. O governo está enfraquecido. Para ele cair é só uma questão de tempo."

*Nome alterado a pedido do entrevistado por questão de segurança

Nesta sexta-feira, o leitor do iG conhecerá a história de Samir Ahmad, de 28 anos. Ahmad relata ter ficado preso por 20 dias e ter sido torturado após participar de manifestações. 

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