Reações contrárias à deposição de líder egípcio refletem divisões políticas no Egito; número de mortos chega a 43

Enquanto gritos de alegria eram ouvidos entre manifestantes reunidos na Praça Tahrir, no Cairo, após o Exército anunciar a deposição do presidente egípcio Mohammed Morsi, em outros locais partidários do islamita bradavam: "Não ao governo militar!"

Anúncio: Exército do Egito depõe islamita Morsi e suspende Constituição

No Twitter: Morsi caracteriza como golpe sua deposição no Egito

Soldados egípcios são posicionados perto da Universidade do Cairo, onde milhares de partidários da Irmandade Muçulmana estão reunidos
AP
Soldados egípcios são posicionados perto da Universidade do Cairo, onde milhares de partidários da Irmandade Muçulmana estão reunidos

Saiba mais: Entenda a crise que levou à queda de Morsi no Egito

As reações contrárias à deposição de Morsi refletem as profundas divisões do Egito. Essa cisão ficou mais latente nos últimos dias com os intensos confrontos nas ruas entre opositores e partidários do ex-presidente que, antes do anúncio do Exército, haviam prometido que resistiriam ao que chamam de golpe contra a democracia. Na cidade de Marsa Matrouh, norte do Egito, confrontos entre manifestantes pró e contra Morsi deixaram quatro mortos nesta quarta, elevando para 43 o número de mortos desde domingo.

Em discurso televisionado pelo canal estatal, o ministro da Defesa e chefe do Exército, Abdul Fattah al-Sissi, informou que Morsi será substituído pelo chefe da Suprema Corte Constitucional, Adly Mansour, 68 anos, com a Constituição de viés islâmico tendo sido suspensa. Um governo tecnocrata será formado para administrar o país durante um período de transição, que ele não especificou, até a realização de novas eleições.

Véspera: Morsi descarta renúncia em meio a protestos e pressão militar

Em uma declaração no Twitter, Morsi caracterizou o anúncio do Exército como um golpe militar e pediu que todos os cidadãos, civis ou militares, respeitem a Constituição e a lei. Ele também pediu que todos os egípcios "evitem um banho de sangue".

Pela segunda vez em dois anos e meio de tumultos políticos, o poderoso Exército se posicionou para retirar um líder do poder. Mas, dessa vez, depôs um presidente eleito democraticamente , o primeiro na história do Egito. A deposição aconteceu depois de ter expirado às 17 horas locais (12 horas em Brasília) o prazo de 48 horas dado a Morsi para resolver a crise política.

A violência nas ruas atingiu um nível alarmante na madrugada desta quarta, quando 16 manifestantes morreram e mais de 300 ficaram feridos em um confronto durante uma marcha pró-Morsi perto da Universidade do Cairo. Segundo a mídia estatal, entre os mortos havia manifestantes de ambos os lados do conflito, a maioria deles com ferimentos de balas.

Saiba mais: Veja especial do iG sobre a Primavera Árabe

Pela manhã, as ruas em torno da Universidade do Cairo estavam repletas de carros queimados, lixo, barricadas improvisadas e páginas rasgadas de livros didáticos em inglês, francês e alemão. Cartazes de campanha da histórica eleição presidencial do ano passado, que elegeu Morsi, ainda estavam presos nas paredes.

Algumas centenas de islâmicos partidários de Morsi e um menor grupo de seus oponentes se reuniram em campos opostos, ambos armados com tacos e paus. Um partidário de Morsi segurava um cartaz no qual se lia: "Aos partidários do golpe, nosso sangue os perseguirá, e vocês pagarão um preço caro por cada gota desperdiçada do nosso sangue."

Antes do anúncio: Exército assume posições no Egito

Alguns dos partidários de Morsi reunidos pertenciam a uma facção mais conservadora que a Irmandade Muçulmana e diziam que os esforços para derrubar o presidente mostravam que a própria democracia não era digna de confiança. "Não era essa a democracia que eles queriam?", questionou Mahmoud Taha, 40 anos, um comerciante. "Não fizemos o que eles queriam?"

"Não acreditamos na democracia para começo de conversa; não é parte da nossa ideologia. Mas aceitamos e seguimos o que eles queriam e agora é isso o que eles fazem", disse. "Eles estão protestando contra uma democracia eleita."

Segunda: Exército do Egito dá ultimato de 48 horas para acordo político

Fim do ultimato: Assessor de Morsi diz que golpe está em andamento

Seu amigo, que disse se chamar Abu Hamza, 41 anos, acrescentou: "Isso é uma conspiração contra a religião. Eles apenas não querem um grupo islâmico no governo."

Tamarod: O movimento que quer saída de presidente do Egito

Todos diziam que estavam preparados para um retorno da repressão contra os islâmicos, como ocorria no regime de Hosni Mubarak, deposto em 2011 . "Claro. O que mais eles vão fazer?", disse Ahmed Sami, 22 anos, um vendedor.

Por outro lado, seus opositores estavam extasiados. "Se Deus quiser, não haverá nenhum membro da Irmandade Muçulmana no país", disse Mohamed Saleh, 52 anos. "Deixe que eles se exilem ou se escondam como costumavam fazer, ou que vão para a prisão, não importa", disse. "Nada parecido com um 'partido islâmico' deverá existir depois de hoje."

Com The New York Times e AP

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.