Israel ataca instalações militares na área de Damasco, acusa Síria

Por iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Ataques lançados pelo 2º dia consecutivo têm como alvo mísseis do Irã endereçados ao Hezbollah e indicam escalada no envolvimento israelense na sangrenta guerra civil síria

Aviões israelenses atingiram áreas dentro e ao redor da capital síria neste domingo, detonando uma série de explosões ao ter como alvo mísseis guiados altamente precisos de fabricação iraniana possivelmente endereçados ao grupo militante libanês Hezbollah, disseram autoridades e ativistas.

Sábado: Israel lança ataque aéreo contra carregamento de armas na Síria

Reação: Síria acusa Israel de coordenar ataques com 'terroristas'

AP
Reprodução de vídeo mostra fumaça e fogo no céu sobre Damasco na madrugada deste domingo

Janeiro: Ataque aéreo de Israel atinge comboio de caminhões na Síria

Saiba mais: Vejo o especial do iG sobre a Primavera Árabe

O ataque, o segundo em três dias, indicou uma grande escalada do envolvimento israelense na sangrenta guerra civil síria. A Casa Branca não fez nenhum comentário imediato sobre os ataques deste fim de semana. O governo sírio reagiu aos ataques acusando Israel de coordená-los com "terroristas", incluindo militantes vinculados à rede Al-Qaeda. O regime sírio caracteriza de terroristas os rebeldes com quem trava uma guerra civil há dois anos.

A agência de notícias estatal Sana, da Síria, informou que explosões aconteceram no centro de pesquisa científica e militar de Jamraya, a noroeste de Damascus e a cerca de 15 quilômetros da fronteira libanesa, com "informações iniciais indicando que a causa seriam mísseis israelenses". Sana afirmou que o ataque deixou vítimas, mas não especificou um número.

Por sua vez, a TV al-Manar, do Hezbollah, negou que o centro de pesquisa em Jamraya tenha sido atingido. Citando fontes de segurança sírias não identificadas, a TV afirmou que o ataque em Jamraya teve como alvo três lugares, incluindo um quartel-general, um depósito de armas e um centro de defesa aérea. Já a TV libanesa Al-Mayadeen, que tem vários repórteres na Síria, disse que um dos ataques atingiu uma posição militar na vila de Saboura, a oeste de Damasco e a cerca de 10 quilômetros da fronteira do Líbano.

Êxodo: Sunitas fogem de área costeira da Síria após relatos de dois massacres

Sob condição de anonimato, uma fonte de inteligência no Oriente Médio confirmou que Israel lançou uma ação aérea na capital síria na madrugada deste domingo, mas não especificou as localizações. O alvo eram mísseis Fateh-110, que têm sistemas de direção precisos com melhor desempenho do que qualquer armamento que o Hezbollah tenha em seu arsenal, disse a fonte à Associated Press.

Escalada do conflito

Os ataques são lançados enquanto os EUA consideram como responder a indicações de que o regime sírio pode ter usado armas químicas em sua sangrenta guerra civil. O presidente dos EUA, Barack Obama, descreveu o uso de tal armamento como uma "linha vermelha", e seu governo estuda quais são suas opções - incluindo uma possível ação militar.

Dia 25: EUA suspeitam de uso de armas químicas por Síria

Coletiva: Obama sinaliza que não terá pressa para agir sobre armas químicas na Síria

O Irã, um aliado próximo do regime de Bashar al-Assad, condenou os bombardeios, e uma fonte graduada sugeriu uma possível resposta não de Teerã, mas do Hezbollah.

Israel disse que quer ficar fora do conflito sírio, mas o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, repetidamente alertou que Israel estaria preparado para lançar uma ação militar se armas químicas ou outros tipos de armamentos que pudessem alterar o equilíbrio de poder com o Hezbollah chegassem às mãos do grupo militante islâmico. Israel e o Hezbollah travaram uma guerra de um mês em 2006 que terminou em um impasse.

Nahum Sirotsky: Conflito sírio aumenta tensão de Israel com o libanês Hezbollah

Alerta: Israel ameaça atacar se Síria perder controle de armas químicas

O ativista Maath al-Shami, com base em Damasco, disse que os ataques aconteceram às 3 horas locais. "Damasco tremeu. A explosão foi muito, muito forte", disse al-Shami, acrescentando que uma das explosões aconteceu perto da montanha de Qasioun, ao redor de Damasco. Segundo ele, esse ataque teve como alvo uma posição militar para a Guarda Republicana, que é encarregada de proteger Damasco, o centro de poder de Assad. Não houve declaração oficial do Exército sírio.

Os ataques põem o regime de Assad em uma posição difícil. Se fracassar em responder, parecerá fraco e ficará aberto para que tais bombardeios se tornem corriqueiros. Mas, se retaliar, arrisca atrair o Estado judeu e seu poderoso Exército para um conflito mais amplo.

Vídeo: Jornalista britânico relata suposto ataque com armas químicas na Síria

Neste domingo, o Exército israelense posicionou duas baterias de seu sistema de defesa Domo de Ferro para o norte do país, descrevendo a medida como parte das "análises da situação no momento". O Domo de Ferro protege contra foguetes de curto alcance. O Hezbollah lançou milhares de foguetes contra Israel na guerra de 2006, enquanto os aviões israelenses destruíram amplas áreas no sul do Líbano.

O Fateh-110, ou Conquistador, é um míssil balístico de curto alcance desenvolvido pelo Irã e primeiramente usado em 2002. A República Islâmica revelou uma versão atualizada em 2012 que melhorou a precisão da arma e aumentou seu alcance para 300 quilômetros.

Um ataque aéreo em janeiro também teve como alvo armas aparentemente endereçadas ao Hezbollah em Jamraya, disseram autoridades de Israel e dos EUA. Na época, um funcionário americano afirmou que Israel atingiu caminhões perto do centro de pesquisa que continham mísseis antiaéreos SA-17. Os ataques atingiram os caminhões e o centro de pesquisa, disse a fonte. O Exército sírio não confirmou que os bombardeios atingiram o carregamento de armas, apenas afirmando que aviões israelenses bombardearam o centro de pesquisa.

Repercussão regional

Israel tem observado com cuidado a guerra civil síria, que em várias ocasiões repercutiu em suas fronteiras, assim como de outros países vizinhos, incluindo Turquia, Líbano e Iraque. O Estado judeu está particularmente preocupado que os estoques de armas químicas do regime sejam transferidos para o Hezbollah ou caiam nas mãos de extremistas islâmicos que lutam do lado dos rebeldes.

AP
Presidente da Síria, Bashar al-Assad (D), visita universidade em Damasco (04/05)

Sarin: Israel acusa governo Assad de usar armas químicas contra rebeldes sírios

Preocupações sobre as armas químicas sírias aumentaram em semanas recentes, em meio a crescentes indicações de que o regime de Assad pode tê-las utilizado contra os rebeldes que tentam depor o governo.

Os EUA disseram que informações de inteligência indicam que o governo sírio provavelmente usou o mortífero gás neurológico sarin em ao menos duas ocasiões, ecoando análises prévias do Reino Unido, França e Israel. Obama caracterizou o uso de tais armas como uma "mudança de jogo" que traria "enormes consequências", mas disse que precisa de provas mais definitivas antes de tomar uma decisão de como responder - e se adotará ação militar.

Escalada: EUA consideram armar rebeldes sírios, diz secretário da Defesa

Parece haver pouco impulso no momento para uma intervenção direta, e Obama disse na sexta que não antevê um cenário em que os EUA enviarão soldados à Síria. Em vez disso, o secretário de Defesa americano, Chuck Hagel, disse na quinta que Washington repensa sua oposição a armar os rebeldes sírios. Até agora os EUA descartaram armar os rebeldes, temendo que elas acabem nas mãos de grupos vinculados à Al-Qaeda ou outros extremistas que lutam com os rebeldes.

Os ataques deste fim de semana e o de janeiro se seguem a décadas de inimizade entre Israel e os aliados Síria e Hezbollah, que consideram o Estado judeu como seu inimigo mortal. A situação ficou ainda mais complicada com a guerra civil síria, que está consumindo o Exército de Assad e ameaça privar o Hezbollah de seu principal aliado, além de seu corredor terrestre para o Irã. Os dois países fornecem ao Hezbollah dinheiro e armas.

*Com AP e New York Times

Leia tudo sobre: síriahezbollahisraelmundo árabeprimavera árabedamasco

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas