Assassinato de dirigente da oposição na Tunísia provoca protestos

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Chokri Belaid era um dos maiores críticos do governo islâmico e foi morto na porta de sua casa; opositores convocam greve geral em protesto ao crime

Um líder opositor da Tunísia e crítico ferrenho do governo islâmico do país foi morto com um tiro nesta quarta-feira (6) - o primeiro assassinato de um político após a revolta que derrubou o governo de Zine El Abidine Ben Ali há dois anos.

A morte de Chokri Belaid provocou protestos que reuniram mais de mil tunisianos do lado de fora do Ministério do Interior nesta quarta. Pedindo a queda do governo liderado pelos islâmicos, os manifestantes gritavam "vergonha, vergonha, Chokri morreu", "onde está o governo?" e "o governo tem que cair".

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Policiais dispersaram a multidão com gás lacrimogêneo, depois que uma ambulância levando o corpo de Belaid foi acompanhada pelos manifestantes.

Houve protestos também nas ruas de Sidi Bouzid. Foi nessa cidade que Mohamed Bouazizi, um universitário com pós-graduação, ateou fogo ao corpo em desespero depois que a polícia confiscou seu carrinho de frutas, que operava sem licença. A morte de Bouazizi desencadeou protestos que derrubaram o então presidente em 2011.

"Mais de 4 mil estão protestando agora, queimando pneus e atirando pedras contra a polícia", afirmou Mehdi Horchani, morador de Sidi Bouzid, à Reuters. "A raiva é muito grande."

De acordo com a rádio Mosaique, a polícia também respondeu a manifestações com gás lacrimogêneio na cidade costeira de Sousse e representantes do Ennahda foram atacados em várias outras localidades.

Neste dia de tumulto, a Frente Popular, coalizão opositora de esquerda da qual Belaid fazia parte, convocou uma greve geral para quinta-feira em protesto pelo crime. A legenda também afirmou que estava se retirando da Assembleia Constituinte, que vem lutando para escrever uma nova Constituição para o país.

É esperado que empresas, universidades e escolas permaneçam fechadas amanhã.

Belaid, membro da coalizão de esquerda conhecida como Frente Popular, foi atingido por um tiro quando saía de sua casa na capital, Túnis, segundo informou a agência de notícias estatal TAP. Ele chegou a ser levado para uma clínica médica das redondezas, mas não resistiu aos ferimentos.

Ennahda

O opositor de 48 anos era conhecido por ser crítico do Ennahda, o partido islâmico moderado que domina o governo tunisiano. A legenda divulgou um comunicado caracterizando o assassinato como um "crime hediondo" que prejudica "a segurança e estabilidade" da nação. "(O partido) exorta as autoridades de segurança a fazer todos os esforços possíveis para encontrar os criminosos e levá-los à Justiça", disse.

O Ennahda reforçou que não teve qualquer ligação com o assassinato, e culpou pessoas interessadas em tirar do rumo a transição democrática da Tunísia após o levante popular de 2011.

Reuters
Policial combate manifestantes durante protestos em Túnis, na Tunísia

"O Ennahda é completamente inocente no assassinato de Belaid... É possível que o partido governista cometesse esse assassinato quando isso poderia prejudicar os investimentos e o turismo?", disse o presidente do partido, Rached Gannouchi, à Reuters. "A Tunísia hoje está no maior impasse político desde a revolução. Devemos ficar calados e não entrar num espiral de violência. Precisamos mais do que nunca de unidade."

O motivo por trás do assassinato ainda não ficou claro. O crime acontece em meio à luta da Tunísia para manter a estabilidade e melhorar sua economia após o longo governo de Ben Ali, derrubado em uma revolta há dois anos, no contexto da Primavera Árabe.

O governo liderado pelos muçulmanos também negocia com partidos de oposição a remodelação do gabinete e possivelmente a expansão da coalizão governante. Semanas de conversas e diálogos não tiveram resultados práticos, uma vez que os partidos não conseguem chegar um acordo sobre a redistribuição de poder no país.

Belaid tem sido um crítico da liderança da Tunísia e tem acusado autoridades de não fazer o suficiente para impedir a violência cometida por ultraconservadores, que têm como alvos teatros e exibições de arte consideradas desrespeitosas ao Islã.

De acordo com sua família, Belaid recebia ameaças de morte regularmente. No fim de semana, radicais fizeram uma marcha liderada por Belaid no norte da Tunísia, parte de uma série de reuniões políticas que foram interrompidas pelas ações de gangues.

Belaid era uma espécie de porta-voz contra os chamados "Comitês de Proteção da Revolução", que muitos acusam de estar por trás de atos de violência que atingem o país. Há suspeitas de que esses grupos sejam afiliados do partido Ennahda e que sua missão é procurar e destruir vestígios do antigo regime.

Reação

O presidente tunisiano Moncef Marzouki, que está em Estrasburgo, na França, para participar do Parlamento Europeu, cancelou a viagem que faria ao Cairo para a Conferência Islâmica, e voltará para a Tunísia, segundo informou a rádio Shems.

"Chokri Belaid foi assassinado nesse dia sabendo o que eu ia dizer para vocês", disse diante do Parlamento Europei. "Essa é uma carta enviada para nós que nos recusamos a abrir. Rejeitamos essa mensagem e continuaremos a desmascarar os inimigos da revolução."

Depois, em coletiva, Marzouki disse que o assassinato não tiraria a Tunísia do rumo da transição democrática. "Todas essas tentativas de desestabilização - e ocorrerão outras porque para alguns o modelo tunisiano não pode dar certo - eu posso dizer para vocês que vamos enfrentar esse desafio e derrotá-lo", disse.

Os membros do Parlamento Europeu fizeram um minuto de silêncio em homenagem a Belaid.

No fim de semana, Marzouki ameaçou renunciar se o impasse político no país não for resolvido, prejudicando a estabilidade do governo, que luta para recuperar-se após a revolta.

O primeiro-ministro Hamadi Jebali condenou o ataque contra Belaid, qualificando-o como assassinato político e um golpe contra a revolução da Primavera Árabe.

AP
Homem observa local onde Chokri Belaid foi assassinado em Túnis, na Tunísia

Com AP e Reuters

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