Tempestade de inverno aumenta miséria e desespero de refugiados da Síria

Por AP |

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Condições climáticas adversas transformam campo de refugiados em pântano lamacento onde ventos derrubam barracas e expõem moradores a temperaturas extremamente frias

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Uma tempestade de inverno está contribuindo para a miséria de dezenas de milhares de sírios que procuram fugir da guerra civil do país, transformando um campo de refugiados em um pântano lamacento onde os ventos uivantes derrubam barracas e expõem os moradores a temperaturas extremamente frias.

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Refugiados sírios abrem caminho na lama no campo em Zaatari, perto da fronteira da Síria com a Jordânia (08/01)

Vídeo: Refugiados sírios vivem situação de miséria e desespero

Alguns refugiados frustrados em um acampamento em Zaatari, onde cerca de 50 mil estão abrigados, atacaram trabalhadores humanitários com paus e pedras após as tendas terem desabado com ventos de 60 quilômetros por hora, disse Ghazi Sarhan, porta-voz da instituição de caridade jordaniana que ajuda a administrar o acampamento. A polícia disse que sete trabalhadores jordanianos ficaram feridos.

Depois de três dias de chuva, a água barrenta acabou com as barracas dos refugiados, entre os quais há mulheres grávidas e crianças. Aqueles que não ficaram desabrigados utilizaram baldes para retirar a água de sua moradia, outros construíram muros de barro para se manter secos.

As condições de vida no campo Zaatari são "piores do que viver na Síria", disse Fadi Suleiman, um refugiado de 30 anos.

A maioria dos moradores de Zaatari é de crianças menores de 18 anos e mulheres. Eles são alguns dos mais de 280 mil sírios que fugiram para a Jordânia desde o início da revolta contra o presidente Bashar al-Assad, em março de 2011. À medida que o combate aumentou nas últimas semanas, o número de refugiados também cresceu.

Mais de meio milhão de sírios fugiu para países vizinhos, incluindo Turquia e Líbano, para escapar da guerra civil que deixou mais de 60 mil mortos em quase dois anos de violência. Tempo úmido e frio em todo o Oriente Médio tornou as condições dos refugiados nesses países também miseráveis – dois acampamentos chegaram a ser inundados no Vale Bekaa, no Líbano, quando o rio local transbordou.

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Vários grandes poças de água parada – incluindo uma quase do tamanho de um campo de futebol e com cerca de 4 centímetros de profundidade – se espalharam no campo Zaatari.

Uma mulher que se identificou como Ahmed Um e cuja barraca foi inundada disse que sua filha de 9 meses morreu ali recentemente. Ela culpou o frio, dizendo que a menina sofria de diarreia aguda e vômitos. No entanto, oficiais do acampamento não atribuíram qualquer das mortes ao frio.

Um refugiado de 37 anos que se identificou como Abu Samir disse ter reclamado com autoridades do acampamento sobre as condições – e perguntou se aqueles que moravam em barracas frágeis seriam capazes de receber um dos 2,5 mil trailers doados pela Arábia Saudita –, mas os funcionários do acampamento só cavaram um buraco de drenagem que não ajudou muito para afastar a água da sua e de outras barracas inundadas.

No mês passado, a ONU disse que precisava de US$ 1 bilhão para ajudar os sírios na região, e que eram necessários US$ 500 milhões para ajudar os refugiados na Jordânia. No total, 597.240 refugiados se registraram ou aguardam registro no órgão na Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egito. Alguns países têm estimativas mais altas, observando que muitos encontraram acomodações sem terem registros.

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"Pedimos à comunidade internacional para acelerar e apoiar os refugiados sírios com uma melhor infraestrutura, como trailers e unidades pré-fabricadas, para lidar com o inverno rigoroso", disse Ali Bibi, membro da agência da ONU para refugiados.

Na terça-feira de 8 de janeiro, a TV estatal da Jordânia relatou que, depois que um oficial regional visitou o acampamento, 70 famílias foram transferidas das barracas para um local diferente. O Programa Mundial de Alimentos disse ser incapaz de ajudar 1 milhão de pessoas que passam fome dentro da Síria.

A tempestade também tem sido um fator a mais na situação dos refugiados sírios no Líbano, onde houve chuvas torrenciais e inundações em todo o país.

Dois acampamentos de refugiados sírios no leste do Vale Bekaa ficaram imersos em água após uma enchente do rio Litani. Dezenas de refugiados sírios saíram em busca de abrigo alternativo com seus pertences encharcados.

Hiam al-Hussein, 23, do distrito Homs da Síria, estava entre um grupo de refugiados abrigados em uma garagem perto do acampamento alagado de al-Faour. "Tínhamos trazido conosco um par de colchões, tapetes. Já não temos mais nada", disse ela, vestindo uma camisola, calças de pijama e um lenço rosa. "Deus ajude as mulheres e crianças."

"O rio transbordou ontem à noite e, de repente, tudo ao nosso redor foi levado embora pela água", contou Abdullah Taleb, um refugiado da cidade de Aleppo que chegou no Líbano há três meses com sua esposa e dois filhos. "Isso que estamos vivendo é um pesadelo."

Imad al-Shummari, chefe do município de Al-Marj, disse que as autoridades trabalhavam com os refugiados para reforçar suas barracas e providenciar abrigo alternativo, bem como a distribuição de aquecedores, cobertores e outras necessidades.

O Líbano tem cerca de 175 mil refugiados sírios, de acordo com dados da ONU, embora o governo libanês estime que o número esteja por volta dos 200 mil. A maioria está alojada em escolas e apartamentos, mas alguns acampam em barracas perto da fronteira com a Síria.

O tempo frio e chuvoso também vêm causando problemas nos acampamentos da Turquia. Um incêndio se espalhou por várias barracas no acampamento de refugiados de Shah Suleyman, matando duas crianças e deixando outras quatro feridas, de acordo com a agência estatal Anadolu. Uma criança de 5 anos morreu no local, enquanto um jovem de 15 anos morreu depois de ter sido levado para um hospital.

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Refugiados sírios carregam seus pertences no campo de refugiados de Zaatari, perto da fronteira síria em Mafraq, Jordânia (09/01)

O fogo foi aparentemente causado pelo uso ilegal de eletricidade por parte dos refugiados, fornecida por radiadores para as barracas, disse o vice-primeiro-ministro Besir Atalay.

A Autoridade da Turquia de Gestão de Desastres e Emergências, que supervisiona os acampamentos de refugiados, disse que as autoridades estão se preparando para as condições do inverno desde agosto. Um oficial da unidade encarregada dos preparativos disse que todos os refugiados receberam botas de inverno, agasalhos, casacos e cobertores em novembro.

Quase todas as barracas foram renovadas para enfrentar o tempo frio ou substituídas por aquelas capazes de suportar as condições de inverno, disse. Todas as barracas têm aquecedores, de acordo com o funcionário, que falou sob condição de anonimato por causa das regras do governo.

Mesmo com tais esforços, Mohammed al-Abed, um sírio de 30 anos que vive no acampamento Yayladagi da Turquia, disse que as condições são "péssimas".

"Muitas vezes, há uma longa fila de pessoas, incluindo crianças, esperando no frio para usar os banheiros", disse. "Não há água quente. Pessoas estão ficando doentes, especialmente as crianças. Há tosse, infecções e pessoas com resfriados", acrescentou.

"É uma situação infeliz, mas tenho vergonha de reclamar porque estamos muito melhor do que nossos irmãos presos na Síria", disse, citando as condições do acampamento Atmeh no lado sírio da fronteira.

"Pelo menos estamos melhor equipados com alguns dos aquecedores e cobertores. Eles não têm nada, nem sequer possuem aquecimento ou eletricidade. Nada."

Por Dale Gavlak

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