Em livro, repórter reflete sobre revolta na Líbia um ano após morte de Kadafi

Em 'O Silêncio Contra Muamar Kadafi', Andrei Netto faz relato pessoal sobre luta pela democracia no país árabe, contando detalhes dos bastidores da cobertura e de sua prisão

Bruna Carvalho - iG São Paulo |

Reprodução
Capa do livro 'O Silêncio Contra Muamar Kadafi', de Andrei Netto

O repórter Andrei Netto esteve na Líbia nos principais momentos da revolta de 2011 que culminou na queda do regime de Muamar Kadafi em meio a uma intensa guerra civil: os primeiros levantes armados em fevereiro; a queda da capital, Trípoli, em agosto; e a morte do ditador em outubro . O fato de ter testemunhado tais acontecimentos, que comporiam capítulos importantes na história da Primavera Árabe , levou o correspondente em Paris do jornal O Estado de S. Paulo a escrever o livro "O Silêncio Contra Muamar Kadafi", lançado em novembro.

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Em um relato pessoal em primeira pessoa, Netto reconstitui os oito meses de levante com depoimentos de opositores - como Siraj, que estava entre os rebeldes que encontraram Kadafi em um duto na cidade de Sirte, pouco antes de sua execução -, líderes políticos, diplomatas e moradores da Líbia. Sem intenção de ser um relato histórico, a narrativa da obra transita pelo tempo de forma não-linear e relembra até os contatos do repórter com o regime kadafista realizados em 2009, durante a cobertura da visita do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva  ao país.

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O "Silêncio Contra Muamar Kadafi" também dá detalhes dos oito dias em que o repórter, juntamente com um jornalista iraquiano do jornal britânico The Guardian, foi mantido em cárcere por uma milícia pró-regime em Sabarata, a 60 km da capital. Apesar da prisão em março de 2011, Netto retornou mais duas vezes ao país ao longo daquele ano para resolver, como explica em suas próprias palavras, uma situação "inacabada com a Líbia".

"Eu queria ir (para a Líbia), queria voltar (após a prisão). Quando saí, fiz todo o esforço que estava ao meu alcance para voltar. Quando o jornal me deu autorização, senti um aperto no peito, como se fosse um desafio para mim mesmo (...) Quando passei a fronteira e cheguei ao território líbio, esse aperto desapareceu e isso me deu um alívio imenso. Foi enfrentar o que tinha sido um pesadelo. Encarar o trauma e superá-lo. Não digo com isso que não tenha nenhum outro trauma relacionado à prisão e a todos aqueles dias de ameaça. Mas esse grande problema foi equacionado", disse ao iG

O livro de Netto não é apenas sobre a Líbia ou sobre as revoltas do mundo árabe, mas um relato sincero de um repórter que enfrentou situações de risco durante um conflito armado - o que pressupõe cuidados extras nas relações com as fontes, na movimentação pelas cidades e no planejamento de cada passo a ser dado. A narrativa transmite sentimentos como o medo durante a entrada clandestina no país, a excitação em descobrir uma informação como os preparativos dos rebeldes para tomar Trípoli e a frustração diante das dificuldades encontradas.

Após a revolução

Hoje, a Líbia enfrenta desafios inerentes a quase todos os países do mundo árabe que passaram por revoltas mais agudas, como Egito, Iêmen e Tunísia. Em julho deste ano, o país realizou as primeiras eleições legislativas em 48 anos, que deram a vitória a partidos liberais . Ao longo de 2012, a Líbia restabeleceu a produção de petróleo, mas a disputa de poder entre grupos que lutaram contra Kadafi e a insegurança seguem presentes no território. Exemplo disso foi o ataque em 11 de setembro deste ano que deixou quatro mortos no Consulado dos EUA em Benghazi, incluindo o embaixador Christopher Stevens.

Para Netto, que retornou ao país em 2012, fatos como este, entretanto, não significam que o levante na Líbia tenha sido infrutífero, pois vê o período pós-revolucionário como parte de um processo complexo de consolidação lenta das instituições democráticas. O jornalista coloca que esse momento é marcado por instabilidades e incertezas. "Não podemos cair em um romantismo e achar que as revoluções são perfeitas ou em um pessimismo e achar que elas deram errado."

Netto conta que as fissuras da oposição da Líbia já podiam ser sentidas desde antes da morte de Kadafi. Porém, naquela ocasião, diante de um objetivo comum - a deposição do ditador -, a revolução impôs um "cimento social" nesses grupos distintos, que hoje brigam pelo controle do país. Segundo o repórter, isso por um lado é positivo, pois são as diferenças que dão origem ao pluripartidarismo e à diversidade de ideias. O problema é quando esses grupos se transformam em milícias armadas ou em partidos que visam, através da democracia, a corrompê-la posteriormente por meio de golpes de Estado.

Por se tratar de um país que durante 42 anos só conheceu uma figura como líder e ficou décadas isolado geopoliticamente, é esperado que o caminho para a democracia seja diferente daquele que o Ocidente espera ver na Líbia ou nos outros países palco de revoltas. E tenha, após as revoluções, uma disputa em menor ou maior grau entre secularistas e islâmicos . Para Netto, o fato de uma Constituição ter como base a  sharia - código de leis do islamismo - não necessariamente é um aspecto negativo. "Depende do quão fundamentalista é essa relação entre religião e política. Temos uma cultura cristã que está espelhada em nossa Constituição."

Os desafios que a Líbia enfrentará daqui para frente foram enumerados por Adam Ahmed, 22 anos. Norte-americano e filho de líbios, ele retornou a Benghazi para lutar na revolta. Entrevistado por Andrei Netto em Trípoli logo após a morte de Kadafi, afirmou: "A reconstrução é a parte mais difícil. Precisamos de infraestrutura, precisamos reformar a economia, o sistema político e o sistema educacional. E temos de começar agora. A revolução ainda não acabou."

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