Manifestantes egípcios entram em confronto por referendo constitucional

Choques entre partidários de presidente islamista e opositores seculares deixam ao menos 19 feridos em Alexandria; também há protestos no Cairo

iG São Paulo | - Atualizada às

Empunhando espadas, islamitas egípcios entraram em confronto com oponentes do projeto de uma nova Constituição na cidade mediterrânea de Alexandria, em um sinal de aumento das tensões na véspera do referendo sobre o esboço da Carta, aprovada às pressas em meio à controvérsia causada por um decreto que garantia superpoderes ao presidente Mohammed Morsi.

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Manifestante mostra mãos acorrentadas durante manifestação contra projeto de nova Constituição no Cairo, Egito

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A violência em Alexandria, iniciada após um clérigo untraconservador defender o "sim" no referendo e caracterizar os opositores como "seguidores dos infiéis", deixou ao menos 19 feridos.

A crise coloca os recém-empossados islamitas contra os liberais seculares do país, minorias como os cristãos e um amplo setor de muçulmanos moderados. Ambos os lados aumentaram suas campanhas depois de semanas de violência e de amplas divisões que transformaram a votação de sábado em um indicador da identidade egípcia depois do levante que forçou a renúncia de Hosni Mubarak em fevereiro de 2011.

Agitando bandeiras, milhares de islâmicos também encheram uma praça perto do palácio presidencial no Cairo, segurando fotos de Morsi, que insistiu que o referendo começará no sábado como previsto, apesar de acusações de que todo o processo foi feito às pressas. A poucos quilômetros de distância, a oposição realiza um protesto em defesa do voto "não" , expondo as profundas divisões na luta pela identidade do Egito pós-revolucionário.

Desde a aprovação do decreto de superpoderes em 22 de novembro, confrontos no Cairo e em outras cidades deixaram aos menos oito mortos e centenas de feridos. Com a justificativa de que a medida aceleraria a transição democrática do país, a iniciativa garantia imunidade judicial a todas as decisões do presidente e impedia a Assembleia Constitucional de ser contestada legalmente. Após semanas de pressão, Morsi revogou o decreto no dia 8, mas recusou-se a cancelar o referendo constitucional.

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Um influente político da oposição alertou que a violência pode prosseguir nos sábados do dia 15 e 22, quando os egípcios vão às urnas para votar sobre a Constituição. A oposição laica e liberal diz que o projeto levado à votação não reflete as aspirações dos 83 milhões de egípcios, e restringe os direitos de minorias, incluindo os cristãos, que compõem 10% da população.

O referendo será realizado em dois sábados porque não há juízes suficientes para monitorar todas as seções eleitorais. A aprovação da nova Carta é uma pré-condição para a realização de novas eleições gerais no começo de 2013 - fato que muitos esperam propiciar a estabilidade para o mais populoso país árabe.

Fazendo campanha pelo "sim" no referendo, grupos islâmicos que haviam sido cruciais na eleição de Morsi, em junho, reuniram-se em uma mesquita perto do palácio presidencial. A maioria dos participantes do comício era de homens barbados. Alguns trouxeram seus filhos e suas mulheres cobertas por véus. "Vim dizer ‘sim' à legitimidade do presidente Morsi e à lei islâmica da sharia", disse o clérigo Mohamed Murad, 37 anos.

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Ferido busca abrigo durante confrontos entre partidários e opositores de governo em Alexandria, Egito

O líder oposicionista Mohamed El Baradei, ganhador do Nobel da Paz, pediu a Morsi que cancele o referendo "antes que seja tarde demais". Inicialmente, a oposição decidiu boicotar o referendo, mas depois recuou e passou a fazer campanha pelo "não" - desde que haja garantias de lisura na votação.

Há grande expectativa de que a nova Constituição seja aprovada, já que a Irmandade Muçulmana, grupo mais bem organizado do país, venceu todas as votações realizadas no país desde a rebelião popular que derrubou Mubarak. Muitos egípcios, cansados das turbulências dos últimos meses, também podem votar a favor, simplesmente na esperança de que as coisas se acalmem.

A votação do sábado se restringirá ao Cairo e outras grandes cidades. Os resultados oficiais só serão anunciados após o sábado seguinte, mas é provável que após o primeiro dia já surjam algumas sondagens. O Exército se mobilizou para garantir a ordem, com cerca de 120 mil soldados e 6.000 tanques e blindados.

*Com AP e Reuters

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