Sem fazer concessões, presidente do Egito oferece diálogo com a oposição

Morsi rejeita anular contestado projeto de Constituição e decretos de superpoderes um dia após confrontos terem deixado seis mortos e quase 700 feridos no Cairo

iG São Paulo | - Atualizada às

Durante um discurso televisionado na noite desta quinta-feira, o presidente do Egito, Mohammed Morsi, não ofereceu nada de concreto para pôr fim à pior crise política do país em quase dois anos, recusando-se a anular um contestado projeto de Constituição ou revogar decretos que lhe garantiram poderes quase absolutos .

Após choques: Tanques são posicionados ao redor de palácio presidencial do Egito

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Reprodução de vídeo mostra presidente do Egito, Mohammed Morsi, durante pronunciamento televisionado à nação

Dia 26: Presidente egípcio limita extensão de decreto após reunião com juízes

Ele convidou a oposição para um diálogo "abrangente e produtivo" a partir de sábado no palácio presidencial, que nesta quinta foi protegido por tanques do Exército , mas não ofereceu sinais de que deve fazer quaisquer concessões significativas.

Uma noite após milhares de seus partidários e oponentes terem se enfrentado violentamente do lado de fora do palácio presidencial, deixando ao menos seis mortos e quase 700 feridos, Morsi acusou alguns membros da oposição de servir a remanescentes do regime de Hosni Mubarak , que renunciou em fevereiro de 2011 sob pressão de uma mobilização popular. Ele prometeu que nunca tolerará ninguém que trabalhe para destituir seu governo "legítimo".

"Tais eventos dolorosos aconteceram por causa das diferenças políticas que devem ser resolvidas por meio do diálogo", afirmou o presidente após dois dias de protestos violentos. Em uma mostra da continuidade das tensões, nesta quinta-feira 200 manifestantes egípcios colocaram fogo na sede da Irmandade Muçulmana, de Morsi. Segundo uma autoridade de segurança, o incêndio era limitado e a polícia tinha afastado os manifestantes.

As declarações do líder egípcio foram feitas após a oposição já ter antecipado que não dialogará com Morsi se primeiramente ele não rescindir os decretos emitidos no dia 22 que garantem imunidade judicial a suas decisões e não arquivar o esboço constitucional adotado às pressas por seus aliados islamitas.

Segundo Morsi, o referendo  sobre a nova Carta, que está no centro da crise, ainda será realizado como previsto em 15 de dezembro, apesar das objeções da oposição ao documento. Ele afirmou que os decretos serão cancelados depois da votação, qualquer que seja seu resultado. De acordo com ele, se o projeto for rejeitado no referendo do dia 15, outra Assembleia Constituinte será formada para elaborar um novo esboço.

Segundo seus críticos, o esboço da nova Carta não protege alguns direitos fundamentais, incluindo a liberdade de expressão, e abre a porta para uma aplicação mais rigorosa da lei islâmica ( sharia ).

Eleito em junho, Morsi fez o pronunciamento lendo anotações previamente preparadas, mas por várias vezes improvisou. Ele vestia uma gravata preta em mostra de luta pelos seis mortos nos confrontos de quarta-feira. Segundo o presidente egípcio, houve 80 prisões de pessoas envolvidas nos "atos violentos".

O discurso foi feito enquanto mais renúncias atingiram seu governo. O diretor de transmissão estatal renunciou nesta quinta, assim como Rafik Habib, um cristão que foi vice-presidente do Partido Liberdade e Justiça, da Irmandade Muçulmana. Suas partidas se seguem ao anúncio de Zaghoul el-Balshi, o novo secretário-geral da comissão que fiscaliza o referendo constitucional, de que deixava o governo.

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Tanques e arame farpado são usados para reforçar a segurança perto do palácio presidencial egípcio no Cairo

“Não participarei em um referendo que derramou o sangue egípcio", disse em uma entrevista televisionada durante os confrontos na noite de quarta. Com as renúncias desta quinta-feira, nove funcionários deixaram o governo de Morsi nos últimos dias.

No início da manhã, seis tanques e dois veículos blindados da Guarda Revolucionária, unidade de elite responsável pela proteção do presidente, foram estacionados do lado de fora do palácio e nas ruas próximas.

Mohammed Zaki, chefe da Guarda, buscou assegurar a população de que suas forças serão imparciais. "Não seremos uma ferramenta para reprimir manifestantes. Nenhum tipo de força será usada contra os egípcios", afirmou, em declaração à agência oficial Mena.

*Com AP, BBC, AFP e Reuters

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