Revolucionária que ajudou a derrubar Kadafi vira refugiada no Reino Unido

Magdulien Abaida, 25 anos, relata agressões e perseguição de milícias que ajudou a fomentar durante a revolta na Líbia

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Sunderland, na costa nordeste da Inglaterra, é um refúgio improvável para uma ativista líbia forçada a deixar para trás a revolução que ela ajudou a fomentar.

Magdulien Abaida, de 25 anos, que ajudou a organizar a ajuda provida a rebeldes que lutavam contra o então coronel Muamar Kadafi , acaba de receber asilo por parte do governo britânico. Agora, a pequena cidade à beira do mar do Norte, onde Magdulien não conhece ninguém, se tornou sua casa temporária.

A ironia da situação é óbvia: ela está sendo perseguida pelas pessoas que ajudou durante a revolução. "É muito ruim você se colocar em risco por trabalhar pela revolução", diz ela. "E, no final das contas, ter de abandoná-la porque ela deixou de ser segura. Durante a revolução, todos estavam unidos, trabalhando juntos. Mas agora ficou difícil."

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Magdulien Abaida, de 25 anos, em entrevista a programa da BBC

Filha de um advogado, Magdulien cresceu na costa do Mediterrâneo, na capital da Líbia, Trípoli. Quando começaram os levantes contra as quatro décadas do regime linha-dura de Kadafi, em fevereiro de 2011, ela viajou ao Cairo e a Paris para fazer campanha contra o coronel e para ajudar a organizar o envio de comida e suprimentos médicos aos rebeldes.

Após a queda do governo pelos rebeldes, ela retornou à Líbia para fazer campanha pelos direitos das das mulheres - principalmente por leis de igualdade para a nova Constituição que seria redigida. Como outros ativistas, Magdulien estava preocupada com o que parecia ser a crescente influência de fundamentalistas islâmicos no país.

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Causou temores, por exemplo, o discurso de outubro de 2011 de Mustafa Abdul Jalil - líder do Conselho Nacional de Transição e a face mais internacionalmente conhecida da revolução anti-Kadafi - quando ele propôs que ficasse mais fácil para que homens líbios tivessem mais de uma esposa.

"Foi um choque para nós. Não foi por isso que fizemos a revolução - não para que homens pudessem se casar com quatro mulheres", diz Magdulien. "Queríamos mais direitos, e não a destruição dos direitos de metade da sociedade."

Em meados deste ano, em visita à cidade líbia de Benghazi, um dos principais focos do levante contra Kadafi, Magdulien foi detida duas vezes por integrantes de uma poderosa milícia formada para combater o coronel líbio mas que, mesmo após a morte deste, se manteve ativa e com um forte viés islâmico.

Magdulien estava em Benghazi para participar de uma conferência de mulheres, que foi interrompida por homens armados. Mais tarde, milicianos a prenderam em seu quarto de hotel. Ela foi solta, mas detida novamente no dia seguinte e mantida presa em uma base da milícia.

"Um homem chegou e começou a me chutar e me bater com sua arma", relembra. "Ele dizia: 'Vou te matar e te enterrar aqui, e ninguém vai saber'. Ele me chamava de espiã para Israel, de prostituta e vadia. Pensei que fosse morrer."

Depois de ferida, ela acabou sendo solta, mas seguiu sendo acusada de espionar para Israel, algo que nega veementemente. Temendo ser morta caso fosse detida novamente, Magdulien decidiu fugir parao Reino Unido em setembro.

País sem lei

A Anistia Internacional, que ajudou Magdulien em seu pedido de asilo ao governo britânico, acredita que o caso coloca em evidência que a nova Líbia virou um país sem lei.

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"O caso é emblemático do comportamento que observamos desde a queda do regime (de Kadafi)", conta Diana el-Tahawy, pesquisadora da Anistia no norte da África. "Milícias armadas estão totalmente fora de controle. Há centenas deles pelo país, prendendo pessoas sem mandados e mantendo-as em isolamento, torturando-as."

Segundo ela, há relatos de pessoas morrendo sob tortura. "Na última vez que estive na Líbia, em setembro, em apenas um dia conversei com três famílias cujos membros morreram em um centro de detenção após serem torturados." Enquanto isso, prossegue, "o governo não quer ou não consegue coibi-las".

Em setembro, uma multidão irada avançou contra bases de milícias em Benghazi, exigindo o fim de sua atuação fora da lei. Isso aconteceu depois de milicianos terem sido acusados de envolvimento no ataque contra o consulado dos EUA na cidade e no assassinato do embaixador Chris Stevens .

Agora, o recém-empossado governo líbio promete controlá-las. O novo ministro da Justiça, Salah Marghani, ex-advogado de direitos humanos, disse à BBC que é preciso "pôr fim aos abusos imediatamente, especialmente em prisões e centros de detenção líbios".

Preocupação internacional

Países como o Reino Unido, que gastaram milhões de dólares na operação militar que ajudou a derrubar Kadafi, veem com preocupação os abusos de direitos humanos observados na Líbia. Mas destacam o progresso do país rumo à democracia, incluindo a realização de suas primeiras eleições livres , em meados do ano.

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"Estamos preocupados, mas estamos trabalhando com um governo que também está preocupado com isso", disse ao programa Newsnight, da BBC, Alistair Burt, da Chancelaria britânica. "Estamos investindo em projetos para formar pessoas capazes de entender o princípio dos direitos humanos. Tentamos dar ajuda estratégica e trabalhamos com pessoas que reconhecem que, apesar dos progressos, claramente há muitos desafios após 40 anos (de regime)."

Apesar desse cenário, as mulheres líbias estão avançando mais do que sob a era Kadafi, opina a ativista Sara Maziq, do grupo Women 4 Libya, baseado em Londres. "Há 33 mulheres no Congresso, duas ministras no gabinete", diz ela. "Em uma sociedade conservadora como a Líbia, isso parece um milagre."

Mas Magdulien discorda. Ela pretende continuar seu ativismo a partir do Reino Unido, porque acha que, se voltar à Líbia, não receberá uma segunda chance das milícias. "Se eles me pegarem novamente, tenho certeza de que não vão me soltar."

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