Annan renuncia como enviado especial para a Síria

Autor de plano de paz nunca respeitado diz que deixa cargo em 31 de agosto por não ter recebido apoio suficiente da ONU; rebeldes atacam base com tanque capturado do governo

iG São Paulo | - Atualizada às

O enviado especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Kofi Annan, anunciou nesta quinta-feira que deixará seu posto, disse a ONU em um comunicado. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou que Annan decidiu não renovar seu mandato, iniciado em 23 de fevereiro, quando ele expirar em 31 de agosto.

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Annan é autor de um plano de paz de seis pontos que tinha a intenção de pôr fim aos conflitos na Síria, mas ele nunca foi completamente respeitado por nenhum dos dois lados do conflito de mais de 16 meses. O plano previa, sobretudo, o fim dos combates entre governo e oposição armada e uma transição política.

Ao justificar sua decisão, o enviado especial afirmou que optou por deixar o posto por não ter recebido todo o apoio de que precisava do Conselho de Segurança, principal órgão da ONU composto por 15 membros, particularmente por causa do impasse entre seus cinco membros com direito a veto: Rússia e China de um lado, e EUA, Reino Unido e França do outro.

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"As coisas desmoronaram em Nova York", resumiu. "A crescente militarização em campo e a clara falta de unidade no Conselho de Segurança fundamentalmente mudaram as circunstâncias para o exercício efetivo do meu papel", afirmou em coletiva em Genebra, momentos após sua renúncia ter sido anunciada pela ONU.

Ban disse que Annan merecia "nossa profunda admiração pela forma desprendida como empregou suas habilidades formidáveis e prestígio a essas tarefas". O secretário-geral disse estar em discussão com a Liga Árabe para encontrar um sucessor para "continuar esse crucial esforço de pacificação".

"Continuo convencido de que mais banho de sangue não é a resposta; cada dia disso apenas dificultará ainda mais encontrar uma solução, ao mesmo tempo em que trará mais sofrimento para o país e um grande perigo para a região ", acrescentou.

Reação

O regime sírio de Bashar al-Assad lamentou a decisão em comunicado do Ministério das Relações Exteriores e a atribuiu  "aos Estados que tentam desestabilizar a Síria e que colocaram obstáculos à missão de Annan", em alusão aos países ocidentais, Turquia e os países do Golfo, críticos de Assad.

Nos EUA, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, disse que a renúncia de Annan destacava o fracasso de Rússia e China em apoiar uma ação contra Assad. No Reino Unido, o primeiro-ministro David Cameron afirmou que a saída de Annan evidenciava que a atual abordagem fracassou - e que a ONU precisa ser mais dura com a Síria. "Temos esse apavorante banho de sangue. Acho que precisamos aumentar a pressão", afirmou.

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Violência

A renúncio foi anunciada no mesmo dia em que rebeldes sírios atacaram a base aérea de Menagh , na Província de Aleppo, no norte da Síria, com um tanque capturado de tropas do governo. O ataque foi feito enquanto ativistas relataram que o regime lançou novas ações contra militantes da oposição na capital do país, Damasco, deixando dezenas de mortos.

A informação sobre Aleppo é uma das primeiras indicações de que os rebeldes estão começando a usar armamento pesado que conseguiram capturar nas semanas passadas do Exército sírio. Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), a base militar de Menagh era usada pelo regime para lançar ataques contra posições rebeldes na área ao redor.

O uso do tanque pelos rebeldes também representa uma escalada nos confrontos entre os dois lados. Até agora, os opositores sofreram com a grande disparidade em armamentos em relação ao bem armado Exército sírio, que também tem jatos e helicópteros de combate à sua disposição.

Em Damasco, o regime anunciou várias ações contra os rebeldes em bairros na parte sul da cidade, mantando e prendendo "vários terroristas", como o governo se refere aos rebeldes.

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Operações também aconteceram no distrito de Muhajireen, perto do Palácio Presidencial em Damasco, e 20 pessoas foram presas, segundo o ativista Abu Qais. Uma grande ofensiva rebelde foi reprimida na capital há duas semanas, mas as ações desta quinta mostram que bolsões de resistência continuam em Damasco e nas áreas rurais dos arredores.

Segundo Abu Qais, ao menos 20 foram mortos no subúrbio de Yalda, no sul, enquanto o OSDH informou que 47 morreram no bairro de Jdaidat Artouz, no sudoeste da Província de Damasco. A ofensiva do governo inclui disparos, ataques com projéteis e execuções em público.

Alerta

Nesta quinta-feira, a Organização da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO) disse que cerca de 3 milhões de pessoas necessitam de ajuda alimentícia, agrícola e para a criação de gado na Síria.

Desse total, cerca de 1,5 milhão precisa de ajuda alimentícia durante os próximos três a seis meses, especialmente nas áreas mais afetadas pelo conflito e o deslocamento de população. Mais de 1 milhão necessita de ajuda agrícola e para a criação de gado, incluindo sementes, ração, combustível e reparação de bombas para irrigação.

*Com AP, BBC e EFE

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