Ministro diz que evitar viagem ao país seria 'o mais prudente'; diplomatas brasileiros foram transferidos para o Líbano por via terrestre

BBC

O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, disse que o bairro onde fica a Embaixada do Brasil em Damasco, capital da Síria, está se transformando "numa zona conflagrada". Na manhã desta sexta-feira, diplomatas brasileiros deixaram a cidade rumo a Beirute, capital do Líbano, por via terrestre.

"A situação (na Síria) está se deteriorando, há um grau elevado de imprevisibilidade sobre o que poderá ocorrer nos próximos dias, de maneira que evitar viagem à Síria, no momento, seria o mais prudente", afirmou Patriota, após cerimônia na Base Aérea de Brasília.

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Soldados sírios caminham entre carros queimados no distrito de Mudan, no sul da capital Damasco
AP
Soldados sírios caminham entre carros queimados no distrito de Mudan, no sul da capital Damasco


Segundo o ministro, porém, a embaixada em Damasco não será fechada. "Haverá funcionários que vão responder por pedido de apoio consular, e o consulado em Beirute está sendo reforçado para atender a eventuais demandas."

Patriota disse ainda que o governo brasileiro ajudará os brasileiros na Síria que queiram deixar o país. "Os 3 mil brasileiros têm dupla nacionalidade. A grande maioria tem pequenos negócios, construiu sua vida na Síria e não tem intenção de partir. Todos aqueles que pedirem apoio para partir, obviamente nós daremos, mas houve um numero relativamente pequeno (de solicitações)."

A retirada dos diplomatas brasileiros ocorreu em meio a uma intensificação dos confrontos entre rebeldes e tropas leais ao governo do presidente Bashar Al-Assad. Por telefone, um diplomata contou que a estrada de Damasco até a fronteira estava razoavelmente segura nas primeiras horas da manhã. "Não vimos movimentação de militares nem rebeldes. Chegamos à fronteira em segurança", disse.

No momento em que falava com a BBC Brasil, o diplomata, que pediu para não ter seu nome revelado, disse que o grupo já estava em território libanês. Segundo ele, o posto de fronteira da Síria com o Líbano, por onde o comboio passou, estava sob controle de forças do governo e repleto de sírios querendo deixar o país. "Vi muitos cidadãos estrangeiros, inclusive diplomatas de outras embaixadas saindo da Síria para Líbano", afirmou.

O embaixador do Brasil na Síria, Edgard Casciano, contou por telefone à BBC Brasil que a violência na capital síria havia se intensificado e que funcionários da missão haviam sido orientados a não trabalhar na quinta-feira.

Ele afirmou que, a partir de quarta-feira, a capital passou a viver seus dias mais violentos desde o início da crise, há mais de um ano, com intensos tiroteios que deixaram as ruas completamente desertas. "O perigo é real. É impossível pôr os pés na rua . É uma situação extremamente problemática", disse o embaixador.

Ele contou que os tiroteios e explosões eram tão intensos na noite de quarta-feira que não conseguiu dormir. " Helicópteros sobrevoavam constantemente e dava para ouvir muitas explosões que, pela intensidade, eram conseqüência de armas pesadas".

'AK-47'

Há quatro anos em Damasco, Casciano disse que a situação na capital é muito tensa e já não há garantias de segurança para as embaixadas estrangeiras no bairro. "Até cogitamos que o governo brasileiro enviasse agentes de segurança para proteger a embaixada. Mas com o aeroporto fechado, a ideia foi deixada de lado".

O embaixador também falou que sua casa foi atingida por tiros. "Uns dias atrás, eu achei balas de rifles AK-47 em meu jardim. Ninguém está seguro na cidade", afirmou.

Os ataques do Exército Livre da Síria (ELS) contra tropas leais ao governo em Damasco começaram no domingo e já entraram em seu sexto dia. Vários bairros nos subúrbios ao sul da capital teriam sido tomados por rebeldes, segundo opositores do regime.

Na quarta-feira, um atentado matou o ministro de Defesa e seu vice, cunhado do presidente Bashar al-Assad. O governo vem mobilizando mais tanques e tropas em direção à capital e, segundo analistas, antecede uma grande batalha pela cidade.

De acordo com a ONU, mais de 16 mil pessoas já morreram no país desde o início da revolta, há mais de um ano, que exige a renúncia do presidente Bashar al-Assad.

Brasileiros

Segundo Casciano, a maioria dos brasileiros registrados na Síria vive em Damasco, mas há uma comunidade na região de Latakia e Tartous, na costa da Síria, reduto de alauítas (grupo muçulmano sunita ao qual pertence Assad) e cristãos. "Naquela região da costa, a situação é bem menos tensa, com poucos combates entre rebeldes e governo. Então não fomos contatados ainda por brasileiros (que vivem lá)".

Em contrapartida, o setor consular da embaixada vinha registrando um grande aumento no pedido de visto de turista por parte de cidadãos sírios. "Muitos têm parentes no Brasil e desejam sair do país momentaneamente". Segundo o embaixador, o atual clima seria de "guerra aberta" na Síria. "A guerra em Damasco os deixou extremamente apavorados", afirmou.

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