Embaixador sírio que desertou convoca políticos e militares a abandonar regime

Deserção de Nawaf Fares, primeiro diplomata do alto escalão a se juntar à oposição, ocorre depois de general amigo de Assad deixar forças sírias

iG São Paulo | - Atualizada às

O embaixador da Síria no Iraque  Nawaf Fares, que abandou o regime de Bashar al-Assad ao se juntar à oposição, conclamou políticos e militares a seguir o seu exemplo.

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“Apelo a todos os membros do partido a fazer o mesmo porque o regime se transformou em uma ferramenta para oprimir o povo e suas aspirações à liberdade e dignidade”, declarou Fares na quarta-feira, ao anunciar sua saída. “Anuncio que, a partir deste momento, estou ao lado da revolução popular na Síria, meu lugar natural diante dessas difíceis circunstâncias pelas quais a Síria passa”.

AFP
Fares anunciou renúncia em transmissão pela Al-Jazeera (11/7)

Primeiro diplomata sírio do alto escalão a abandonar Assad, Fares deixou o posto em Bagdá na quarta-feira e encontra-se no Catar, segundo autoridades iraquianas.

As primeiras informações sobre a deserção de Fares vieram do ministro das Relações Exteteriores iraquiano, Hoshiyar Zebari, e confirmadas pelo canal de TV Al-Jazeera. Ele confirmou sua decisão em um comunicado divulgado pela TV e pelo Facebook.

O Ministério das Relações Exteriores sírio afirmou que Fares fez declarações que contradizem com suas obrigações no posto e não têm mais qualquer relação com a Embaixada Síria em Bagdá. Além disso, ressaltou o ministério em comunicado, Fares pode estar sujeito a acusações.

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No pronunciamento transmitido pela TV, Fares disse que o dever das Forças Armadas "é defender a pátria da agressão externa e não tratar seu povo como inimigo". "Onde está a honra em matar o povo? A fidelidade é com o povo e não com o ditador que assassina o povo", disse o embaixador, que pediu aos soldados que "dirijam suas armas contra os que matam o povo".

Além disso, pediu que todas as camadas do povo sírio se unam para proteger a Síria e, assim, não permitir que o regime semeie a "fitna" (caos).

Golpe

A deserção de Fares, que é sunita, pode representar um golpe importante para Assad, que deseja convencer o mundo de que conduz uma defesa legítima de seu país contra grupos armados apoiados por estrangeiros que querem derrubar o governo.

A decisão segue-se à saída do país na semana passada do general de brigada sunita Manaf Tlas , amigo de infância de Assad, cuja seita alauíta, minoritária, depende de aliados sunitas para manter o controle sobre a população síria, de maioria sunita.

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As saídas ocorrem no momento em que a Rússia e os países ocidentais do Conselho de Segurança da ONU voltaram na quarta-feira a expressar divergências sobre a crise na Síria, ao se enfrentar sobre a necessidade de ameaçar com sanções a quem descumprir o plano de paz idealizado por Kofi Annan para o país árabe.

Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e Portugal apresentaram um projeto de resolução que ameaça a Síria com sanções diplomáticas e econômicas se, no prazo de dez dias, o regime de Assad não retirar os militares das cidades e dar fim ao uso de armamento pesado.

Frente à expressa oposição da Rússia à inclusão de sanções, o texto contempla que, se o governo sírio não cumprir essas condições nos dez dias seguintes à eventual adoção do projeto, o Conselho imporá sanções diplomáticas e econômicas contidas no artigo 41 da Carta da ONU.

No entanto, na terça-feira a Rússia apresentou seu próprio projeto de resolução para renovar a missão da ONU na Síria sem a ameaça de qualquer tipo de sanções, um texto que conta com o apoio de Pequim.

Moscou se opõe a qualquer menção a sanções ou ao capítulo 7 da Carta da ONU (que autoriza sanções e uso da força), já que considera que essa deve ser "uma última opção" e que sanções "não serão efetivas" para frear o conflito.

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O Conselho de Segurança trabalha no momento com dois projetos de resolução sobre a Síria, encaminhados para renovar o mandato dos observadores da ONU. Potências ocidentais têm divergido com Rússia e China sobre o que fazer frente ao conflito sírio, que alcançou o 16º mês.

Estupros

Também na quarta-feira, um relatório divulgado pela ONG de direitos humanos Mulheres Sob Cerco revelou 81 casos de violência sexual na Síria desde o início do levante popular contra o regime de Assad. A maioria deles teria ocorrido em Homs, reduto das forças rebeldes e alvo frequente de ataques das forças do governo.

Lauren Wolfe, diretora da ONG, disse que os relatos colhidos na Síria com entidades de direitos humanos, testemunhas e meios de comunicação deixam claro que mulheres sírias têm sido vítimas de estupros coletivos e outras formas de violência como uma tática bélica.

"A conclusão fácil de se tirar é que as coisas realmente se deterioraram a um estado de quase animalidade", disse Wolfe. "Eles estão realmente rebaixando as mulheres a um nível em que elas deixam de ser humanas. Elas acabam sendo mais um campo de batalha na qual a guerra é travada."

*Com BBC, AFP, EFE, Reuters

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