Kofi Annan diz ter chegado a um acordo com o presidente da Síria

Enviado da ONU diz que Assad concordou com 'nova abordagem' para acabar com crise que assola o país; Rússia suspende venda de caças e armas ao país aliado

iG São Paulo | - Atualizada às

O enviado da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Kofi Annan, anunciou nesta segunda-feira ter alcançado um acordo com o presidente Bashar Al-Assad sobre uma nova "abordagem" que irá propor aos rebeldes, visando colocar um fim à violência que causa estragos no país. Ativistas da oposição afirmam que o número de mortos no conflito subiu para mais de 17 mil.

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Enviado especial para Síria Kofi Annan reúne-se com o presidente sírio Bashar Al-Asssad


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Annan, que dois dias antes reconheceu o fracasso do seu plano de seis pontos para acabar com a crise, não deu detalhes sobre o conteúdo do acordo, mas disse que o submeterá aos rebeldes que combatem o Exército.

O enviado disse à imprensa em Damasco que a reunião com Assad foi "franca" e "construtiva". "Falamos sobre a necessidade de acabar com a violência e sobre os meios para alcançar isso" e "chegamos a um acordo sobre uma abordagem, que eu vou compartilhar com a oposição armada."

O jornal sírio ligado ao poder Al-Watan havia revelado que o encontro se concentraria na transição política sugerida por Annan, aprovada pelo grupo de Ação sobre a Síria em Genebra no dia 30 de junho. O plano prevê a formação de um governo de transição que reúna representantes do regime e da oposição, sem mencionar a saída de Assad.

A comunidade internacional diverge sobre sua interpretação, já que os Estados Unidos consideram que abre caminho para a era "pós-Assad", e Rússia e China, aliadas de Damasco, reiteram que os sírios devem definir seu futuro. O presidente russo, Vladimir Putin, defendeu novamente nesta segunda-feira uma "solução política pacífica" na Síria, rejeitando "qualquer ingerência pela força desde o exterior".

Pouco antes, o porta-voz do Ministério sírio das Relações Exteriores, Jihad Makdesi, havia indicado no Twitter que a reunião entre Annan e Assad tinha sido "construtiva". "A implementação do plano de seis pontos esteve no centro das discussões nas quais também foi abordada uma forma de ir adiante", indicou Makdesi em referência ao projeto do emissário, que não foi aplicado.

O enviado chegou nesta segunda-feira ao Irã para conversar com as autoridades do país. Com a violência na Síria crescendo de maneira caótica, Annan aponta o Irã, um estratégico aliado sírio, como uma parte importante para solucionar o conflito.

Antes da reunião de Annan com o presidente sírio, a oposição criticou a visita do mediador a Damasco, ao considerar que o fracasso de sua missão tornava necessária uma ação internacional urgente "sob o capítulo 7" da carta da ONU, que obrigaria o regime a acabar com a repressão.

Armas da Rússia

A Rússia afirmou nesta segunda-feira que não vai entregar caças ou outras armas novas para a Síria enquanto a situação permanecer sem solução. "Enquanto a situação na Síria for insustentável, não haverá novas entregas de armas para lá", disse Vyacheslav Dzirkaln, vice-diretor de órgão que supervisiona comércio de armas do país.

A recusa de enviar mais armas para a Síria pode indicar a medida mais forte já tomada por Moscou para se distanciar de Assad, que foi defendido de sanções mais duras pelo governo russo no Conselho de Segurança. Também pode acabar com até US$ 4 bilhões em contratos pendentes, incluindo caças e sistemas de defesa aérea que seriam entregues neste ano.

Um porta-voz do Serviço Federal para a Cooperação Técnica Militar de Dzirkaln não confirmou as declarações do vice-diretor quando foi contatado por telefone.

Embora seja totalmente legal, o comércio de armas da Rússia com a Síria aumentou temores de que Moscou esteja fornecendo a Assad as armas que estão sendo usadas contra os manifestantes.

Dzirkaln teria dito que a Rússia, um dos maiores fornecedores de armas da Síria, não entregaria uma remessa de 36 caças Yak-130, um contrato que teria sido assinado no final do ano passado. "Na atual situação, falar sobre entregas de aviões para a Síria é prematuro", disse.

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Foto divulgada neste domingo mostra protesto realizado na sexta-feira em Idlib


Violência

O regime sírio tenta esmagar há 16 meses um protesto, que no início pedia pacificamente a saída de Assad do poder, mas que se militarizou com o passar do tempo. Repressão e combates causaram mais de 17.129 mil mortes no país - 11.897 civis, 4.348 soldados e 884 desertores - segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), uma ONG opositora radicada no Reino Unido.

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O plano de Annan estipula, além do fim da violência, um diálogo político, o envio de ajuda humanitária às zonas assoladas pelos combates, o fim das prisões arbitrárias, a liberdade de circulação para os jornalistas e a liberdade de associação e direito a protestar pacificamente.

Mas a violência se intensificou desde a entrada em vigor oficial no dia 12 de abril do cessar-fogo previsto por Annan, com cerca de 6 mil mortos neste período, segundo o OSDH. Nesta segunda-feira, pelo menos 31 pessoas - 16 civis, 11 soldados e quatro rebeldes - foram mortos em episódios de violência em todo o país, segundo o OSDH, uma organização com sede no Reino Unido, que se baseia em uma rede de militantes e de testemunhas.

Em Qousseir, um reduto rebelde próximo a Homs, as tropas do governo iniciaram no início da tarde um intenso bombardeio contra a localidade, que está há três meses sob fogo de artilharia. Nesta ocasião, as tropas não esperaram o anoitecer. "Quando atacam pela manhã, seu objetivo é causar o maior número possível de vítimas civis, pois sabem que a esta hora as pessoas estão nas ruas", afirmou à AFP Hussein, um dos ativistas locais.

O governo alega combater "grupos terroristas" financiados pelo exterior com o objetivo de semear o caos no país.

Com AFP e AP

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