Amigo de Assad, general deserta e foge da Síria; diplomatas se reúnem em Paris

Manaf Tlass, autoridade mais graduada a desertar do regime nos quase 16 meses de conflito, está a caminho de Paris; em encontro, Hillary pede pressão sobre Rússia e China

iG São Paulo | - Atualizada às

O general sírio Manaf Tlass, ligado à família de Bashar al-Assad e amigo de infância do presidente, abandonou o regime. Tlass era membro da Guarda Republicana, unidade de elite do governo, e filho de um ex-ministro da Defesa.

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Ele é a autoridade mais graduada a desertar governo de Assad nos quase 16 meses de repressão governamental e de guerra civil desde o início de um levante popular contrário ao regime de 42 anos de sua família.

De acordo com o chanceler da França, Laurent Fabius, ele está a caminho de Paris, onde tem uma irmã e onde diplomatas de quase cem países ocidentais e árabes se reuniram nesta sexta-feira para a conferência Países Amigos do Povo Sírio, para fortalecer a oposição síria e pressionar Assad.

"Posso confirmar que ele desertou e está a caminho da França", disse Fabius durante o encontro, acrescentando que antes ele estava na Turquia.

De acordo com a fonte síria, Tlass havia sido afastado de suas funções há mais de um ano por ser considerado pouco confiável. Há meses estava em Damasco, onde deixou crescer o cabelo e a barba.

O oficial, filho do general Mustafah Tlass, ex-ministro da Defesa e amigo de Hafez al-Assad, pai do atual chefe de Estado, integrou a classe privilegiada do regime. Natural de Rastan, na Província de Homs (centro), atualmente nas mãos dos rebeldes, o sunita de 40 anos estudou no colégio militar com Assad.

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Tlass tentou coordenar missões de conciliação entre o poder e os rebeldes em Rastan e em Deraa (sul), mas não teve sucesso.

De acordo com outra fonte na capital síria, a ruptura do general com o regime aconteceu após um ataque em março contra Baba Amr , bairro de Homs controlado pelos rebeldes. Ele se recusou a liderar a unidade que recebeu a missão de reconquistar o setor, e Assad o teria afastado de seu cargo.

De acordo com amigos do general, toda a família de Tlass está no exterior, incluindo seu irmão Firas, um empresário que mora em Dubai.

Seu primo Abdel Razzak Tlass é o comandante em Homs da brigada Faruk, uma unidade de combate do Exército Livre da Síria, formado em grande parte por desertores das tropas do regime.

Conferência de Paris

Em Paris, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, cobrou uma maior pressão das potências mundiais sobre Rússia e China para mostrar que eles terão um preço a pagar por impedir um maior progresso rumo à transição democrática na Síria.

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"Não basta vir ao encontro dos Amigos do Povo Sírio porque, vou dizer muito francamente, não creio que Rússia e China achem que estão pagando algum preço, nenhum, por estarem do lado de Assad", disse, referindo ao fato de os dois países não terem ido ao encontro.

AFP
A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, participa de encontro sobre conflito sírio em Paris, França

"A única forma disso mudar é se toda nação representada aqui deixar claro, de forma direta e urgente, que Rússia e China pagarão um preço porque estão impedindo o progresso, bloqueando, e isso não é mais tolerável", afirmou.

Rússia e China vetaram resoluções no Conselho de Segurança da ONU que aumentariam a pressão sobre Assad. Hillary repetiu que os EUA desejam uma resolução da ONU sob o Capítulo 7 da Carta das Nações Unidas, que permita ao Conselho de Segurança autorizar ações que vão da diplomacia a sanções econômicas e uma eventual intervenção militar.

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Presente no encontro, o presidente do Conselho Nacional Sírio (CNS, oposição), Abdel
Baset Sayda, pediu que os participantes se pronunciem a favor da criação de uma zona de exclusão aérea e de corredores humanitários no país.

As declarações foram feitas no dia em que o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, em inglês) afirmou que o número de refugiados sírios nos países vizinhos chegou a 103 mil e segue crescendo. As estatísticas são do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). 

No Iraque, estão  6.483; na Jordânia, 30.990; no Líbano, 30.183; e na Turquia, 35.565. Outra consequência da crise na Síria é que 13 mil dos 87 mil refugiados iraquianos que até agora residiam no país decidiram abandoná-lo.

AFP
Tanque destruído do Exército sírio é visto abandonado depois de confrontos com rebeldes na vila de Idlib (04/07)

Reação de Assad

Em meio aos novos desdobramentos, Assad advertiu que não cederá diante da pressão e dos embargos internacionais e que está disposto a resistir até o final, segundo uma entrevista publicada nesta sexta-feira pelo diário turco Cumhuriyet.

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"Resistiremos até o final, todo o mundo verá. Não nos renderemos por um par de dólares. Deixem que imponham tantos embargos quanto quiserem, nunca conseguirão nada. Os cidadãos na rua sabem disso", afirmou Assad.

Em uma nova entrevista ao diário turco, o líder da Síria advertiu o Ocidente de que seu país "nunca venderá sua honra, sua soberania nacional e sua personalidade por um pedaço de pão".

*Com AFP, AP, Reuters e EFE

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