Rússia propõe conferência internacional para discutir 'alarmante' crise da Síria

Reiterando oposição à intervenção internacional, chanceler diz que Moscou não se opõe à saída de Assad se isso for resultado de diálogo sírio; confrontos deixam mais 17 mortos

iG São Paulo | - Atualizada às

A Rússia tem preocupações cada vez maiores com o conflito na Síria, mas continua se opondo ao uso de força internacional  e a imposição de uma solução externa para o conflito, disse neste sábado o ministro de Relações Exteriores Sergei Lavrov. Segundo Lavrov, a Rússia não se oporá à partida do presidente da Síria, Bashar al-Assad, se tal medida for resultado de um diálogo entre os próprios sírios e não for forçada por pressões externas.

"Se os sírios concordarem (com a saída de Assad) entre si, estaremos felizes em apoiar tal solução", disse Lavrov. "Mas nós acreditamos que é inaceitável impor as condições para esse diálogo a partir do exterior", afirmou o chanceler russo.

Sem corpos: Observadores da ONU encontram sinais de massacre na síria Qubair

AP
Corpo de sírio Thaer al-Khatib, morto por forças sírias, é carregado durante seu funeral em Kfar Nebel, província de Idlib (08/06)

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"A situação na Síria se torna alarmante", reconheceu na coletiva, na qual apresentou uma proposta para uma conferência internacional sobre a crise. "Há uma impressão cada vez maior de que a Síria está à beira de um conflito civil em escala total ."

As declarações foram feitas no mesmo dia em que confrontos na cidade de Deraa, no sul da Síria, deixou 17 mortos, incluindo nove mulheres e três crianças, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

As novas mortes aconteceram em meio à indignação causada pelo massacre  de entre 55 e 78 civis na vila de Qubair, na Província de Hama (centro do país), na quarta-feira. Observadores da ONU que visitaram Qubair afirmaram na sexta-feira ter visto manchas de sangue nas paredes e sentido um "forte cheiro de carne queimada". A chacina aconteceu menos de duas semanas depois de 108 civis , incluindo 49 crianças e 34 mulheres , terem sido executados na região de Houla, Província de Homs.

Apesar de não conseguirem confirmar a quantidade de mortos em Qubair, que, segundo a oposição, teriam sido retirados pelas forças sírias antes da chegada dos monitores, funcionários manifestaram a suspeita de que as forças governamentais e as milícias leais ao governo foram responsáveis pelos ataques no vilarejo, de maioria sunita, mas cercada de alauítas (um ramo do xiismo) ligadas a Assad. "Marcas de veículos blindados eram visíveis na região. Algumas casas foram destruídas por foguetes, granadas e munição de alto calibre", disse um funcionário.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou ao Conselho de Segurança que, de acordo com evidências preliminares, soldados governamentais cercaram a vila e permitiram a entrada de milícias que mataram civis de forma "bárbara". O governo sírio negou qualquer responsabilidade no episódio e atribuiu o massacre a "terroristas" apoiados por forças do exterior.

Oposição na ONU

Em sua coletiva na Rússia, Lavrov afirmou que dois ataques recentes colocaram os russo na capital síria, Damasco, em perigo: um ônibus com especialistas do país ficou sob fogo no sábado, e houve um ataque com granadas na sexta-feira contra um prédio onde russos vivem. Ninguém ficou ferido, disse.

Apesar das crescentes preocupações de que a situação no país está ficando fora de controle, a Rússia, como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, "não aprovará o uso da força", disse.

A afirmação foi feita enquanto diplomatas em Nova York informaram que representantes do Reino Unido, França e EUA trabalhavam no texto de um projeto de resolução para propor a adoção de sanções contra a Síria. Previamente, a Rússia bloqueou em conjunto com a China duas resoluções da ONU prevendo impor sanções ao regime do presidente Bashar al-Assad.

Lavrov disse que a resistência russa à intervenção "não se deve à ideia de que estamos protegendo Assad e seu regime, mas porque sabemos que a Síria é um complicado Estado com várias confissões religiosas e alguns daqueles que clamam por intervenção militar querem arruinar isso e transformar a Síria em um campo de batalha para dominação no mundo islâmico".

A Rússia tem sido um forte defensor da missão da ONU e da Liga Árabe com o enviado especial Kofi Annan, que pôs em ação um plano para pôr fim à violência entre as forças de Assad e os militantes da oposição. Mas o plano está bem enfraquecido por causa da crescente violência, e Lavrov disse que uma conferência internacional deveria ser feita para impulsionar um compromisso para o plano.

Ele disse que os participantes deveriam incluir os membros permanentes do Conselho de Segurança, a União Europeia e países influentes na região. Ele disse que as ibjeções americanas a uma possível participação do Irã eram "superficiais".

AP
Imagens alegam mostram corpos de crianças mortas em Qubair, na Província de Hama (07/06)

A agência russa Interfax citou neste sábado o vice-chanceler russo, Gennady Gatilov, dizendo que o "Irã tem todo o direito de ser representando nessa conferência por causa de seu papel regional e, considerando-se a característica específica de suas relações com a Síria, a participação de Teerã representaria um papel construtivo."

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Ativistas dizem que a repressão de Assad contra o levante antigoverno deixou 13 mil mortos desde março de 2011, quando começou. Um ano depois do início da revolta , a ONU estimou o número de mortos em mais de 9 mil , mas centenas morreram desde então. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha disse na sexta-feira que 1,5 milhão de civis necessitam de ajuda humanitária na Síria.

*Com AP, AFP e Reuters

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